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A LENDA DO JUDEU ENGANADO - Conto - Jacopo da Varazze

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A LENDA DO JUDEU ENGANADO Jacopo da Varazze (1228 – 1298)   Um homem pediu emprestado a um judeu uma certa soma em dinheiro e, sem dispor de outra garantia, jurou sobre o altar de São Nicolau que a faria render e pagaria a dívida assim que pudesse.  Mas o homem reteve o dinheiro por tanto tempo que o judeu achou por bem reclamá-lo de volta. O homem, contudo, alegou que já pagara o empréstimo. Então o judeu levou o homem a juízo, exigindo que jurasse haver devolvido o dinheiro que tomara emprestado. O devedor apareceu ao julgamento apoiado numa bengala. Esta era oca em seu interior e era ali que o homem escondia as suas moedas de ouro. Quando foi prestar o juramento, o devedor entregou a bengala ao judeu, para que a segurasse, enquanto fazia a declaração solene. Então, jurou que lhe havia restituído mais do que devia. Terminado o juramento, exigiu que o judeu lhe devolvesse a bengala. O credor, sem desconfiar da malícia, a entregou de volta. Então o ludibriador foi embora. No c...

O ESPANTALHO - Conto - Henri Févre

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O ESPANTALHO Henri Févre (1864 – 1837) Tradução de I. (Início do séc. XX)     Os pássaros davam cabo da horta. Não havia fruto em que não deixassem sinal. Os bicos gulosos picavam tudo. A senhora Mutinot, desolada, disse: —Hei de fazer um espantalho. E, como herdara algumas vestes de um tio seu, vestiu a cruz grosseira de um espantalho de um modo decente. Uma calça de fazenda marrom, que tinha a parte posterior remendada com um pano verde. Uma camisa de cor, um sobretudo antigo de largas pontas quadradas, e um chapéu de palha, que parecia ter servido muito tempo de esteira, mas que ainda estava em perfeito estado. Desse modo, qualquer um diria: — Isso está muito próprio — como observou a senhora Mutinot, retrocedendo para observar o efeito, depois de deixar levantado o espantalho na horta. E ela andava satisfeita. Indo pelo caminho que conduzia à aldeia, encontrou-se com dois soldados que vinham a cavalo. —Será que vêm prender alguém? — perguntou a si própria. Depois, meteu-se...

OS PODERES DO OURO - Conto - Francisco Rodrigues Lobo

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OS PODERES DO OURO Francisco Rodrigues Lobo (1580 - 1622)     Houve em Itália, e em um dos mais conhecidos lugares dela, um honrado pai de famílias, nobilíssimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus passados, dotado de muitas partes e graças naturais, e tão liberal do que possuía, que mais parecia despenseiro das riquezas que carcereiro delas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e esperto nos negócios da mercancia, que ajuntou em poucos anos grande cópia de dinheiro, o qual ele guardava com tão solícito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram, e era notável espanto aos naturais verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo, e em o filho a avareza e tenacidade de velho. O pai, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a idade e continuação de gastar largo estava menos rico, muitas vezes lhe dizia, e aconselhava com brandura, que conservasse, com o que ganhara, a honra que tin...

O REMENDÃO QUE FOI REI - Crônica - Autor anônimo do séc. XX

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O REMENDÃO QUE FOI REI Autor anônimo do séc. XX   No começo do século XV, nos tempos de Filipe, o Bom [1] , filho de João Sem Medo e duque de Borgonha, deu-se um caso que lembra um conto de fadas. Uma noite, o duque, que ia a Bourges, encontrou um sapateiro remendão, que dormia profundamente à beira da estrada. Desejando divertir-se à custa do infeliz, mandou que os seus criados o levassem, assim adormecido, para o paço, o despissem dos andrajos que levava e o colocassem vestido com riquíssimo traje de noite no seu próprio leito. Quando o pobre homem acordou na manhã seguinte e se viu rodeado de pajens e escudeiros, julgou ter enlouquecido. Em vão, jurou que não era o duque. A criadagem, porém, tratando-o como tal, perguntou-lhe que roupas desejava vestir nesse dia, e, por fim, foi levado com grande pompa e magnificamente ataviado, a ouvir missa na capela ducal. Todo o cerimonial correspondente a tão alta personagem foi observado rigorosamente. O sapateiro deu audiência sentado no ...

BARBERC E OS FAQUIRES - Conto Humorístico - Voltaire

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BARBERC E OS FAQUIRES Voltaire (1694 – 1778)   Quando estive na cidade de Varanasi, à margem do Ganges, antiga pátria dos brâmanes, procurei instruir-me. Entendia regularmente o hindu. Escutava muito e observa tudo. Hospedara-me em casa do meu correspondente Omri. Era o homem mais digno que jamais conhecera.  Pertencia à religião de Brahma, enquanto eu tinha a honra de ser muçulmano. Não obstante, nunca tivemos a menor discussão a respeito de Maomé e de seus deuses. Fazíamos nossas abluções cada qual por seu lado, bebíamos a mesma limonada e comíamos o mesmo arroz como dois irmãos. Fomos juntos um dia ao templo hinduísta de Gavani e, aí, vimos diversos grupos de faquires, dos quais uns eram janguis , isto é, contemplativos, os outros discípulos dos antigos gimnosofistas [1]  que levavam vida ativa. Usam, como todos sabem, uma língua erudita, a dos velhos brâmanes, cujo livro sagrado é chamado Veda . É o livro mais antigo da Ásia, mesmo sem excetuar o Zend-Avesta . Passei...

O DILÚVIO - Narrativa Tradicional Indígena - Clemente Brandenburger

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O DILÚVIO (Narrativa tradicional indígena) Clemente Brandenburger (1879 – 1947)   Contam que, antigamente, foi assim que o mundo se acabou. Uma vez, ouviu-se ruído por cima e por baixo da terra. Dizem que o Sol e a Lua, como agouro, ficaram vermelhos, azuis e amarelos. A caça misturou-se com a gente sem ter medo, isto é, as onças e todos os animais ferozes. Um mês depois, ouviu-se um estrondo maior. Viram, então, que as trevas iam da terra ao céu, com trovoada e grande chuva, esmigalhando o dia e a terra. Perderam-se uns, outros morreram, sem ver porquê; contam que estava tudo muito feio.  As águas então cresceram muito, e dizem que submergiram a terra, ficando só de fora os galhos das grandes árvores. Para aí subiu o povo, mas morreu de fome e de frio, pois choveu todo o tempo da escuridão. Escaparam somente Uaçu sua mulher Sofará. Quando desceram, não acharam dos outros nem os cadáveres, nem os ossos. Depois disso, os índios imaginaram: — Será bom, talvez, fazer as nossas ca...

JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber

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JOÃO, O BOM JORNALISTA Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)    Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”, e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não conversava, traçava linhas. Seu punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação, conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava. João era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los. Uma tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu, logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito, lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A cart...