Postagens

Postagem em destaque

OS PODERES DO OURO - Conto - Francisco Rodrigues Lobo

Imagem
OS PODERES DO OURO Francisco Rodrigues Lobo (1580 - 1622)     Houve em Itália, e em um dos mais conhecidos lugares dela, um honrado pai de famílias, nobilíssimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus passados, dotado de muitas partes e graças naturais, e tão liberal do que possuía, que mais parecia despenseiro das riquezas que carcereiro delas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e esperto nos negócios da mercancia, que ajuntou em poucos anos grande cópia de dinheiro, o qual ele guardava com tão solícito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram, e era notável espanto aos naturais verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo, e em o filho a avareza e tenacidade de velho. O pai, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a idade e continuação de gastar largo estava menos rico, muitas vezes lhe dizia, e aconselhava com brandura, que conservasse, com o que ganhara, a honra que tin...

O REMENDÃO QUE FOI REI - Crônica - Autor anônimo do séc. XX

Imagem
O REMENDÃO QUE FOI REI Autor anônimo do séc. XX   No começo do século XV, nos tempos de Filipe, o Bom [1] , filho de João Sem Medo e duque de Borgonha, deu-se um caso que lembra um conto de fadas. Uma noite, o duque, que ia a Bourges, encontrou um sapateiro remendão, que dormia profundamente à beira da estrada. Desejando divertir-se à custa do infeliz, mandou que os seus criados o levassem, assim adormecido, para o paço, o despissem dos andrajos que levava e o colocassem vestido com riquíssimo traje de noite no seu próprio leito. Quando o pobre homem acordou na manhã seguinte e se viu rodeado de pajens e escudeiros, julgou ter enlouquecido. Em vão, jurou que não era o duque. A criadagem, porém, tratando-o como tal, perguntou-lhe que roupas desejava vestir nesse dia, e, por fim, foi levado com grande pompa e magnificamente ataviado, a ouvir missa na capela ducal. Todo o cerimonial correspondente a tão alta personagem foi observado rigorosamente. O sapateiro deu audiência sentado no ...

BARBERC E OS FAQUIRES - Conto Humorístico - Voltaire

Imagem
BARBERC E OS FAQUIRES Voltaire (1694 – 1778)   Quando estive na cidade de Varanasi, à margem do Ganges, antiga pátria dos brâmanes, procurei instruir-me. Entendia regularmente o hindu. Escutava muito e observa tudo. Hospedara-me em casa do meu correspondente Omri. Era o homem mais digno que jamais conhecera.  Pertencia à religião de Brahma, enquanto eu tinha a honra de ser muçulmano. Não obstante, nunca tivemos a menor discussão a respeito de Maomé e de seus deuses. Fazíamos nossas abluções cada qual por seu lado, bebíamos a mesma limonada e comíamos o mesmo arroz como dois irmãos. Fomos juntos um dia ao templo hinduísta de Gavani e, aí, vimos diversos grupos de faquires, dos quais uns eram janguis , isto é, contemplativos, os outros discípulos dos antigos gimnosofistas [1]  que levavam vida ativa. Usam, como todos sabem, uma língua erudita, a dos velhos brâmanes, cujo livro sagrado é chamado Veda . É o livro mais antigo da Ásia, mesmo sem excetuar o Zend-Avesta . Passei...

O DILÚVIO - Narrativa Tradicional Indígena - Clemente Brandenburger

Imagem
O DILÚVIO (Narrativa tradicional indígena) Clemente Brandenburger (1879 – 1947)   Contam que, antigamente, foi assim que o mundo se acabou. Uma vez, ouviu-se ruído por cima e por baixo da terra. Dizem que o Sol e a Lua, como agouro, ficaram vermelhos, azuis e amarelos. A caça misturou-se com a gente sem ter medo, isto é, as onças e todos os animais ferozes. Um mês depois, ouviu-se um estrondo maior. Viram, então, que as trevas iam da terra ao céu, com trovoada e grande chuva, esmigalhando o dia e a terra. Perderam-se uns, outros morreram, sem ver porquê; contam que estava tudo muito feio.  As águas então cresceram muito, e dizem que submergiram a terra, ficando só de fora os galhos das grandes árvores. Para aí subiu o povo, mas morreu de fome e de frio, pois choveu todo o tempo da escuridão. Escaparam somente Uaçu sua mulher Sofará. Quando desceram, não acharam dos outros nem os cadáveres, nem os ossos. Depois disso, os índios imaginaram: — Será bom, talvez, fazer as nossas ca...

JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber

Imagem
JOÃO, O BOM JORNALISTA Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)    Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”, e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não conversava, traçava linhas. Seu punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação, conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava. João era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los. Uma tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu, logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito, lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A cart...

O HOMEM MUDO - Conto - Sherwood Anderson

Imagem
O HOMEM MUDO Sherwood Anderson (1876 – 1941)   Há uma história. Não consigo contá-la. Faltam-me palavras. A história está quase esquecida, mas, às vezes, recordo-me dela. A história fala de três homens numa casa, numa rua. Se eu conseguisse expressar-me em palavras, contaria a história. Eu a sussurraria nos ouvidos das mulheres, das mães. Correria pelas ruas repetindo-a sem parar. Minha língua se soltaria — ela vibraria entre os meus dentes. Os três homens estão em um cômodo da casa. Um deles é jovem e vaidoso. Está sempre rindo. Há um segundo homem que tem uma longa barba branca. Ele está consumido pela dúvida, mas, ocasionalmente, a dúvida o abandona e ele adormece. Há um terceiro homem, de olhar malicioso, que se move nervosamente pela sala, esfregando as mãos. Os três homens estão esperando... esperando. No andar de cima da casa, há uma mulher de pé, de costas para a parede, na penumbra, junto a uma janela. Esta é a base da minha história e tudo o que eu puder saber condensa-se...

OS LOUCOS - Crônica - Miguel Sawa

Imagem
OS LOUCOS Miguel Sawa (1866 – 1910) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Saíram de Lugo dezessete dementes, condenados à pena de reclusão perpétua no manicômio de Valhadolide. Já no trem, os reclusos, depois de se examinarem, receosos, começaram a falar entre si. —Eu — disse um deles —, segundo os médicos, estou mal da cabeça. E não é verdade. Se gasto o dinheiro em farras é porque é meu. Bom suor me custou ganha-lo lá nas terras da América. Mas minha mulher foi queixar-se ao juiz de que eu a estava arruinando. E o juiz mandou chamar um médico para me examinar. E o médico, comprado pela minha mulher, declarou-me louco. E é por isso que me levam para o manicômio, é por isso. —Eu — disse outro —, não estou certo de minha razão. Surpreendi minha noiva falando tarde da noite com um homem e caí sobre ela. Ele fugiu covardemente, abandonando-a à minha ira, e eu me fartei de retalhá-la a golpes de navalha. Vieram os guardas e me prenderam. Eu chorava e ria a um só tempo e dava gritos e ...