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O DILÚVIO - Narrativa Tradicional Indígena - Clemente Brandenburger

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O DILÚVIO (Narrativa tradicional indígena) Clemente Brandenburger (1879 – 1947)   Contam que, antigamente, foi assim que o mundo se acabou. Uma vez, ouviu-se ruído por cima e por baixo da terra. Dizem que o Sol e a Lua, como agouro, ficaram vermelhos, azuis e amarelos. A caça misturou-se com a gente sem ter medo, isto é, as onças e todos os animais ferozes. Um mês depois, ouviu-se um estrondo maior. Viram, então, que as trevas iam da terra ao céu, com trovoada e grande chuva, esmigalhando o dia e a terra. Perderam-se uns, outros morreram, sem ver porquê; contam que estava tudo muito feio.  As águas então cresceram muito, e dizem que submergiram a terra, ficando só de fora os galhos das grandes árvores. Para aí subiu o povo, mas morreu de fome e de frio, pois choveu todo o tempo da escuridão. Escaparam somente Uaçu sua mulher Sofará. Quando desceram, não acharam dos outros nem os cadáveres, nem os ossos. Depois disso, os índios imaginaram: — Será bom, talvez, fazer as nossas ca...

JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber

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JOÃO, O BOM JORNALISTA Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)    Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”, e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não conversava, traçava linhas. Seu punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação, conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava. João era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los. Uma tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu, logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito, lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A cart...

O HOMEM MUDO - Conto - Sherwood Anderson

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O HOMEM MUDO Sherwood Anderson (1876 – 1941)   Há uma história. Não consigo contá-la. Faltam-me palavras. A história está quase esquecida, mas, às vezes, recordo-me dela. A história fala de três homens numa casa, numa rua. Se eu conseguisse expressar-me em palavras, contaria a história. Eu a sussurraria nos ouvidos das mulheres, das mães. Correria pelas ruas repetindo-a sem parar. Minha língua se soltaria — ela vibraria entre os meus dentes. Os três homens estão em um cômodo da casa. Um deles é jovem e vaidoso. Está sempre rindo. Há um segundo homem que tem uma longa barba branca. Ele está consumido pela dúvida, mas, ocasionalmente, a dúvida o abandona e ele adormece. Há um terceiro homem, de olhar malicioso, que se move nervosamente pela sala, esfregando as mãos. Os três homens estão esperando... esperando. No andar de cima da casa, há uma mulher de pé, de costas para a parede, na penumbra, junto a uma janela. Esta é a base da minha história e tudo o que eu puder saber condensa-se...

OS LOUCOS - Crônica - Miguel Sawa

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OS LOUCOS Miguel Sawa (1866 – 1910) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Saíram de Lugo dezessete dementes, condenados à pena de reclusão perpétua no manicômio de Valhadolide. Já no trem, os reclusos, depois de se examinarem, receosos, começaram a falar entre si. —Eu — disse um deles —, segundo os médicos, estou mal da cabeça. E não é verdade. Se gasto o dinheiro em farras é porque é meu. Bom suor me custou ganha-lo lá nas terras da América. Mas minha mulher foi queixar-se ao juiz de que eu a estava arruinando. E o juiz mandou chamar um médico para me examinar. E o médico, comprado pela minha mulher, declarou-me louco. E é por isso que me levam para o manicômio, é por isso. —Eu — disse outro —, não estou certo de minha razão. Surpreendi minha noiva falando tarde da noite com um homem e caí sobre ela. Ele fugiu covardemente, abandonando-a à minha ira, e eu me fartei de retalhá-la a golpes de navalha. Vieram os guardas e me prenderam. Eu chorava e ria a um só tempo e dava gritos e ...

PARÁBOLA DA TERRA JUSTA - Fábula - Máximo Gorki

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PARÁBOLA DA TERRA JUSTA Máximo Gorki (1868 – 1936) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Houve um homem que só vivia por que se apegara à crença de que, em qualquer parte do globo, existia um país justo. E, por mais desgraçado que fosse, fossem quais fossem os sofrimentos que padecesse, ele tudo suportava evangelicamente em nome de sua fé. — Esperarei — dizia ele. — Quando tiver acabado de sofrer o meu bocado, acharei a terra justa . Uma convicção profunda da existência desse país, e da possibilidade de lá ir um dia, o sustentava. Certo dia, porém, à cidade por ele habitada chegou um sábio trazendo consigo muitos livros e muitos mapas; e o nosso homem de crença robusta na terra justa foi a ele e lhe pediu que procurasse em seus mapas o país em questão, indicando-lhe também o caminho que lá ia ter. O sábio desenrolou os seus mapas e pôs-se a procurar. Procurou uma, duas, repetidas vezes. Procurou com afinco e não o achou. Todos os países estavam assinalados, exceto o justo.  ...

O ENFORCADO - Conto - J.-H. Rosny

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O ENFORCADO J.-H. Rosny [Joseph-Henri-Honoré Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)] Tradução de autor anônimo do séc. XX     — Eu vegetava então — diz o professor Charlier — em uma obscura aldeia de Saint-Tonge. O governo pagava-me mil e cem francos por ano para ensinar a ler e a escrever uns quarenta rapazinhos. Não tendo para me empurrar para adiante nenhum personagem dotado do simbólico braço comprido, não via outro bastão de marechal além de um lugar de mil e oitocentos francos, seguido de uma minúscula remuneração. Era novo; a natureza tinha-me feito otimista; pairava no mundo das ilusões. As minhas infelicidades principiaram no dia em que caí enamorado da garota Lucette, a filha de Saboreaux, maire [1] da aldeia, proprietário de cinquenta hectares de terras, senhor de sete vacas, cinco bois, três cavalos, um rebanho de carneiros, uma vara de porcos grandes e pequenos, sem contar com uma boa reserva de dinheiro em metal sonante. Ele apreciava o...

O SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA - Crônica - Paulo Soriano

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O SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA Paulo Soriano   Inteligente, sagaz e profundamente humano, o professor Arlindo reservava o seu rigor à avaliação das provas. Parecia que, naqueles momentos tenebrosos, que nos enchiam de angústia — de quase terror —, Arlindo despia-se da indumentária de mestre afável e punha sobre a face o capuz de um algoz empedernido. — Hoje é dia de cadafalso — dizíamos, quando chegava o dia de prova. E veio a última avaliação do ano. Com um estremecimento atroz, soubemos, pelos lábios do mestre, que o exame seria oral. Duas únicas perguntas. Ou dez, ou cinco, ou zero. Este era o prognóstico. Chegou a minha vez. Respondi à primeira pergunta — que me parecera fácil — com tranquilidade. Veio a segunda: — Qual o nome que se dá ao fenômeno consistente no súbito esquecimento de uma palavra que bem conhecemos? A resposta era fácil. Facílima. Abri a boca para responder, mas… — Está na ponta da língua, Soriano? — insistiu o mestre, com um sorrisinho — talvez irônico, talvez est...