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Mostrando postagens de Setembro, 2018

O AMIGO DEVOTADO - Conto de Oscar Wilde

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O AMIGO DEVOTADO Oscar Wilde (1854 – 1900) Tradução de Paulo Soriano Era uma vez um jovem trabalhador e honesto... Chamava-se Hans. Morava sozinho numa pequena casa e passava o dia inteiro cuidando do jardim. Em toda a região, não havia jardim tão bonito quanto o seu. Encontravam-se aí as mais variadas espécies de flores que cresciam ao lado das mais lindas rosas. O pequeno Hans tinha muitos amigos, mas o seu maior amigo, o "amigo fiel" era Hugh, o rico moleiro. Realmente, o rico moleiro era tão amigo de Hans que jamais visitava o seu jardim sem inclinar-se sobre os pés de cravo para admirá-los de perto, ou sem colher um bom punhado de flores que levava para casa. — Os amigos verdadeiros repartem tudo entre si — costumava dizer o rico moleiro. O pequeno Hans concordava com a cabeça e sorria, sentindo-se muito orgulhoso por ter um amigo com tão nobres ideias. E o pequeno Hans colhia aquelas palavras com um sorriso nos lábios, sentindo-se orgulhoso e feliz por

O CONTO DE ALIBECH E FREI RÚSTICO - Conto Humorístico de Giovanni Boccaccio

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O CONTO DE ALIBECH E FREI RÚSTICO Giovanni Boccaccio (1313 – 1375) Na cidade de Capsa [1] , na Berbéria, havia, há muito tempo, um homem muito rico que tinha, entre outros filhos, uma filhinha bela e graciosa chamada Alibech. Não sendo ela cristã, e ouvindo os muitos cristãos que na cidade louvavam a fé cristã e o serviço dedicado a Deus, um dia perguntou a um deles de que maneira e com menor impedimento poderia servir a Deus. Este lhe respondeu que melhor serviam a Deus aqueles que mais fugiam das coisas do mundo, como os que se haviam retirado para as solidões dos desertos de Tebaida. A jovem, que mui ingênua era, e que teria algo em torno de catorze anos, não por desejo consciente, mas por um impulso infantil, sem dizer nada a ninguém, pôs-se, logo na manhã seguinte, às escondidas e sozinha, a caminho do deserto de Tebaida. E, sem que a sua determinação esmorecesse, com grande e exauriente esforço, depois de alguns dias alcançou aqueles lugares ermos. Vendo ao longe um

O REI SÁBIO - Khalil Gibran Khalil

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Khalil Gibran Khalil (1883 – 1931). Tradução de Paulo Soriano Era uma vez, na longínqua cidade de Wirani, um rei que governava os seus súditos com poder e sabedoria. O povo o temia por seu poder e o amava por sua sabedoria. No coração daquela cidade, havia um poço de água fresca e cristalina. Dela bebiam todos os seus habitantes e até mesmo o rei e os seus cortesãos, pois era o único da localidade. Certa noite, quando todos dormiam, uma bruxa entrou na cidade e derramou sete gotas de um misterioso líquido no poço, dizendo: — A partir de agora, quem beber desta água ficará louco. Na manhã seguinte, todos os habitantes do reino, salvo o rei e o seu lorde camareiro, beberam do poço e enlouqueceram, tal como a bruxa havia predito. E, naquele dia, nas ruas estreitas e nas praças do mercado, as pessoas não paravam de sussurrar entre si: — O rei está louco! Nosso rei e o lorde camareiro perderam a razão. Certamente, não podemos ser governados por um rei lo

O PASSAGEIRO DA PRIMEIRA CLASSE - Conto de Anton Tchekhov

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O PASSAGEIRO DA PRIMEIRA CLASSE Anton Tchekhov (1860 – 1904) D epois de um abundante almoço , o passageiro da 1ª.  classe, um pouco entontecido pelos vinhos e licores, encostou-se num sofá, estendeu as pernas e ficou a cochilar. Cinco minutos depois, sem mesmo mudar de posição, abriu os olhos, fixou o passageiro que lhe estava em frente e lhe disse, sorrindo: — Gosto sempre de conversar depois do almoço. Não importa de conversar um pouco consigo? —Com muito gosto! — Depois da boa refeição, basta qualquer coisa insignificante para que me venham à cabeça grandes pensamentos e belas ideias. Por exemplo, agora mesmo, no restaurante, um rapaz felicitava outro pela sua celebridade. "Felicito-te — dizia ele — porque tu, sendo já pessoa notável, estás a conquistar a glória!". Devem ser artistas ou jornalistas microscópicos. Mas a questão está, de fato, em saber o que se entende por "glória". Que lhe parece? Pushkin [1] dizia que a glória é um remendo cla

OS PÃES DE CENTEIO - Conto Legendário - Anatole France

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OS PÃES DE CENTEIO Anatole France (1844 - 1924) Naquele tempo, Nicolau Nerli era um banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora, já estava sentado em sua mesa de trabalho e, ao soar a hora nona, ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números era suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios com este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia. Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estav