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O LOUCO AVISADO - Narrativa Clássica Humorística - Gonzalo Correas Íñigo

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O LOUCO AVISADO Gonzalo Correas Íñigo (1571 – 1631) Tradução de Paulo Soriano Em Chinchilla, localidade perto de Cuenca, havia um louco que, persuadido pelos folgazões, levava um cacete sob o traje. Quando chegava um forasteiro, achegava-se a ele dissimuladamente, perguntando-lhe de onde era e a que vinha. Dava-lhe, então, três ou quatro bordoadas, com o que os outros se riam, e depois apaziguava-os com a escusa de que era louco. Um homem de La Mancha chegou a Chinchilla e, na estalagem, teve notícia do que fazia aquele louco. Então, prevenindo-se com um porrete, acomodado sob a capa, foi à praça, disposto a realizar o que tinha de fazer. Chegando o louco, o homem de La Mancha avançou sobre ele e lhe deu uma boa sova, com o que o fez fugir, a gritar: — Cuidado, pessoal, que há outro louco em Chinchilla!   

O LOUCO - Conto - Juan Manuel de Castela

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O LOUCO Juan Manuel de Castela (1282 – 1348) Tradução de Paulo Soriano Um bom homem tinha uma casa de banhos com uma excelente piscina. Sucede que, na mesma cidade, havia um louco que ia à piscina todos os dias e, quando as pessoas se banhavam, cuidava ele de espancá-las com pedras e paus, obrigando-as a fugir apavoradas. A notícia se espalhou por toda a cidade e chegou um momento em que ninguém se atrevia a frequentar o balneário. Assim, o proprietário via fugir a sua renda. Vendo que as coisas iam mal, e que não havia sinal de melhora, o proprietário se viu disposto a remediar a situação. Um dia, ele se levantou bem cedo e, tomando uma maça e um balde d’água fervente, dispôs-se a aguardar a chegada do louco. Logo o doido chegou, como fazia todas as manhãs, e queria bater nos banhistas, como lhe era de costume. Mas o dono, assim que o viu entrar, seguiu até ele sem a menor hesitação, lançou-lhe o conteúdo do balde de água fervente na cabeça e, empunhando a maça, pôs-se...

PERDIDO - Conto de Loucura - João da Câmara

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PERDIDO João da Câmara (1852 – 1908) Quando ouviu ao longe, no campanário da freguesia, bater meia-noite, entreabriu de mansinho a porta da choupana e escutou por longo tempo. Nem um sussurro!... Tudo dormia àquela hora. Saiu e, pé ante pé, com a enxada ao ombro, aproximou-se da aldeia, que tinha de atravessar. Tudo era em silencio; apenas, muito ao longe, junto à fonte, uma rã solitária coaxava tristemente. A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou quarenta casas, dispostas no fundo do vale, ao acaso, entre os choupos da beira do riacho e os últimos pinheiros da mata, que descia pela encosta em pujante vegetação sombria. Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo ressonar compassado dos homens de trabalho. Então parava de ouvido à escuta, olho à espreita, com um pé para diante, o outro para traz, posto de bico, pronto para a retirada. E, quando tudo outra vez caia no primitivo silencio, tornava a caminhar devaga...