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Mostrando postagens de agosto, 2026

O DILÚVIO - Narrativa Tradicional Indígena - Clemente Brandenburger

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O DILÚVIO (Narrativa tradicional indígena) Clemente Brandenburger (1879 – 1947)   Contam que, antigamente, foi assim que o mundo se acabou. Uma vez, ouviu-se ruído por cima e por baixo da terra. Dizem que o Sol e a Lua, como agouro, ficaram vermelhos, azuis e amarelos. A caça misturou-se com a gente sem ter medo, isto é, as onças e todos os animais ferozes. Um mês depois, ouviu-se um estrondo maior. Viram, então, que as trevas iam da terra ao céu, com trovoada e grande chuva, esmigalhando o dia e a terra. Perderam-se uns, outros morreram, sem ver porquê; contam que estava tudo muito feio.  As águas então cresceram muito, e dizem que submergiram a terra, ficando só de fora os galhos das grandes árvores. Para aí subiu o povo, mas morreu de fome e de frio, pois choveu todo o tempo da escuridão. Escaparam somente Uaçu sua mulher Sofará. Quando desceram, não acharam dos outros nem os cadáveres, nem os ossos. Depois disso, os índios imaginaram: — Será bom, talvez, fazer as nossas ca...

JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber

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JOÃO, O BOM JORNALISTA Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)    Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”, e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não conversava, traçava linhas. Seu punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação, conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava. João era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los. Uma tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu, logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito, lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A cart...

O HOMEM MUDO - Conto - Sherwood Anderson

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O HOMEM MUDO Sherwood Anderson (1876 – 1941)   Há uma história. Não consigo contá-la. Faltam-me palavras. A história está quase esquecida, mas, às vezes, recordo-me dela. A história fala de três homens numa casa, numa rua. Se eu conseguisse expressar-me em palavras, contaria a história. Eu a sussurraria nos ouvidos das mulheres, das mães. Correria pelas ruas repetindo-a sem parar. Minha língua se soltaria — ela vibraria entre os meus dentes. Os três homens estão em um cômodo da casa. Um deles é jovem e vaidoso. Está sempre rindo. Há um segundo homem que tem uma longa barba branca. Ele está consumido pela dúvida, mas, ocasionalmente, a dúvida o abandona e ele adormece. Há um terceiro homem, de olhar malicioso, que se move nervosamente pela sala, esfregando as mãos. Os três homens estão esperando... esperando. No andar de cima da casa, há uma mulher de pé, de costas para a parede, na penumbra, junto a uma janela. Esta é a base da minha história e tudo o que eu puder saber condensa-se...