JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber
JOÃO, O BOM
JORNALISTA
Pierre Veber
(1869 – 1942)
Tradução
de Humberto de Campos
(1886
– 1934)
Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”,
e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não
conversava, traçava linhas.
Seu
punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e
apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém
lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação,
conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava.
João
era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um
hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao
lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los.
Uma
tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu,
logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito,
lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A carta dizia:
“Se
não apareceres em casa esta noite, até onze horas, às onze e meia, estarei
morta”.
João
não pestanejou. Esperou pacientemente a meia-noite. A essa hora, sem que a voz
lhe tremesse, chamou um colega:
—
Sam, vai a tal rua, tal número, segundo andar, à direita. Há, lá, um caso
sensacional: uma rapariga bonita; e nova, acaba de suicidar-se, por amor. Vai,
e traz-me as notas, para a notícia.
E ficou esperando, certo de que o seu jornal
seria o único a dar o “furo”. Para economizar tempo, começou a escrever a “cabeça”
da notícia, e a sua mão nem, sequer, tremia.
Só
no dia seguinte Sam voltou à redação, João interroga-o, severo:
— Você não foi onde eu mandei?
—
Fui, sim.
—
E então? A rapariga de que falei?
—
Encontrei-a, sim; mas, não se tinha suicidado, ontem, não.
—
E hoje?
—
Hoje? Pior! — informou o companheiro.
E com ar feliz:
— Quando, hoje, de manhã, eu e ela nos
levantamos, nem falamos nisso!
Ilustração: Pngwing.

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