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Mostrando postagens com o rótulo Conto Humorístico

JOÃO, O BOM JORNALISTA - Conto Humorístico - Pierre Veber

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JOÃO, O BOM JORNALISTA Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)    Frio, impassível e tenaz, João era o “repórter”, e nada mais. A sua profissão o havia dissecado, ou melhor, desumanizado. Não conversava, traçava linhas. Seu punho esquerdo estava coberto permanentemente de notas a lápis, de endereços e apontamentos; o direito era uma série de sinais, que só ele entendia. Ninguém lhe conhecia parentes, nem amigos, pois isso lhe tomaria tempo. Em compensação, conhecia toda a gente e apertava a mão a quantos encontrava. João era capaz de ações heroicas. Havia ficado vinte e quatro horas à porta de um hotel, sem espirrar. Durante o cerco de Paris, deixar-se-ia morrer de fome ao lado dos seus pombos-correio, preferindo isso a comê-los. Uma tarde, ao entrar no jornal, entregaram-lhe uma carta. Pela letra reconheceu, logo, que era daquela que lhe tomava conta da roupa e do coração, e, de súbito, lembrou-se que não aparecia em casa há quatro dias. A cart...

O PESCADOR - Conto Humorístico - Anton Tchekhov

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O PESCADOR Anton Tchekhov (1860 – 1904) Tradução de autor anônimo do séc. XX Diante da casa do endinheirado Griabov, deteve-se formosa carruagem de rodas com borracha, assentos de veludo e cocheiro rechonchudo. Do carro apeou-se, de um salto, o comendador da nobreza do distrito, Fedor Andreich Ostov. Na antessala, recebeu-o um lacaio sonolento. — Os senhores estão em casa? — perguntou o comendador. — Não, senhor. A senhora e as crianças saíram para visitas e o senhor foi à pesca com a institutrice 1 … Desde cedo. Ostov permaneceu de pé por momentos e logo se dirigiu para o rio à prova de Griabov. Encontrou-o a algumas verstas da casa. Ao olhar para baixo, da elevada margem, viu Griabov e deitou a rir… Griabov, homem alto e grosso, de cabeça grande, estava sentado na areia, com os pés cruzados e encolhidos como um turco, e pescava. O chapéu tinha-o deitado sabre a nuca e a gravata estava desfeita e de banda. Perto dele, encontrava-se, de pé, uma inglesa de olhos pulados como os d...

CARNAVAL - Conto - Olavo Bilac

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CARNAVAL (Excerto) Olavo Bilac (1865 – 1918) Contaram os jornais um caso macabro sucedido na Terça-feira Gorda. Ia um defunto, a caminho da sua derradeira morada, calmamente estirado no fundo do caixão, ao trote manso da parelha que puxava o carro fúnebre. Mas, quando o enterro passava por uma praça em que se dava uma delirante batalha de confete, partiu-se uma das rodas do carro, e o pobre morto ficou para ali, parado, entre as pragas do cocheiro e o delírio dos batalhadores, que, na sua alucinação, não davam conta do que se passava. Tardaram as providências, a batalha continuou; de maneira que quando, uma hora depois, o coche negro pôde marchar de novo para o cemitério, nas coroas de perpétuas roxas se emaranhavam as serpentinas, e o féretro ia coberto de uma espessa camada de confete… Ora, bem! Imaginai agora que o homem não estivesse morto, mas simplesmente mergulhado na treva espessa de um sono cataléptico, e que despertasse naquele momento: cuidais acaso que o redivivo perm...

UMA MÃO LAVA A OUTRA - Conto Humorísitco - Anônimo do séc. XX

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UMA MÃO LAVA A OUTRA Autor anônimo do séc. XX Um advogado americano sem causas resolveu ir para o Far West tentar fortuna. Sem dinheiro, mas cheio de audácia, tomou lugar num trem de luxo que partia para Nashville, esquecendo-se, naturalmente, de comprar a respectiva passagem. Mal o comboio deixou a estação, o condutor aproximou-se e pediu-lhe: — Seu bilhete, por favor! — Não tenho bilhete! Mas — acrescentou — faço parte da redação do Daily News de Nashville. — Mostre sua carteira de jornalista! — Oh! Diabo! Com a pressa, esqueci-me de trazê-la! — retrucou o passageiro, examinando os bolsos. — Pois então o senhor tem de pagar a passagem, a menos que seja formalmente reconhecido pelo seu diretor, que se acha justamente no primeiro carro — intimou, categórico, o homenzinho. E, sem mais delongas, seguiram ambos pelo corredor central que atravessa todos os trens americanos, e chegaram diante do poderoso diretor do Daily News , a quem o condutor explicou a situação i...

UMA CALÚNIA - Conto - Anton Tchekhov

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UMA CALÚNIA Anton Tchek hov Tradução de autor anônimo do séc. XX O professor de caligrafia Sergey Kapitonech Akhineiev casava a sua filha Natália com o professor de história e geografia Ivan Petrovich Lochdinei. A festa se realizava no meio da maior alegria. No salão se cantava, jogava e dançava. Corriam de um lado para outro das salas os criados emprestados pelo clube, vestidos de negras casacas e brancas gravatas, bem sujas. Reinava em toda a casa alegre rumor de conversas. O professor de matemática Tarantuloff, o francês Pasdequoi e o inspetor de segunda cate g oria da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relatavam, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência a humana não pode conceber. Na sala contígua, o professor de literatura Duduski explicava a outro grupo de convidados...

DOM FELICE E ISABETTA - Conto Humorístico - Giovanni Boccaccio

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DOM FELICE E ISABETTA Giovanni Boccaccio (1313 – 1375) Segundo ouvi dizer, nas cercanias do convento de São Pancrácio vivia um homem bom e rico chamado Puccio di Rinieri. Este, tendo-se entregado completamente às coisas espirituais, fez-se terciário 1 de São Francisco, e adotou o nome de Irmão Puccio. Seguindo sua vida espiritual — e como de familiares só tivesse a mulher e uma criada, e não precisava ocupar-se em nenhum ofício —, frequentava muito a igreja. E porque era um homem simples e naturalmente rústico, rezava os seus pais-nossos, ia aos sermões e às missas, e nunca faltava às laudes cantadas pelos seculares. Puccio jejuava e se disciplinava, e comentava-se que pertencia aos flagelantes 2 . A mulher, a quem chamavam senhora Isabetta, jovem de apenas vinte e oito anos, fresca, bela e roliça como uma maçã casolana 3 , pela santidade e talvez idade do marido, encontrava-se, frequentemente, em longos estados de abstenções, bem mais longos do que poderia desejar. E quando que...

O VOTO DO SENHOR VAN DEN TRUFF - Conto Humorísitico - Armand Silvestre

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O VOTO DO SENHOR VAN DEN TRUFF Armand Silvestre (1837 – 1901) Tradução de autor anônimo do séc. XX I O Sr. Van den Truff era um homenzinho baixo e gordo, de grandes suíças em forma de barbatanas, abdômen proeminente, pernas delgadas e tortas, e com um ar de importância que dava mesmo vontade de lhe encher a cara de bofetadas. O desastrado que lhe puxasse pela lingua ouvir-lhe-ia decerto mais futilidades do que bons conceitos, porque o pretensioso sujeito assemelha-se a um odre cheio de vento do que uma ânfora de vinho generoso. No entanto, como era um pedante enfatuado e todo presumido de ciência tudesca, o Sr. Van den Truff, na pequena cidade em que vivia, dava leis em política e passava pelo mais ativo agente das ambições germânicas d'além do rio Mosa. Estava sempre falando na Alemanha; na destruição das raças latinas que, a seu ver, tinham os seus dias contados; na necessidade de um império que aproveitasse a obra de Carlos Magno: e, finalmente, na prussificação de t...