BARBERC E OS FAQUIRES - Conto Humorístico - Voltaire

BARBERC E OS FAQUIRES

Voltaire

(1694 – 1778)

 

Quando estive na cidade de Varanasi, à margem do Ganges, antiga pátria dos brâmanes, procurei instruir-me. Entendia regularmente o hindu. Escutava muito e observa tudo. Hospedara-me em casa do meu correspondente Omri. Era o homem mais digno que jamais conhecera.  Pertencia à religião de Brahma, enquanto eu tinha a honra de ser muçulmano. Não obstante, nunca tivemos a menor discussão a respeito de Maomé e de seus deuses. Fazíamos nossas abluções cada qual por seu lado, bebíamos a mesma limonada e comíamos o mesmo arroz como dois irmãos.

Fomos juntos um dia ao templo hinduísta de Gavani e, aí, vimos diversos grupos de faquires, dos quais uns eram janguis, isto é, contemplativos, os outros discípulos dos antigos gimnosofistas[1]  que levavam vida ativa. Usam, como todos sabem, uma língua erudita, a dos velhos brâmanes, cujo livro sagrado é chamado Veda. É o livro mais antigo da Ásia, mesmo sem excetuar o Zend-Avesta.

Passei diante de um faquir um que lia esse livro.

— Ah, mísero infiel!  — exclamou. — Fizeste-me perder o número de vogais que contava e, por isso, a minha alma passará para o corpo de uma lebre, ao invés de ir para o de um papagaio, como eu alegremente esperava.

Dei-lhe uma rúpia para consolá-lo. A alguns passos dali, por infelicidade, espirrou.  O ruído despertou outro faquir, que estava em êxtase.

— Onde estou? — perguntou ele. — Que queda horrível! Não vejo mais a ponta do meu nariz! A luz celeste desapareceu!

— Se eu sou o causador de não veres mais longe do que a ponta do teu nariz — disse —, eis aqui uma rúpia, a fim de reparar o mal que fiz. E desejo que continues com a tua luz celeste.

Tendo escapado discretamente desses dois incidentes, passei aos gimnosofistas. Alguns trouxeram-lhe pequeninos pregos muito bonitos para enfiar nos braços e nas coxas, em honra de Brahma. Comprei-os para pregar em casa os tapetes. Uns dançavam com as mãos no chão e os pés no ar; outros, volteavam na corda bamba; ainda outros andavam com um pé só. Havia muitos com correntes e com selas. Diversos, embora fossem a melhor gente do mundo, escondiam a cabeça num feixe de palhas.

O meu amigo Omri conduziu-me à célula de um dos mais famosos. Chamava- se Bababec. Nu como um macaco, tinha no pescoção pesada corrente de mais de sessenta libras de ferro. Sentava-se numa cadeira de pau, cujo assento fora guarnecido de pregos que lhe entravam nas nádegas. Entretanto, parecia repousar numa almofada de cetim. Muitas mulheres vinham consultá-lo. Era o oráculo das famílias e podia-se dizer que gozava de imensa reputação.

Testemunhei a longa palestra que Omri teve com ele.

— Acreditais, meu pai, que, após ter passado pela prova das sete metempsicoses, eu possa atingir a morada de Brahma?  — indagou.

— Depende — retorquiu o faquir. — Como viveis?

— Procuro — continuou Omri — ser bom cidadão, bom marido, bom pai e bom amigo. Empresto dinheiro sem juro aos abastados, quando precisam, e dou-o aos pobres. Mantenho paz com os meus vizinhos.

— Enfiais, algumas vezes, pregos nas nádegas? — perguntou o santo.

—Nunca, meu reverendo pai!

— É o diabo! Então, jamais chegareis ao décimo nono céu, e é pena!

— Como isso tudo é admirável! — disse Omri. — Estou satisfeitíssimo com meu destino. Pouco me importa o décimo nono ou o vigésimo céu, contanto que cumpra o meu dever nesta peregrinação e seja bem recebido na última morada. Não é bastante ser homem de bem aqui, para merecer o país de Brahma? A que céu pretendeis ir, senhor Bababec, com os pregos e correntes?

—Ao trigésimo quinto.

 —Muito engraçado! Pretendeis alojamento mais alto do que o meu? É o efeito de excessiva ambição. Condenais os que procuram as honras e as vaidades nesta vida, mas na outra quereis ter as maiores. Por que achais que deveis ser melhor recompensado do que eu? Sabei que, em dez dias, dou mais esmolas do que custam os pregos que enfiais aí em dez anos? Deus pouco se inquieta que passeis os dias nu, de corrente ao pescoço. Prestais belo serviço à pátria. Prefiro um homem que planta legumes ou árvores a todos os vossos colegas que olham a ponta do nariz ou andam de albarda por excesso de nobreza d’alma.

Tendo acabado de falar assim, Omri se acalmou, acariciou-o, persuadiu-o e fê-lo, enfim, deixar de parte a corrente e os pregos, para vir com ele levar uma vida honesta. Na casa de Omri, esfregaram o faquir, tiraram-lhe a crosta de sujeira, friccionaram-no com essências perfumosas e vestiram-no decentemente.

Viveu quinze dias muito bem e confessou que era muito mais feliz do que antes. Mas, perdia o credito de que gozara entre o povo. Já as mulheres não o vinham mais consultar. Então, deixou Omri e voltou a sentar-se em cima das pontas dos pregos...

 

Fonte: “Leitura para Todos”/RJ, edição de julho de 1926.

Fizeram-se breves adaptações textuais.


Nota:



[1] Membros de antigas correntes ascéticas da Índia que viviam com pouca ou nenhuma roupa.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AMIGO DEVOTADO - Conto de Oscar Wilde

A VINGANÇA DE MICHELANGELO - Narrativa Histórica - Anônimo do séc. XIX

O CONTO DE ALIBECH E FREI RÚSTICO - Conto Humorístico de Giovanni Boccaccio

O COLAR DE DIAMANTES - Conto Cruel de Guy de Maupassant