O PESCADOR - Conto Humorístico - Anton Tchekhov

O PESCADOR

Anton Tchekhov

(1860 – 1904)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Diante da casa do endinheirado Griabov, deteve-se formosa carruagem de rodas com borracha, assentos de veludo e cocheiro rechonchudo. Do carro apeou-se, de um salto, o comendador da nobreza do distrito, Fedor Andreich Ostov. Na antessala, recebeu-o um lacaio sonolento.

Os senhores estão em casa? — perguntou o comendador.

Não, senhor. A senhora e as crianças saíram para visitas e o senhor foi à pesca com a institutrice1… Desde cedo.

Ostov permaneceu de pé por momentos e logo se dirigiu para o rio à prova de Griabov. Encontrou-o a algumas verstas da casa. Ao olhar para baixo, da elevada margem, viu Griabov e deitou a rir…

Griabov, homem alto e grosso, de cabeça grande, estava sentado na areia, com os pés cruzados e encolhidos como um turco, e pescava. O chapéu tinha-o deitado sabre a nuca e a gravata estava desfeita e de banda. Perto dele, encontrava-se, de pé, uma inglesa de olhos pulados como os de um caranguejo e com um enorme nariz de ave, que mais parecia um gancho do que um nariz. Trazia um vestido de musselina branca, através do qual se viam os seus ombros fracos e amarelos. Do cinto dourado pendia um relógio de ouro. Ela também pescava. Ao redor do par reinava um silêncio sepulcral. Ambos imóveis como o rio, em cuja superfície nadavam os flutuadores dos seus caniços.

Há uma vontade mortal de pescar, mas a sorte é bem amarga — exclamou Ostov, rindo. —Saúde, Ivan Kusmich!

Ah!… És tu? — perguntou Griabov, sem tirar os olhos da água. —Vieste?

Bem o vês… E tu, ocupado com as tuas maluquices! Ainda não perdeste o costume?

Que diabo!… Estou pescando desde a manhã… Ruim pesca, hoje!… Não pescamos absolutamente nada, nem eu nem este fantasma… Estamos aqui sentados e nada! É para desesperar.

Deixa isso!… Vamos beber um pouco de vodca.

Espera… Talvez eu pesque alguma coisa. Ao entardecer, mordem melhor. Aqui estou, irmão, desde pela manhã. Aborreço-me de tal modo que nem sei como te explicar… O diabo me induziu a me acostumar com pesca! Sei que é uma maluquice, mas… Aqui estou. Aqui estou como um canalha qualquer, como um presidiário, olhando para a água como um imbecil. Eu devia ir ao campo para ver a colheita; em Japoner, o reverendo disse missa e eu não fui. Passou-me isso com este esturjão… com este demônio…

Mas… ficaste louco? — indicando com o olhar a inglesa. —Estás dizendo barbaridade na presença de uma senhora e, mais ainda, ofendendo-a..

Que vá para o diabo! Dá no mesmo! Não entende patavina de russo! Que a elogies ou descomponhas, ou lhe digas barbaridades, dá no mesmo. Olha que nariz! Só em vê-lo a gente desmaia! Aqui passamos dias inteiros e não trocamos palavra. Está quieta como um espantalho, olhando para a água com os seus olhos pintados.

A inglesa bocejou, mudou a isca e deitou outra vez o anzol.

Espanta-me enormemente, amigo— prosseguiu Griabov. —Esta estúpida vive na Rússia há dez anos e não sabe uma palavra de russo! Qualquer fidalgo nosso vai ao país desses ingleses e em poucos dias aprende a mentir no idioma deles… E eles… O demônio o sabe! Olha que nariz, olha!

Mas, vamos embora… cala-te… Isso não está direito. Que queres desta mulher?

Isto não é mulher, e, sim, senhorita... Com toda a certeza está pensando em noivos, este espantalho... Até cheira a coisa podre... Que asco que lhe tenho, meu amigo! Eu não posso vê-la com serenidade! Enquanto me olha com os seus olhos pulados, tenho a sensação de que dei com o cotovelo num ferro. Também ela gosta de pescar. Olha-a: está pescando e celebrando um ofício divino ao mesmo tempo! Olha para tudo com desdém... Esse mostrengo reconhece que é pessoa e, por conseguinte, rei da Natureza. Sabes como se chama? Wilka Charlsown Tfays! Pfuf!... Nem se pode pronunciar!…

A inglesa, ao ouvir o seu nome, ergueu lentamente o nariz para Griabov e o mediu com um olhar de desdém. De Griabov passou os olhos para Ostov e também o cobriu de desdém. Tudo isto fez silenciosa, grave e lentamente.

Viste? — perguntou Griabov, rindo às gargalhadas. —Toma! Ah, fantasma, fantasma! Suporto-a unicamente por causa dos meus filhos. Se não fosse por eles, não a deixaria entrar nas minhas propriedade, nem a dez verstas à roda... Tem um nariz igual ao de um abutre... E o talhe? Faz-me lembrar um prego comprido... Sabes? Dá-me vontade de espetá-la na terra... Espera!... Parece que mordem no meu anzol…

Griabov ergueu-se de um salto e puxou o caniço. A linha ficou tesa… Griabov deu outro puxão, mas também não pôde tirar o anzol.

Está preso — disse, encolhendo-se. —Deve ser nalguma pedra.. Diabos o carregue!

No rosto de Griabov esboçou-se o sofrimento. Suspirando com inquietação, movendo-se e murmurando maldições, começou a puxar a linha; mas nada conseguiu. Griabov ficou pálido.

Que massada! Tenho que meter-me n'água.

Deixa isso!

Não posso… Ao anoitecer, sempre se pesca bem… Que massada!… Deus me perdoe! Pois tenho que meter-me n’água. Não há remédio. E se soubesses que preguiça tenho de me despir… É preciso dizer à inglesa que se vá… Não fica bem despir-me diante dela. Afinal, é uma senhora!

Griabov tirou o chapéu e a gravata.

Mas!… e… e… — gritou, dirigindo-se à inglesa.

Miss Tfays! Je vous prie… Como direi? Eu! Como te diria eu para que compreendesses? Ouve… Para lá! Vai para lá! Ouves?

Miss Tfays cobriu Griabov de desdém, olhando-o de cima a baixo, e exalou um som nasal.

Ouve? Não entende? Digo-te que te vás daqui! Tenho que me despir, espantalho maldito! Vai-te! Anda!

Griabov puxou a miss pela manga, indicando-lhe o matagal, e se pôs de cócoras, como que dizendo: “Vai para trás daquele matagal e esconde-te ali”. A inglesa, movendo energicamente as sobrancelhas, disse rapidamente comprida frase em inglês. Os ricaços puseram-se a rir.

É a primeira vez na minha vida que ouço a sua voz… que vozinha! Não compreende. Que farei dela?

Deixa-a e vamos beber vodca.

Não pode ser. Agora deve-se pescar muito bem… Ao anoitecer… Mas que faço eu? Que massada! Terei que me despir diante dela!

Griabov tirou o casaco e o colete e se sentou na areia para tirar as botas.

Ouve, Ivan Kusmich — disse o comendador, rindo com as mãos nos lábios.

Isso, meu amigo, é um escárnio e um abuso!

A ela ninguém disse que não entende… Isto é uma lição para os estrangeiros.

Griabov tirou as botas, as calças, a roupa interior e ficou assim em trajes de Adão. Ostov retorcia o ventre, de tanto rir. Ficou vermelho e se envergonhou.

A inglesa mexeu as sobrancelhas e pestanejou... Pelo seu rosto amarelo passou rapidamente sorriso arrogante e cheio de desdém.

É preciso que o corpo esfrie — disse Griabov.

Mas mete-te na água e cobre-te com alguma coisa! Animal!

Nem sequer ficou envergonhada esta maldita! — disse Griabov, metendo-se na água e benzendo-se. — Brrr!… Como está fria a água! Olha como mexe as sobrancelhas! E não se vai embora!… Está acima de tudo. Nem nos considera pessoas!

Ao meter-se na água até joelhos, esticando o corpo, piscou e disse:

Isto não é Inglaterra para ela, amigo…

Miss Tfays mudou a isca friamente, bocejou e atirou-a na água. Ostov voltou-se. Griabov soltou o anzol, deu um mergulho e saiu do rio. Ao cabo alguns minutos, estava de novo sentado na areia e pescava…


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de 27 de abril de 1935.


Nota:

1Professora.

 

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