O DILÚVIO - Narrativa Tradicional Indígena - Clemente Brandenburger

O DILÚVIO

(Narrativa tradicional indígena)

Clemente Brandenburger

(1879 – 1947)

 

Contam que, antigamente, foi assim que o mundo se acabou.

Uma vez, ouviu-se ruído por cima e por baixo da terra. Dizem que o Sol e a Lua, como agouro, ficaram vermelhos, azuis e amarelos. A caça misturou-se com a gente sem ter medo, isto é, as onças e todos os animais ferozes.

Um mês depois, ouviu-se um estrondo maior. Viram, então, que as trevas iam da terra ao céu, com trovoada e grande chuva, esmigalhando o dia e a terra. Perderam-se uns, outros morreram, sem ver porquê; contam que estava tudo muito feio.  As águas então cresceram muito, e dizem que submergiram a terra, ficando só de fora os galhos das grandes árvores. Para aí subiu o povo, mas morreu de fome e de frio, pois choveu todo o tempo da escuridão.

Escaparam somente Uaçu sua mulher Sofará. Quando desceram, não acharam dos outros nem os cadáveres, nem os ossos.

Depois disso, os índios imaginaram:

— Será bom, talvez, fazer as nossas casas sobre o rio, para quando as águas crescerem, nós subirmos rio.

Por isso, os pamaris[1] moram ainda hoje sobre as águas do rio.

 

Fonte: “Lendas dos Nossos Índios”, Livraria Francisco Alves, 1931.

 

Nota:



[1] Índios do rio Purus, que habitam balsas sobre as águas dos rios e lagos (N. do A.).

 

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