DÚVIDA - Conto de Ivan Kalganov



DÚVIDA
(Conto russo)
Ivan Kalganov
(Pseudônimo de Thomaz Lopes [1878 – 1913])


Falhei.
*

Era uma fria noite de inverno; lá fora geava como no polo; e eu pensava nas criancinhas que morriam de frio fome, hirtas e enregeladas na neve da cidade. No quarto, meu amigo e senhor esperava alguém sem pressa ou emoção; portanto, o alguém era, como ele, um homem. Que lindo aposento o do meu príncipe Alexandre Dievouchkine! Que tapeçarias opulentas, e que ricas peles, amplas e fofas, e que mobílias de gosto e preço. Oh, que luxo! Mas as peles! E as crianças morrendo de frio... De vez em quando, esfregando as mãos, o príncipe olhava o relógio; e estirando os pés à flamívoma boca de leão do calorífero, murmurava:

 —Ainda é cedo.

Às vezes, apanhava sobre a mesa um livro encadernado em couro da Rússia ou suave pelica, e folheava a alma de um poeta francês. Então seus olhos azuis subiam para o teto, como à procura do céu, que devia estar muito alo e muito cinzento, cheio de gelo e frio. De uma ocasião apanhei uma quadra que nunca mais me saiu da memória. Era a primeira vez que eu a ouvia, na sua singela simplicidade, no seu imenso e sereno voo:


Oh! léger! quelle gloire—Amis, soyons légers,
Légers comme le feu, les ailes et la plume,
Comme tout ce qui mont et tout ce qui parfume,
Comme 1'âme des fleurs dans es bois d’oraugers


E o meu amigo exclamava num sorriso pinoso:

 —Que belo ! E tão desconhecida... “léger comme le feu...” Saint-Cyr de Rayssac... Ainda é cedo...

—Poetas! — pensei comigo. Só a morte é ligeira e leve... Como é difícil construir! Reconstruir ainda é mais difícil! Mas destruir é fugir; fugir é voar para a morte. Como é fácil a morte...

Diante do espelho do guarda-casaca, o meu amigo e senhor abria os braços com volúpia; e rolando para deleitosa carícia do divã de seda e peles:
—Ora, afinal de contas, a vida é boa.

Depois, uma cigarrilha perfumada, olhos em êxtase, fumarada leve para o teto.

Olhando mais uma vez o relógio, começou a vestir-se. E eu pensei:

—Que lindas meias de seda! E que belos sapatos! O meu amigo vai, talvez, a um baile.

Refletindo no cristal, a sua face loura emoldurada numa fina barba de Nazareno, o meu rico príncipe hesitou:

—Fardado? Talvez eu ponha a grande farda! Os couraceiros de Sua Majestade ficam otimamente em primeiro uniforme... Mas se souberem?... Casaca é mais seguro! É! Casaca civil, feita em Paris...

Mas um carro entrou no vestíbulo; e pelo fino trote da parelha que resfolegava, disse a mim mesmo que aquilo não podia ser um drochky. Carruagem de luxo com certeza. Imediatamente o outro entrou no quarto, limpando a neve que lhe embranquecera o bigode louro; e com uma triste voz:

—Boa noite, Alexandre Dievouchkins! Oh, este Petersburgo! Este inverno!

Mas que outro! Se eu não fosse de nascença friamente, geladamente insensível, ter-me-ia assustado. Mas, o príncipe, meu senhor, decerto sabia de tudo, porque nem se surpreendeu; foi apenas com tristeza, como defronte de um moribundo.

— Então, melhor, Nicolau Valkovsky?

Ele nem respondeu; teve um suave e elegante gesto de desalento. Era aquele, era verdade, o muito belo e muito alegre príncipe Nicolau Valkovski! Se eu não tivesse o seu nome o seu nome, talvez não o reconhecesse! O fino rosto emagrecera em dois dias, que havia tantos eu lho contemplara; a face estava mais branca do que um lírio; muito fundos, manchados de olheiras mais fundas, os seus grandes olhos azuis brilhavam como duas safiras no leite. Eu, claramente, percebi que uma grande dor, serena e muda, envenenava-lhe a alma tão límpida e tão nova! Coitado do príncipe! Vinte e seis anos apenas! Ele sorriu diante do espelho: se eu tivesse lágrimas, choraria diante daquele sorriso... Não conheço nada de mais pungente do que um sorriso triste.

Coitado do príncipe Nicolau Valkovsky!

Enquanto meu senhor se vestia, ele sentou-se na cadeira, defronte da mesa, defronte de mim; e, com a cotovelo apoiado à pasta de couro da Rússia, mergulhou os brancos dedos da mão direita (onde brilhavam joias) no cabelo d’ouro. E assim permaneceu por algum tempo na abatida postura em que eu contemplara uma vez, em Paris, na casa da condessa ***, uma gravura de Henrique Heine. O nosso amigo, volteando-se, tomou-lhe com a mão, de leve, sobre o ombro, num respeitoso silêncio. Depois ainda o meu senhor, como que para afugentar reminiscências dolorosas:

—Não te estou fazendo esperar? Tu não tens pressa, Nicolau Valkovsky?

O abatido príncipe voltou lhe uma face de mágoa e dó:

— Não, eu não tenho pressa! Eu não tenho mais pressa! Nunca mais... eu refleti que deve ser pungente o exílio de alguém, que através da existência, nunca mais tenha pressa, para quem as horas deslizem sem curiosidade, para quem minutos não tragam emoção, para quem o relógio seja simplesmente máquina!

— Gostei de teres chegado cedo! Estava em dúvida; vou, contudo, de dasaca...

O meu senhor, que atara o nó da gravata branca, estava agora ente o guarda-casaca e a sua porta, que do lado interior era de madeira. Nicolau Valkovsky levantou-se, e ao levantar-se, viu-me. Se eu pudesse esconder-me! Um clarão sinistro iluminou-lhe a face pálida; fixou-me com os grandes olhos parados, imóveis... Se eu pudesse fugir! Depois, seus longos dedos gelados tocaram-me o corpo frio... Se eu pudesse chamar o meu senhor!  Sentou-se de novo e sobre mim inclinou a fronte que suava... Por que, pobre príncipe? Ainda há três dias, neste mesmo quarto, deste mesmo lugar te contemplei; ainda invejei teu claro riso (tu, um homem do Norte!) e a tua deslumbrada alegria de criança (tu, um homem da Rússia!). Como sempre (só hoje esqueceste), beijaste, abraçaste o meu amigo, que te abraçou, que te beijou. Ias para os divertimentos das ilhas de Neva, cheias de teatros, de cafés de luxo, de alegrias, de mulheres e de vida! E eu pensei comigo: ora, este príncipe, com uma alegria mais quente e mais rubra do que o sol dos trópicos, vai talvez desmanchar o gelo da patinagem! Quase sorri ao meu elegante lugar comum. E agora, por quê? Arruinado? Ainda há seis dias, fizeste um depósito de não sei quantos mil rublos. Desgostos da política ou do trono, agora que teu pai foi nomeado embaixador da Rússia em Berlim? Família? Oh, tão querido, tão invejado, tão elogiado! Remorsos? As gentes pobres beijam-te as mãos, as criancinhas sorriem-te dentro do conforto com que as agasalhas! Passaste dois anos, como cossaco, nas duras regiões do Amor, aplacando misérias e desventuras imensas. Doença incurável? O doutor Versykaoff gabou, diante do meu senhor, a tua saúde perfeita, as tuas vísceras sãs. Por que, então, príncipe? Amor? Com o teu espírito, a tua inteligência, a tua cultura, o teu bom senso, o altruísmo e a tua bondade? Amor? Perdoa as injúrias e esquece! Iludiram a tua boa-fé, zombaram da tua requintada delicadeza afetiva, apunhalaram-te o coração, envenenaram-te a alma, estragaram a tua mocidade, trucidaram a tua vida, espezinharam o teu amor próprio? Perdoa, desdenha e esquece! Foi uma desfeita forte? Mostra-te superior a ela!  Mostra que, além do teu coração de criança, tens uma vontade de homem superior a livre. Perdoa! Ora, Amor?

Mas eu, gelado, junto à fronte gelada, sentia os dedos frios. Amor? A face do príncipe era a de um cadáver. E eu tive, de repente, a certeza de que nunca mais aquele homem alegre havia de rir, de que ele havia de ser eternamente, na vida, como um morto e como uma sombra. Nisto, um dedo, ao princípio trêmulo, depois firme, firme, puxou-me o braço... Se eu pudesse desviar-me! Senti o meu braço apertado levantar-se... Olha o, que fazes, príncipe!  E teus pais tão teus amigos! E a Pátria, príncipe? És militar; se um dia a Rússia precisar do teu valor e do teu sangue? E tanto espírito e tanta bondade sacrificada por causa de tão pouca bondade! Não alimentes, com o teu sacrifício, pretensiosas e estultas vaidades! Fora, príncipe! Escuta, príncipe, ou sou a Razão Forte. É a primeira vez que tremo, é a primeira vez que hesito. Príncipe... O meu braço, agora ia descaindo para a frente, descaindo... descaindo... Caiu! Mas não pude gritar! Felizmente, não tive voz para gritar! Falhei!

Pela primeira vez, falhei. Se meu senhor soubesse...

Mas, meu Deus! Valkovsky, mais calmo, mais seguro, ia recomeçar...

Nesse instante ouvi a voz suave do meu senhor, Alexandre Dievouclhkine:

—Às suas ordens, Nicoláu Valkovsky! Vamos embora!

O triste príncipe largou-me com um gesto de ódio. Era a primeira vez que ele odiava... Vestir a pelica.

—Ingrato! — Pensei comigo. Calçou as luvas. Ainda lançou-me os olhos. Una carruagem rodou na noite gelada.

*

Só, no abandono e treva do meu quarto, sentindo inverno e frio, adivinhando primaveras e céus azuis, cismando em cemitérios mortos e berços risonhos, vendo lágrimas e vendo lagrimas e vendo risos, pensei comigo:

—Falhei! Fiz bem? Fiz mal?


Fonte: Diário da Tarde (Curitiba/PR), edições de 16 e 17 de maio de 1904.

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