MASETTO E AS MONJAS - Conto humorístico de Giovanni Boccaccio



MASETTO E AS MONJAS
 Giovanni Boccaccio
(1313 – 1375)

Em nossa região havia, e ainda há, um mosteiro feminino, muito famoso por sua santidade, e cujo nome não revelarei para em nada diminuir a sua fama. Nesse mosteiro, não faz muito tempo, havia não mais que oito monjas e uma abadessa, todas jovens. Um bom homenzinho era o hortelão de seu lindíssimo jardim. Porém, o jardineiro, insatisfeito com o salário, pediu a conta ao mordomo[1] das monjas, e voltou para Lamporecchio, sua terra de origem.

Ali, entre os demais, que o receberam alegremente, havia um jovem lavrador, forte e robusto — bem-apessoado para um camponês —, chamado Masetto, que perguntou ao hortelão onde estivera por tanto tempo. O bom homem, que se chamava Nuto, contou-lhe. Masetto indagou-lhe, então, o que fazia no convento. Nuto respondeu:

— Eu trabalhava num jardim, belo e grande. Além disto, ia, de quando em quando, ao bosque buscar lenha. Trazia água e fazia outros pequenos serviços. Mas as senhoras me davam um salário tão diminuto que eu mal podia pagar os sapatos. Ademais, as monjas são todas jovens e parece-me que têm o diabo no corpo: nada que se faz é capaz de agradá-las. Quando eu estava trabalhando no horto, uma dizia: “põe isto aqui”, ao passo que dizia a outra: “põe aquilo aqui”. Mais uma me tirava a enxada da mão e dizia: “estás fazendo errado”. E me apoquentavam tanto aquelas jovens que eu largava o trabalho e saía do horto. Foi assim, entre uma coisa e outra, que eu não quis mais ficar lá e voltei. Aliás, o mordomo me pediu, quando eu vim, que, se soubesse de alguém que servisse para trabalhar no horto, que eu lhe enviasse, de molde que lhe prometi que assim o faria. Mas Deus que lhe dê saúde aos rins, porque não vou procurar nem lhe enviarei ninguém.

Ouvindo o que lhe dizia Nuto, Masetto sentiu tão grande vontade de estar com as jovens monjas que se consumia inteiro, eis que antevia, pelas palavras de Nuto, que poderia satisfazer aos próprios desejos. Mas, ponderando que nada conseguiria se abrisse a boca, disse-lhe:

— Ah, fizeste muito bem em vir embora! O que é um homem entre mulheres? Melhor seria estar com os diabos: seis vezes em sete, nem elas mesmas sabem o que querem!

Mas, concluído o diálogo, pôs-se Masetto a cogitar sobre o caminho que deveria seguir para estar com elas. E, sabendo que poderia executar muito bem os trabalhos que Nuto fazia, não teve o receio de não obter o emprego por esta razão, senão por ser muito jovem e vistoso. Por isso, depois de muito pensar, considerou: “O lugar é muito longe daqui e lá ninguém me conhece; se eu me fingir de mudo, certamente serei admitido.”

E, fixando-se em tal pensamento, com um machado ao ombro, sem dizer a ninguém aonde ia, chegou ao convento como um pobretão. Lá estando, entrou e, por acaso, deu-se com o mordomo no pátio. Fazendo-lhe gestos como fazem os mudos, mostrou que lhe pedia comida ‘pelo amor de Deus’, e que, se precisasse, lhe racharia lenha. De boa vontade, o mordomo lhe deu de comer. Depois, pôs à sua frente alguns troncos que Nuto não conseguira rachar. Ele, porém, muito forte que era, os reduziu a pedaços em pouco tempo. O mordomo, que precisava ir ao bosque, levou-o consigo, e ali o fez cortar lenha. Depois, pondo-lhe à frente um jumento, disse-lhe, por gestos, que o levasse à casa. Como tudo havia sido executado à perfeição, o mordomo, necessitando ainda de alguns outros serviços, ficou com o jovem mais alguns dias. Num desses dias, a abadessa o viu e perguntou ao mordomo quem era ele.  O mordomo respondeu:

— Senhora, é um pobre homem mudo e surdo, que apareceu um dia destes pedindo esmolas. Dessa maneira, fiz-lhe o bem e lhe pedi que fizesse várias coisas de que necessitava. Se ele souber lavrar o horto, e quiser ficar, creio que estaríamos bem servidos, porquanto ele é forte e necessitado. Assim, poderíamos mandar que fizesse o que precisássemos. Além disto, gracejos dirigidos às suas jovens não seriam motivo de preocupação.

A abadessa disse:

— Por Deus que falas a verdade. Procura saber se ele sabe lavrar e empenha-te em retê-lo aqui. Dá-lhe uns pares de sapato, algum capuz velho e adula-o. Faz-lhe mimos e dá-lhe bastante comida.

O mordomo disse que assim o faria. Masetto, que não estava muito longe dali, e fingia varrer o pátio, ouviu todas estas palavras. E, contente, disse a si mesmo: “Se me puserem lá dentro, lavrarei o horto melhor que qualquer outro que já o tenha feito antes”.

Ora, tendo o mordomo visto que ele sabia lavar excelentemente, perguntou-lhe, por gestos, se queria ficar por ali. Também por gestos, Masetto respondeu que queria fazer o que o mordomo ordenasse.  Este o admitiu e o encarregou de trabalhar no horto, instruindo-lhe no que deveria fazer. Depois, foi tratar de outros assuntos do mosteiro e o deixou. 

Trabalhando Masetto dia após o outro, as monjas começaram a perturbar-lhe a paz e a troçar com ele, como muitas vezes costuma-se fazer com os mudos, e lhe diziam as palavras mais torpes do mundo, acreditando que ele nada daquilo ouvia. E a abadessa, talvez achando que lhe faltava cauda além da fala, pouco ou nada se preocupava com aquilo. 

Mas aconteceu que, tendo labutado muito um certo dia, e estando descansando, duas monjas, que andavam pelo jardim, aproximaram-se de onde deitara-se Masetto. E puseram-se a contemplá-lo, enquanto ele fingia dormir. Foi quando uma delas, que era um tanto mais atrevida, disse à outra:

— Se achasse que guardarias um segredo, eu te diria um pensamento que tenho tido muitas vezes, e que a ti, talvez, poderia aproveitar.

A outra respondeu:

— Fala sem receio, que, com certeza, eu nunca contarei nada a ninguém.

Então a atrevida começou:

— Não sei se tu já percebeste o quanto nós somos mantidas constritas no mosteiro; aqui, não entra homem algum, a não ser o mordomo — que é velho — e este aí — que é mudo. E muitas vezes, das mulheres que vêm nos visitar, ouvi dizer que todas as delícias do mundo são uma ninharia em comparação com a delícia que é entreter-se uma mulher com um homem. Eis por que, muitas vezes, me vem o pensamento de comprovar se é mesmo verdade o que elas dizem, e penso em fazê-lo com este mudo. Com outro homem, não poderei tirar a prova. Vê, ele é o melhor homem no mundo para tal propósito, porque, mesmo que quisesse, não poderia nem saberia contá-lo a ninguém. Como estás a ver, ele é um rapagão estúpido, que cresceu antes de ter juízo. De bom grado, ouvirei o que tens a dizer sobre isto.

— Ai — disse a outra —, o que estás a dizer?  Não sabes que prometemos a nossa virgindade a Deus?

— Oh — disse a outra—, quantas coisas são prometidas todos os dias a Deus e nenhuma é cumprida!  Se prometemos isto, que outra ou outras cumpram por nós a promessa.

— E se ficássemos grávidas, o que seria de nós?

Então, a outra disse:

— Tu começas a pensar no mal antes que ele te chegue. Se tal acontecer, então pensaremos nisto. Há mil modos de proceder para que ninguém saiba de nada, desde que guardemos o segredo.

Esta, ouvindo isto, e já mais avançada que a outra na vontade de experimentar que espécie de animal era o homem, disse:

— Está bem. Mas, como faremos?

A outra respondeu:

— Como vês, logo soará a nona. Creio que, exceto nós, todas as irmãs estão dormindo a sesta. Daremos uma espiadela no horto para ver se há alguém. Se não houver, o que haveremos de fazer é tomá-lo pela mão e levá-lo à cabana que nos serve de abrigo à chuva. Lá dentro, uma ficará com ele, enquanto a outra montará guarda. Ele é tão estúpido que fará tudo o que quisermos.

Masetto ouvira toda aquela conversa e, disposto a obedecer, esperava apenas ser arrebatado por uma delas. Depois que espiaram muito bem por toda parte, e constataram que não podiam ser vistas, aproximaram-se de Masetto. A que havia iniciado a conversa acordou o rapaz e ele, imediatamente, pôs-se de pé. Ela, então, tomou-o pelas mãos com gestos aduladores, e ele, dando seus risinhos idiotas, seguiu-a até a cabana, onde Masetto, sem fazer-se de rogado, fez aquilo que ela queria. Esta, como leal companheira, havendo obtido o que desejava, cedeu a vez à outra, e Masetto, sempre se mostrando simplório, satisfazia à vontade delas. Por isto, antes de ir embora, cada uma delas quis mais uma vez comprovar como o mudo cavalgava. Depois, nas várias vezes em que conversaram, disseram as monjas uma à outra que, verdadeiramente, aquilo era coisa deveras deliciosa, e bem mais ainda do que tinham ouvido dizer. E, procurando os momentos oportunos, iam divertir-se com o mudo.

Certo dia, sucedeu que uma companheira delas viu, da janela de sua cela, o que ocorria e mostrou aquilo a outras duas. Primeiramente, tomaram a decisão de denunciá-las à abadessa. Mas, depois, mudando de opinião, e, em comum acordo, resolveram desfrutar da potência de Masetto. Assim, aquelas três jovens, por diversos incidentes, e em várias ocasiões, compartilharam aquela ventura.

Finalmente, a abadessa, que ainda não soubera destas coisas, passeando sozinha, num dia de grande calor, pelo jardim, encontrou-se com Masetto. Este, estirado à sombra de uma amendoeira, dormia, já que, por cavalgar excessivamente à noite, extenuava-se com pouquíssimo trabalho durante o dia. Como o vento levantara-lhe as vestes, dobrando-as para trás, ficara todo exposto. Vendo-o assim, e estando sozinha, a abadessa foi invadida pelo mesmo apetite que assaltara as suas monjazinhas. E, acordando Masetto, conduziu-o à sua alcova, onde o manteve por vários dias, com isto provocando um grande queixume das monjas, já que o hortelão não ia lavrar o horto. Enquanto o reteve, a abadessa provou e voltou a provar aquela delícia que antes costumava reprovar na presença das outras.

Por fim, a abadessa, mandando Masetto de volta ao quarto em que este dormia, passou, a partir de então, a requisitá-lo à alcova com muita frequência, porquanto o queria inteiro e não apenas em parte. Não podendo satisfazer a tantas mulheres, Masetto considerou que, se permanecesse a fingir-se de mudo, viria a sofrer grandes danos. Por isto, certa noite, estando ele com a abadessa, começou a falar:

— Senhora, ouvi dizer que basta um galo para dar conta de dez galinhas, mas que dez homens mal conseguem satisfazer a uma mulher. Eu, contudo, tenho que servir a nove. Por nada neste mundo eu suportarei. Aliás, por tudo o que já fiz, agora já não consigo fazer nem pouco, nem muito. Por isto, eu te peço: ou me deixas ir com Deus, ou procuras um meio de resolver a situação.

— O que é isto?  Eu pensava que eras mudo!

— Senhora — disse Masetto —, eu era mudo não de nascimento, mas por causa de uma doença que me tirou a fala. Mas, nesta noite, pela primeira vez, vejo que a fala me foi restituída, e por isto louvo a Deus o quanto posso louvar.

A senhora acreditou no que ele dizia e perguntou-lhe o que ele queria dizer com ter de servir a nove mulheres. Masetto contou-lhe tudo o que ali acontecia. Ouvindo-o, a abadessa percebeu que não havia monja que não fosse muito mais sabida do que ela. Assim, porque discreta, e sem permitir que Masetto partisse dali, dispôs-se a chegar a um acordo com as suas monjas quanto àquele assunto, evitando, desta forma, que Masetto comprometesse a boa fama do mosteiro.

Tendo morrido por aqueles dias o mordomo, de comum acordo — e trazendo às claras a conduta de cada uma —, lograram as monjas, com a anuência de Masetto, com que os moradores dos arredores acreditassem que, por arte de suas orações, e por mérito do santo a quem o mosteiro era dedicado, Masetto, que fora mudo por um longo tempo, tivera restituída a fala. E que, por tal virtude, era nomeado o novo mordomo. E dividiram-lhe de tal modo os encargos que ele pôde suportá-los muito bem.

E, realizando os seus misteres, Masetto gerou muitos mongezinhos. Mas as coisas se fizeram tão discretamente que nada disto se revelou até a morte da abadessa, quando Masetto estava já quase velho, e mantinha o desejo de retornar rico à sua casa. O que, quando os fatos vieram a público, logo se arranjou.

Destarte, Masetto, velho, pai e rico, sem ter jamais labutado para alimentar os filhos, nem pagar os próprios dispêndios, por conta da astúcia de bem fazer uso de sua juventude, retornou ao lugar de onde saíra com um machado ao ombro, asseverando que era assim que Cristo tratava quem lhe punha cornos sobre a coroa.


Versão em português de Paulo Soriano.
Ilustração: Gravura de autor desconhecido do século XV (edição veneziana do Decamerone, de 1492).




[1] Ou seja, a pessoa encarregada de administrar e suprir as necessidades do mosteiro e de suas religiosas.

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