A GASCOA E O REI - Giovanni Boccaccio



A GASCOA E O REI

Giovanni Boccaccio

(1313 – 1375)

 

Durante o reinado do primeiro soberano de Chipre[1], instalado naquela ilha depois que Godofredo de Bulhão[2] conquistou a Terra Santa, uma senhora da Gasconha foi, por devoção, a Jerusalém, para visitar o Santo Sepulcro.

Ao retornar, passou por Chipre, onde alguns pilantras a insultaram e ultrajaram. Reclamou ao magistrado, mas, não encontrando nenhuma satisfação, resolveu levar a reclamação ao rei.

Não faltaram pessoas que lhe disseram que estava perdendo tempo, pois o príncipe era tão indolente e inspirava tão pouco receio em seus vassalos que não só deixava impunes os insultos alheios, como tolerava, jovialmente, aqueles dirigidos à sua pessoa. E isto a tal ponto que, se alguém estava descontente com ele, podia expressar, impunemente, e da forma mais desrespeitosa, o que sentia.

Sabendo disso, a senhora, desesperada por vingança ao ultraje sofrido, se propôs a, pelo menos, zombar da indolência e covardia do rei. E ela apareceu diante dele, banhada em lágrimas.

— Senhor — disse ela — não venho na esperança de ser vingada pelos insultos recebidos por alguns de seus vassalos. Apresento-me, apenas, para implorar a Vossa Majestade que me ensine suportar os insultos e injúrias que recebeis diariamente, como me disseram. Talvez, seguindo o vosso exemplo, meu Senhor, eu possa resignar-me, placidamente, da afronta de que fui vítima, e vos dizer, com prazer, se possível, por que tens tanta paciência.

O rei, que até então havia sido indiferente a tudo, reagiu a essas palavras. E como se despertasse de uma letargia profunda, armou-se de vigor, puniu severamente aqueles que haviam ofendido a senhora, e, desde então, não deixou impune nenhuma afronta em detrimento de sua coroa.

 

Versão em português de Paulo Soriano.



[1] Guido de Lusinhão (1150 – 1194).

[2] Godofredo de Bulhão (1059 – 1100) foi um dos líderes da Primeira Cruzada e o primeiro soberano do Reino Latino de Jerusalém. 

 

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