A SENHORITA PÉROLA - Conto - Guy de Maupassant

A SENHORITA PÉROLA

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

Tradução de autor anônimo do séc. XX.


Que ideia mesmo esquisita que eu tive, naquela noite, de eleger rainha a senhorita Pérola! Todos os anos eu ia passar a festa de Reis na casa do meu amigo, o Sr. Chantal. Era um costume que tinha desde menino; meu pai, amigo íntimo de Chantal, me levava lá todos os anos. Depois, continuei e continuarei sempre praticando o mesmo costume, enquanto tiver vida e houver um Chantal no mundo.

Os Chantal, seja dito de passagem, levam uma vida ainda mais provincial que se morassem em Grasse, Yvetet ou Pont-à-Mousson. Possuem uma casa rodeada de um pequeno jardim. Ali vivem como se tivessem na província. Não conhecem nada, não estão a par de coisa alguma. Para eles, toda a parte de Paris situada do outro lado do Sena constitui os bairros novos, habitados por uma população enlouquecida, pouco honrada, que passa os dias na dissipação, as noites em festas. De vez em quando, entretanto, levam as filhas à Ópera Cômica ou ao Teatro Francês (quando a peça que se representa é recomendada pelo jornal que o sr. Chantal lê). Essas meninas contam atualmente dezenove e dezessete anos. São duas moças bonitas, agradáveis, simpáticas, muito bem-educadas, demasiado bem-educadas, tão excessivamente bem-educadas que passam despercebidas como delicadas bonecas. Jamais me ocorreria a ideia de namorar as senhoritas Chantal. Mal se ousa falar com elas, tão imaculadas são; e se chega ao cúmulo de achar que se comete uma inconveniência quando se fala com elas.

Quanto ao pai, é um homem encantador, muito instruído, muito aberto de espírito, muito cordial, mas que ama antes de tudo o repouso, a tranquilidade e a estabilidade, e contribuiu muito para modificar a família, que, graças a ele, vive quase numa imobilidade absoluta.

Mas os Chantal têm as suas relações, eleitas cuidadosamente entre a vizinhança. Trocam visitas duas ou três vezes por ano, com parentes que moram longe. Quanto a mim, vou jantar com os Chantal a 15 de agosto e no dia de Reis. Para mim, estas duas visitas constituem um dever tão sagrado como é para os católicos a comunhão da Páscoa. No dia 15 de agosto, convidam vários amigos; mas, no dia de Reis, sou eu o único convidado.

Portanto, este ano, como nos demais, fui jantar com eles no dia dos Reis Magos. Segundo o costume, abracei o Sr. e a Sra. Chantal e a senhorita Pérola. Quanto às senhoritas Luísa e Paulina, fiz-lhes uma cerimônia reverente.

Chegada a hora, sentamos à mesa e comemos, falando de mil coisas indiferentes, porém sérias.

Na sobremesa, trouxeram o bolo de Reis. Todos os anos o sr. Chantal oficiava de Rei. Não sei se era um convênio familiar ou puramente acaso, mas sempre a pequena surpresa que estava dentro do bolo caía para ele; e a sra. Chantal era proclamada a rainha. Por isso, fiquei surpreso quando, ao mastigar a massa, senti que meus dentes mordiam algo duro, que não podia triturar. Tirei da boca aquele objeto estranho: era uma bonequinha de porcelana. Soltei uma exclamação. Todos me olharam, e Chantal exclamou:

Caiu para Gastão! Caiu para Gastão! Viva o rei! Viva o rei!

E todos repetiam em coro:

Viva o rei!

Corei até as orelhas, como acontece sem razão alguma nas situações um tanto violentas. Fiquei de olhos baixos, com a bonequinha de porcelana entre os dedos, esforçando-me para rir, sem saber o que dizer, quando Chantal acrescentou:

Agora temos que eleger a rainha.

Então fiquei aterrado. Num segundo, mil pensamentos, mil suposições atravessaram-me a mente. Quereriam acaso que eu escolhesse uma das moças? Seria um ardil, um meio para fazer-me dizer qual das duas preferia? Seria acaso uma doce, ligeira, insensível insinuação dos pais, para um possível casamento?

A ideia do casamento é predominante numa casa onde há moças em idade de mudar de estado. E a maneira de consegui-lo faz com que se usem, para mil coisas sutis, preocupados, ansiosos para casar uma, duas ou mais filhas. Senti-me invadido de um medo atroz de me comprometer. Mas logo tive uma inspiração e estendi a Srta. Pérola a bonequinha simbólica. No primeiro momento, todos se mostraram surpresos; mas, logo, apreciaram a minha delicadeza, porque exclamaram juntos e com muito entusiasmo:

Viva a rainha! Viva a rainha!

Quanto a ela, pobrezinha, perdera o domínio sobre si mesma. Tremia, hesitava, balbuciando:

Mas, não… não… Eu não… Eu não… Por favor… Eu não…

Então, pela primeira vez na vida, olhei para a Srta. Pérola e perguntei a mim mesmo quem seria ela.

Antes disso, estava acostumado a vê-la na casa como se veem os móveis velhos, um tapete familiar, enfim, tantas coisas que se veem desde a infância sem prestar grande atenção. E, um dia, sem se saber porquê, cai um raio de sol sobre o tapete ou no móvel, iluminando-o, e se descobre um detalhe que começava a parecer novo. De improviso, na senhorita Pérola.

Ela fazia parte da família Chantal; isso era tudo o que eu sabia. Mas, em que qualidade? Com que direitos, com que título?

A Srta. Pérola era uma mulher que começava a envelhecer; que se esforçava por passar despercebida e parecer insignificante, mas que, vendo-se com um pouco de atenção, não era nem uma coisa nem outra.

Na casa era tratada com amabilidade e respeito, melhor que uma criada, mas não como a uma parenta. Bruscamente, percebi várias coisas em que nunca havia pensado. A Sra. Chantal chamava-lhe “Pérola”; as meninas, “Senhorita Pérola", e Chantal chamava-lhe “Senhorita”, de maneira singularmente reverente.

Pus-me a olhá-la, pensativo. Quantos anos teria? Quarenta e cinco anos? Sim; era essa a idade mais provável. Na realidade, a Srta. Pérola não era velha, mas fazia o possível para parecê-lo. Esta observação deixou-me estupefato. Aquela mulher se vestia, se penteava e, enfim, se arrumava ridiculamente, e, no entanto, não era ridícula. Ao contrário, possuía uma graça natural, simples, etérea, ocultada com bastante cuidado. Que criatura mais esquisita, na verdade! Como nunca me ocorrera observá-la bem?! Seus olhos eram grandes, azuis, profundos e tímidos, bonitos e cheios de uma expressão que mais correspondia a de uma adolescente romântica do que a uma mulher que parecia velha. Seu rosto formoso respirava mil cuidados e distinção. E a boca! Que boca linda! Que dentes! Dir-se-ia que aquela boca fazia o possível para não rir.

De repente, por um desses incompreensíveis giros do pensamento, comparei-a com a Sra. Chantal. A senhorita Pérola era melhor, mais bela, mais distinta, mais bonita; mil vezes mais bonita. Todas essas observações deixaram-me estupefato.

Serviram a champanha. Ergui-me, estendi a taça e propus o meu brinde pela rainha. Ao fazê-lo, pude observar que a Srta. Pérola tinha vontade de cobrir o rosto com o guardanapo. Depois, ao levar a taça aos lábios, todos exclamaram:

A rainha está bebendo! A rainha está bebendo!

Então ela se perturbou toda; vivamente ruborizada, sufocou-se e teve que largar a taça. Todos estalaram em gargalhadas. Riam-se, mas observando-os enquanto o faziam, era fácil adivinhar que todos, sem exceção, sentiam profundo carinho pela Srta. Pérola.

Quando terminamos o jantar, Chantal me tomou pelo braço. Era a hora sagrada do seu cigarro. Quando estava só, saía a fumar na rua; quando havia algum convidado, subia com ele para a sala de bilhar e, enquanto fumava, jogavam uma partida.

Nessa noite subimos, pois, à sala de bilhar. Ali Chantal serviu dois cálices de um fino conhaque e brindou, dizendo carinhosamente:

À sua saúde, menino!

Imediatamente, começamos a jogar. Fiz algumas carambolas e errei outras. Mas o pensamento da Srta. Pérola estava tão fixo na minha mente que, de repente, me virei para o Sr. Chantal e perguntei:

Senhor Chantal, diga-me uma coisa: a Srta. Pérola é sua parenta?

Oh, não. Mas… não sabes? — replicou, parando de jogar para olhar-me com espanto — Não sabes a história da Srta. Pérola?

Não, não sei.

Então teu pai nunca te contou?

Nunca.

Pois eu pensei que tu soubesses. Vais ver como se trata de uma verdadeira novela…

Calou-se alguns instantes, pensativo, e depois ajuntou:

E se soubesses que estranha coincidência essa de me perguntares isso precisamente no dia de Reis!

Por quê?

Faz quarenta e três anos, já. Morávamos em Rouy-le-Tors. Mas, antes de contar-te a história, quero descrever-te a casa, para que compreendas melhor. Rouy estava construída sobre um monte que dominava grande altura. Diante da casa, havia um grande jardim, que dava diretamente para os extensos prados. Diante da porta de entrada, que sempre se fechava com um grande cadeado e na qual havia, além disso, um sino grande e sonoro, passava a estrada. Já fizeste uma ideia da casa, não? Pois bem, aí vai a história.

Naquele ano, quando chegou o dia de Reis, nevava havia uma semana, de maneira contínua, abundante. Dir-se-ia chegado o fim do mundo. Ao chegarmos às janelas, víamos a imensa planície convertida num lençol branco, gelado. Asseguro-te que o espetáculo, embora belo, não deixava de ser bastante triste.

Naquele tempo, a família de meu pai era bastante numerosa; compunha-se de meu pai, minha mãe, meu tio e minha tia, meus dois irmãos e minhas quatro primas. Estas últimas eram umas donzelas prendadas; casei-me com a menor delas. De toda essa família, só restam três vivos: minha mulher, eu e uma cunhada, que atualmente vive em Marselha. Como passa o tempo e como se desfaz uma família! Naquele tempo, eu contava quinze anos; hoje, tenho quase sessenta. Naquele dia, íamos celebrar a festa dos Reis Magos. Todos nos sentíamos muito alegres. Estávamos jantando na sala de jantar grande, e em meio à animação, João, meu irmão mais velho, disse:

“— Faz dez minutos que um cachorro está latindo no prado; o pobre animal deve estar perdido.

Mal havia terminado de falar, tocaram o sino da porta do jardim. Esse sino tinha um som potente, que recordava a igreja e os mortos. Todos estremecemos. Meu pai chamou um criado e mandou ver quem era. Ficamos em silêncio, esperando e pensando na imensidade da terra coberta de neve. O criado voltou e disse que na porta não havia ninguém. Mas o cão continuava a latir no prado. Voltamos para a mesa; já estávamos um pouco emocionados; principalmente, os mais jovens. Comemos durante uns minutos, até que o sino tornou a tocar. Dessa vez foram três toques seguidos, compassados, que vibraram em todas as fibras do nosso corpo. Olhamo-nos outra vez, prestando atenção, tomados de uma espécie de terror do sobrenatural.

“— Isso é esquisito — disse minha mãe. E, vendo que o criado se dispunha a tornar a ver quem era, disse: — Espere; um destes senhores irá acompanhá-lo.

Então meu tio Francisco se pôs de pé. Era uma espécie de Hércules, muito orgulhoso da sua força, e que não temia nada nem ninguém no mundo. Meu pai lhe disse:

“— Leva a escopeta; não se sabe o que possa ser.

Mas meu tio tomou de um bastão, e o criado seguiu-o. Ficamos trêmulos de terror e de angústia, sem comer e sem falar. Meu pai quis animar-nos, dizendo:

“— Vão ver como se trata de uma de um mendigo ou de um viajante perdido na neve.

A ausência de meu tio nos pareceu eterna. Depois chegou, por fim, furioso, praguejando.

“— Nada, maldita seja! Nem sequer uma sombra! Nada, além desse cão que ladra a cem metros do muro. Se eu tivesse levado a escopeta, tê-lo-ia matado, para que se calasse.

Reiniciamos o jantar interrompido por duas vezes. Mas ninguém estava tranquilo; todos sentíamos que a coisa não podia terminar assim e que algo ia suceder. De fato, no momento de cortar o bolo de Reis, o sino da porta voltou a tocar. Todos os homens se puseram de pé. Meu tio, que estivera bebendo champanha, disse com tremenda ira que ia matar alguém, e minha mãe e minha tia atiraram-se sobre ele para rogar-lhe que não fizesse tal coisa. Meu pai, mais tranquilo, disse que queria saber do que se tratava e por isso ia ver.

Meus irmãos, de dezoito e vinte anos, respectivamente, correram para buscar suas escopetas. E como a mim ninguém olhasse, tomei de uma carabina que havia entre as outras armas, decidido a tomar parte no caso.

Meu pai e meu tio abriram o cortejo, seguidos por Batista, que levava uma lanterna, por meus dois irmãos, e, finalmente, por mim; minha mãe e minha tia queriam que eu ficasse para fazer-lhes companhia e a minhas primas, pois estariam todas sem a companhia de um homem.

Devido às incessantes nevadas, estava tudo completamente coberto por um lençol. Ao descer a escada, senti verdadeiro pavor. Tinha vontade de voltar, mas, como para isso era preciso atravessar sozinho todo o jardim, preferi continuar. Ouvi que abriam a porta, e que meu tio voltara a praguejar.

“— Maldita seja! Olhem, lá está o cão latindo. Vou mostrar àquele animal como se deve atirar. Mas meu pai, que tinha o coração mais brando, disse por sua vez:

“— Melhor seria ir buscá-lo; esse pobre animal deve ter-se perdido e ladra para orientar o dono que talvez esteja procurando. Vamos ver o que tem ele.

Avançamos pela neve, afundando as pernas até as barrigas destas. Quando chegamos perto, vimos que se tratava de um cão enorme, negro; um cão pastor, de cabeça de lobo. Ao ver-nos, sucedeu algo muito esquisito: em vez de continuar com mais fúria, calou-se, como se se tivesse acalmado repentinamente.

“— É estranho — disse meu tio. — Essa besta nem avança nem retrocede. Eu gostaria de dar-lhe um tiro para evitar prováveis ataques.

Mas meu pai insistiu com voz firme:

“— Não, vamos buscá-lo.

Então meu irmão João exclamou:

“— Mas o animal não está só! No chão, ao seu lado, há um vulto!

De fato, fixamos a atenção e vimos que junto ao cão estava algo cinzento, como um envoltório que mal se distinguia do ponto onde nós estávamos. Quando chegamos a dez passos de distância, o cachorro começou a mover a cauda com mostras inequívocas de contentamento. Meu pai foi o primeiro a aproximar-se dele; fez-lhe festa na cabeça e o animal lambeu-lhe a mão, carinhosamente.

Quanto nos reunimos todos, vimos, com o natural assombro, que o vulto, que de longe distinguíamos, não era senão um carrinho, um trenó, a que estava amarrado o animal com um equipamento de tiro. De surpresa em surpresa, examinamos o interior do trenó e recebemos a maior de todas: dentro do veículo havia uma criança, que devia contar apenas uns dias de existência!

O anjinho estava placidamente adormecido. Nossa estupefação foi tão grande que, nesse primeiro momento, ficamos todos mudos. Meu pai foi o primeiro a reagir, e, como tinha a alma caritativa, estendeu a mão por cima do inocente e disse em voz comovida:

“— Pobrezinho! Vamos levar-te conosco e farás parte de nossa família!

Imediatamente, ordenou a meu irmão que recolhesse a criança e a levasse ao interior da casa. Depois, apoiando a mão no ombro de meu tio, disse:

“— Viste? Que teria acontecido se tivesses atirado?

Meu tio não lhe respondeu, mas persignou-se fervorosamente, porque, apesar das suas bravatas, era um fervoroso cristão.

Quando minha mãe e minhas quatro priminhas nos viram entrar com a criança, cercaram-nos, soltando grandes exclamações de alegria. Imediatamente, tiramos a criança do carrinho; e, então, viu-se que se tratava de uma menininha, cuja idade seria de cerca de seis semanas.

A surpresa foi geral quando encontramos dez mil francos em notas. Papai separou-as imediatamente; este seria o dote da pequena abandonada. Este dinheiro indicava claramente que os pais (quem sabe por qual circunstância?) se viam obrigados a abandoná-la, e não eram pobres. Além disso, havia outra coisa: aqueles que tinham vindo bater à nossa porta deviam conhecer muito bem meus pais para entregar-lhes a filha junto com os dez mil francos.

Naturalmente, meu pai tratou de investigar quem poderiam eles ser, mas todos seus esforços foram inúteis. Até o cão, a quem também havíamos recolhido, era completamente desconhecido de toda a vizinhança.

Foi assim que, com a idade de seis semanas, a Srta. Pérola entrou na casa de meus pais.

Naturalmente, o nome ela recebeu muito depois. Meus pais fizeram-na batizar cristãmente com os nomes de Maria Simona Clara; este último é que ela usou familiarmente.

Cheios de alegria, voltamos à mesa. Cortou-se o bolo e a surpresa caiu para mim, e eu, tal como tu hoje, escolhi para rainha a Srta. Pérola.

A menina foi adotada e educada pela família. Todos nós a adorávamos, e, sem dúvida, a teríamos estragado se não fosse a firme atitude de minha mãe. Minha mãe era uma mulher de ordem e hierarquia. Consentiu em tratar Clara como a seus próprios filhos, mas o fez de modo que se mantivesse a distância com ela, e que a situação ficasse bem definida. Assim, desde que a menina teve uso da razão, minha mãe contou-lhe a sua história, fazendo-a compreender da maneira mais doce que ela, para os Chantal, era uma filha adotiva e nada mais. Clara compreendeu tudo com singular inteligência, e aprendeu a saber manter o seu lugar, com tanto tato e graça, que chegou ao verdadeiro coração de minha mãe.

Assim, mamãe logo começou a chamar-lhe “filha minha” da maneira mais natural possível; e, quando Clara fazia um feito, minha mãe se desfazia em elogios, exclamando:

“— Mas esta criatura é uma verdadeira pérola!

Foi assim que, de Clara, todos passamos a chamar-lhe Pérola.”

O senhor Chantal calou-se; eu não quis interromper o seu silêncio, porque notei que estava emocionado. Poucos minutos depois, ajuntou em tom de evocação:

E como era bonita aos dezoito anos! Tão graciosa, tão perfeita! Tão boa, tão dedicada! E que olhos! Claros e transparentes como nunca eu vi outros!

Como se calasse novamente, perguntei:

E por que não se casou?

Respondeu-me, com ar abstrato:

Por quê? Por quê? Porque não quis… Porque não quis. Com essa idade, já tinha trinta mil francos de dote e recebeu muitas propostas de casamento muito vantajosas… E, no entanto, não quis casar-se! Lembro-me que nessa época a vi muito triste, frequentemente. Foi quando me casei com a menor de minhas primas, Carlota, minha mulher atualmente, de quem estive noivo durante seis anos.

Olhei o senhor Chantal e me pareceu que penetrava em seu espírito; que penetrava num desses humildes e profundos dramas dos corações honrados e retos; desses corações que ninguém explorou jamais, que vivem mudos e resignados. Instigado pela curiosidade, não pude deixar de perguntar-lhe:

O senhor devia ter-se casado com ela!

O Sr. Chantal estremeceu e olhou-me:

Eu? Casar-me com ela? Por quê?

Porque o senhor a amava mais do que à sua prima Carlota.

Então olhou-me com uns olhos cheios de espanto, de assombro e lágrimas.

Que eu a amava? Quem disse semelhante coisa? Como…?

Sem perder a calma, respondi:

Não é necessário dizer nada. Se o senhor demorou tanto anos a casar-se com sua prima, foi porque o amor que sentia pela senhorita Pérola o deixava indeciso.

Subitamente, vencida a sua resistência, o senhor Chantal deixou o taco do bilhar que mantinha até então na mão, e, tapando o rosto, começou a soluçar. Chorava de maneira desoladora e até mesmo um tanto ridícula, num homem da sua idade. Impressionado, envergonhado por haver provocado essa crise emocional, eu tinha desejos de fugir, de livrar-me da situação. De repente, a voz da Sra. Chantal chamou da escada:

Ainda não acabaram de fumar?

Então apressei-me em abrir a porta e responder-lhe para que não subisse:

Sim, senhora; já vamos descer.

Precipitei-me para o seu marido e, tomando-o por ambos os braços, lhe disse em tom veemente:

Sr. Chantal! Sr. Chantal! Ouça-me! Sua senhora acaba de chamar-nos. Fique calmo, fique calmo! Devemos descer imediatamente.

Sim, sim… — respondeu debilmente. — Já vamos, já vamos…

Enxugou o rosto, coberto de lágrimas. Segurei-lhe a mão e disse:

Devo pedir-lhe que me perdoe, Sr. Chantal, por ter-lhe causado semelhante mágoa… Mas eu não sabia… O senhor compreende.

Sim, sim… — disse ele, apertando-me a mão. — Sim, sim, meu filho.

Depois foi à sala de banho e lavou o rosto com água fria. No entanto, quando saiu, ainda não estava apresentável. Então tive uma ideia para justificar os seus olhos avermelhados, e foi a de pretextar que um pouco de giz do bilhar lhe entrara nos olhos, irritando-os. Ele mostrou-se contente com o meu ardil, que lhe permitiria derramar ainda algumas lágrimas de desabafo na presença da família.

Afinal, descemos. Ao ver Chantal naquele estado, todos se inquietaram; mas ele se encarregou de tranquilizá-los, dizendo que lhe entrara giz nos olhos. Quanto a mim, aproximei-me da Srta. Pérola atormentado por uma curiosidade mais forte que a minha discrição.

Logo essa curiosidade se converteu numa necessidade: a de saber se ela também amara Chantal. Saber se ela também passara pelos longos sofrimentos, intermináveis e terríveis, dos que amam em vão. Olhei-a e pareceu-me notar que seu coração batia por baixo da renda simples e severa do vestido. Olhei-a fascinado, e perguntou-me a mim mesmo se essa mulher fina, delicada, bonita, chorara alguma vez ao saber que seu amor era impossível. Sem poder já conter-me, disse-lhe em voz baixa:

Ah, senhorita Pérola! Se a senhora tivesse visto o senhor Chantal chorando, teria ficado com pena dele!

Como? Ele chorou?

Sim! Chorou!

Muito emocionada e em voz baixa, perguntou-me:

Por quê?

Por sua causa.

Por mim?

Sim; contou-me quanto a amava na juventude, e quanto lhe custou ter que renunciar à senhora, para cumprir sua palavra de cavalheiro, dada à prima dele…

Seu rosto formoso tornou-se intensamente pálido; seus olhos pareceram aumentar; depois se fecharam repentinamente e, escorregando da cadeira como uma flor murcha, caiu no chão, desmaiada. Espantado gritei:

Por favor, venham cá! A senhoria Pérola desmaiou!

A Sra. Chantal e suas filhas acorreram; logo se encheu a casa de confusão; um buscava um lenço, outro o vinagre aromático, outro os sais. Eu aproveitei a ocasião para tomar do meu chapéu e fugir.

Saí dali abatido, com o coração sacudido pelos remorsos, dando grandes saltos no peito.

No entanto, muitas vezes pensando nesse episódio, senti-me satisfeito. Parecia-me ter feito uma coisa louvável, necessária. Outras vezes me perguntava: Fiz bem ou fiz mal?

Tanto Chantal como a senhorita Pérola certamente tinham o seu segredo guardado dentro do peito, de tal modo que, às vezes, devia sufocá-los, martirizá-los de dor. Esse segredo devia ter-lhes pesado no coração tal como um chumbo. Embora já não houvesse mais nada a fazer, embora o romance não pudesse reviver depois de tantos anos, não era menos certo que, às vezes, se poderiam sentir felizes com as recordações doces e tristes do amor, que lhes enchera a alma na juventude.

E era possível que só isso, as recordações, lhes desse na velhice mais felicidade e mais satisfações do que a própria ventura realizada. Acaso não era para eles uma grande alegria, uma imensa ventura o verificar que, apesar dos anos, da distância que mediava entre ambos, seus corações continuavam tão ternos e amantes um do outro, como na vigência da juventude? Sim, não tinha dúvida nenhuma. A senhorita Pérola e Chantal podiam dar-se por muito felizes, pois haviam conseguido o que ninguém, ou quase ninguém, consegue: a sobrevivência de um amor puramente espiritual. Passariam os anos; a morte os surpreenderia. E, depois, talvez no outro mundo, Deus lhes desse a suprema ventura de realizar a comunhão dos espíritos, tal como a desejaram na terra sem poder realizá-la.


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de janeiro de 1956.

Pesquisa: Rogério Silvério de Farias.

Ilustração: Evert Augustus Duyckinck (1816-1878).

 

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