IDÍLIO - Conto - Guy de Maupassant

IDÍLIO

Guy de Maupassant

(1850 — 1893)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


O trem deixara Gênova, indo para Marselha e seguindo as longas ondulações da costa rochosa, escorregando como serpente de ferro entre o mar e a montanha, arrastando-se pelas praias de areia amarela que pequenas vagas debruavam com uma rede prateada, e entrando bruscamente na goela negra dos túneis como uma fera no seu esconderijo.

No último carro do trem, uma mulher corpulenta e um rapaz estavam sentados um diante do outro, sem se falarem, e olhando-se de vez em quando. Ela tinha talvez vinte e cinco anos, e, sentada junto à janela, contemplava a paisagem. Era uma forte camponesa do Piemonte, de olhos negros, busto volumoso, faces carnudas. Metera vários embrulhos debaixo do banco, conservando nos joelhos um cesto.

Ele andava pelos seus vinte anos; magro, queimado, com essa tez escura dos homens que trabalham na terra ao sol. Junto a si, num lenço, toda a sua fortuna: um par de sapatos, uma camisa, uma cueca e um casaco. Debaixo do banco, escondera também alguma coisa: uma pá e um enxadão amarrados por uma corda. Ia procurar trabalho na França. O sol, subindo no céu, jogava sobre a encosta uma chuva de fogo; estava-se em fins de maio, e deliciosos odores vagavam, penetravam nos vagões, cujas vidraças se conservavam abaixadas. As laranjeiras e os limoeiros em flor, exalando no céu tranquilo os perfumes açucarados, tão doces, tão fortes, tão perturbadores, misturavam-nos ao hálito das rosas nascidas por todos os lados como folhinhas de relva, ao longo da estrada, nos ricos jardins, diante das portas das habitações e pelo campo também.

As rosas sentem-se em casa, nessa encosta! Enchem a terra com o seu aroma poderoso e ligeiro, fazem do ar uma gulodice, algo de mais saboroso do que o vinho e tão embriagador quanto ele. O trem seguia lentamente, como para retardar-se nesse jardim, nessa moleza. Parava a toda hora, nas pequenas estações, diante de algumas casas brancas, depois continuava no seu andamento calmo, depois de haver apitado durante muito tempo. Ninguém entrava nele. Dir-se-ia que o mundo inteiro dormitava, não podia resolver-se a mudar de lugar, nessa quente manhã de primavera.

A mulher corpulenta, de tempos a tempos, fechava os olhos, depois abria-os bruscamente, quando o cesto lhe escorregava nos joelhos, quase a cair. Segurava-o com gesto vivo, olhava para fora alguns minutos, depois adormecia de novo. Gotas de suor apareciam-lhe na testa, e ela respirava com dificuldade, como se sofresse de penosa opressão.

O rapaz inclinara a cabeça e dormia o sono forte dos campônios.

De súbito, ao saírem de uma estaçãozinha, a camponesa pareceu acordar, e, abrindo o cesto, tirou dele um pedaço de pão, ovos cozidos, uma garrafinha de vinho e ameixas, belas ameixas vermelhas. E pôs-se a comer.

O homem despertara também bruscamente e olhava-a, olhava cada bocado indo dos joelhos à boca. Permanecia de braços cruzados, os olhos fixos, as faces cavadas, os lábios fechados. Ela comia como uma gorda mulher gulosa, bebendo a cada instante um gole de vinho para empurrar os ovos, e parava para tomar um pouco de alento. Fez desaparecer tudo, o pão, os ovos, as ameixas, o vinho. E assim que ela terminou a refeição, o rapaz tornou a fechar os olhos. Então, sentindo-se um pouco incomodada, ela alargou o corpete, e o homem olhou de repente, outra vez.

Ela não ligou, continuou a desabotoar o vestido, e a forte pressão dos seios afastava a fazenda, mostrando entre os dois, pelo rego que aumentava, um pouco de roupa de baixo branca e um pouco de pele. Quando se sentiu mais à vontade, a camponesa pronunciou em italiano:

Está tão quente que nem se pode respirar.

O rapaz respondeu na mesma língua, e com a mesma pronúncia:

Bom tempo para a gente viajar.

Ela perguntou:

O senhor é do Piemonte?

Sou de Asti.

Eu sou de Casale.

Eram vizinhos. Puseram-se a conversar. Disseram longas coisas banais, que as pessoas do povo repetem sem cessar e que lhes bastam ao espírito lento e sem horizontes. Falaram da terra deles. Tinham amigos comuns. Citaram nomes, tornando-se amigos à medida que descobriam mais uma pessoa que ambos conheciam. As palavras rápidas, apressadas, saiam-lhes da boca com as suas sonoras terminações e a sua música italiana. Depois informaram-se um do outro. Ela era casada: tinha três filhos, que estavam entregues a sua irmã, pois que encontrara um lugar de ama-seca, um bom emprego em casa de uma senhora francesa em Marselha. Ele estava procurando trabalho. Tinham-lhe dito que nessa cidade ele encontraria emprego, pois se construíam muitas casas por lá. Depois ficaram quietos.

O calor tornava-se terrível, caindo em chuva sobre o teto dos vagões. Uma nuvem de poeira revoava atrás do trem, penetrando nele; e os perfumes das laranjeiras e das rosas tornavam-se mais intensos, parecendo mais espessos e pesados. Os dois viajantes adormeceram outra vez.

Abriram os olhos quase ao mesmo tempo. O sol baixava sobre o mar, iluminando a sua toalha azul com uma torrente de claridade. O ar, mais fresco, parecia mais ligeiro. A ama-seca estava ofegante, o corpete aberto, as faces moles, os olhos meigos; e disse, com voz acabrunhada:

Desde ontem que não dou de mamar; fico tão estonteada que até parece que vou desmaiar.

Ele não respondeu, não sabendo o que dizer.

Ela continuou:

Quando se tem leite, como eu, é preciso dar o seio três vezes por dia, sem o que a gente se sente mal. É como se fosse um peso no coração; um peso que me impede de respirar e que me quebra os membros. É ruim ter assim tanto leite!

Ele pronunciou:

É. É ruim. Deve incomodá-la.

Ela parecia, de fato, sentir-se mal, acabrunhada, quase desmaiando. Murmurou:

Basta apertar em cima para que o leite saia como de uma fonte. É mesmo curioso de se ver. Ninguém o diria. Lá em Casale, todos os vizinhos vinham ver.

Ele disse:

Ah! É?

É sim. Eu lhe mostraria com muito boa vontade, mas não adiantaria nada. Desse jeito, não sai o suficiente.

E calou-se. O trem parou. Em pé, junto a uma cancela, uma mulher trazia nos braços uma criancinha que chorava. Estava magra e esfarrapada. A ama-seca olhou-a disse, em tom condoído:

Aí está uma que eu poderia aliviar. E o garotinho me poderia também dar alívio. Olhe, não sou rica, já que deixo a minha casa, a minha gente, e o meu caçulinha querido para empregar-me; mas daria de boa vontade cinco francos para segurar essa criancinha durante dez minutos e dar-lhe o seio. Isso o acalmaria e a mim também Acho que eu me sentiria renascer.

Calou-se mais uma vez. Depois, passou várias vezes a mão ardente na testa, onde escorria o suor. E gemeu:

Não aguento mais. Acho que vou morrer.

E, com gesto inconsciente, abriu completamente o vestido. O seio, da direita apareceu, enorme, erguido, com o seu morango escuro E a pobre mulher choramingava:

Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! Que vou fazer?!

O trem recomeçou a andar e continuou seu caminho no meio das flores, que exalavam o seu hálito penetrante das tardes mornas. Por vezes, um barco de pesca parecia adormecido no mar azul com a sua vela branca imóvel, que se refletia na água, como se outro barco se encontrasse de cabeça para baixo.

O rapaz, perturbado, balbuciou:

Mas, minha senhora… Eu poderia… Eu poderia aliviá-la.

Ela respondeu, a voz partida:

Sim, se quiser O senhor me prestaria um serviço enorme. Não aguento mais, não suporto mais.

Ele se pôs de joelhos e ela se debruçou, levando-lhe a boca, em gesto de ama-seca, à ponta escura do seio. Com o movimento que fez, segurando-o com ambas as mãos para entregá-lo ao rapaz, uma gota de leite apareceu-lhe no bico. Ele bebeu-a avidamente, tomando, como a um fruto, o pesado seio entre os lábios.

Passou os braços em volta da cintura da mulher, que apertava a fim de aproximá-la de si; e bebia a lentos goles com um movimento de pescoço parecido com o das crianças.

De repente, ela disse:

Este já chega; agora, vamos ao outro.

E ele tomou o outro, com docilidade. Ela colocara as duas mãos nas costas do rapaz, e respirava agora com força, com felicidade, saboreando os hálitos das flores misturados aos sopros de ar que o movimento do trem jogava para dentro dos vagões. E disse:

Que cheiro bom, por aqui!

Ele não respondeu, bebendo sempre nessa fonte de carne, e cerrando os olhos como para apreciar melhor. Porém, ela afastou-o docemente.

Chega. Sinto-me melhor. Isso me fez voltar a alma ao corpo.

Ele se levantara, enxugando a boca nas costas da mão. Ela disse-lhe, fazendo entrar novamente no vestido os dois potes vivos que lhe inchavam o peito:

— O senhor me prestou um grande serviço. Muito obrigada.

E ele respondeu, em tom reconhecido:

Sou eu que lhe devo agradecer, minha senhora: há dois dias que não comia coisa alguma!


Fonte: “Fon Fon”, edição de 7 de novembro de 1953.

 

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