A ESPERA - Conto - Guy de Maupassant

A ESPERA

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

Tradução de autor anônimo do séc. XX


Na sala de fumar, conversavam, depois do jantar, alguns senhores.

Falava-se de heranças inesperadas e bizarras. Então, o Sr. Le Brument, que chamavam “ilustre mestre, ilustre advogado”, veio para perto da lareira.

Eu tenho, neste momento, a incumbência de procurar um herdeiro desaparecido em circunstâncias particularmente terríveis. É um desses dramas simples e ferozes da vida comum; uma coisa que pode suceder em cada dia, e que, no entanto, é um dos mais horríveis casos que conheço. Ei-lo:

Há mais ou menos seis meses, fui chamado para ouvir uma senhora moribunda, que me disse:

‘—Senhor, eu queria encarregá-lo da missão mais delicada, difícil e longa que se pode imaginar. Tome, primeiramente, conhecimento do meu testamento, que está sobre aquela mesa. Uma soma de cinco mil francos lhe é legada, como honorários, se o senhor não for bem sucedido, e de cem mil francos se o for. É preciso achar meu filho depois de minha morte.’

Ela me pediu que a ajudasse a sentar-se na cama, para falar mais facilmente, pois a sua voz, entrecortada, custava a passar pela garganta, já apertada pela morte. A casa era de aspecto muito rico, o quarto luxuosamente mobiliado, dum luxo simples, todo acolchoado com tecidos espessos como paredes, tão doces ao olhar que davam a sensação de carícias, tão mudas que as palavras pareciam ali penetrar e desaparecer e morrer. A agonizante continuou:

‘—O senhor é a primeira criatura a quem conto a minha horrível história. Esforçar-me-ei para ter forças e chegar ao fim. É preciso que não ignore nada, para que o senhor, que eu sei ser um homem de sociedade e um homem de bem, se interesse sinceramente e me ajude com todo o seu prestigio.

Escute-me. "

Antes do meu casamento, eu amei um rapaz que a minha família repeliu, por não ser bastante rico. Pouco tempo depois, eu casei com um homem riquíssimo. Desposei-o por ignorância, por medo, por obediência, por falta de coragem, como geralmente casam todas as moças.

Tive um filho. Meu marido morreu ao cabo de alguns anos.

O rapaz que eu amara casara-se também. Quando ele me viu viúva, sofreu uma dor imensa, por não ser livre. Veio ver-me, chorou, soluçou diante de mim e eu senti o coração partido, assistindo àquela dor sincera. Tornamo-nos amigos. Eu devera, talvez, não o receber. Mas, que quer? Estava tão só, tão triste, tão desesperada! Demais, amava-o ainda. Como se sofre às vezes!… Eu só o tinha a ele no mundo, meus pais haviam morrido também.

Ele vinha sempre, passava as tardes inteiras perto de mim. Não era direito, porque era casado, eu devia ter evitado, mas não tinha forças para impedi-lo. Que lhe direi? Tornamo-nos amantes! Como foi? Eu nem o sei. Pensa o senhor que possa ser de outra maneira, quando duas pessoas se amam e são impelidas, uma para a outra, por essa força irresistível do amor recíproco? Crê, senhor, que se possa sempre resistir, sempre recusar aquilo que pede entre súplicas, lágrimas e palavras loucas e caridosas o homem que se adora, que se quereria ver feliz, que se gostaria de cumular de todos os prazeres, e que se desespera para obedecer aos preconceitos da sociedade? Que força seria preciso, que renuncia à felicidade, que abnegação e, mesmo, que egoísmo de honestidade, não acha?

Enfim, senhor, fui amante do meu ex-namorado e fui feliz. Durante doze anos, fui feliz ! Fiz-me (essa foi a minha infâmia) amiga íntima da esposa dele. Nós criávamos juntas o meu filho, fazíamos dele um homem completo, inteligente, cheio de senso e de vontade, de ideias generosas e largas. O menino completou 17 anos.

Meu filho gostava do meu amante quase tanto quanto eu mesma, pois fora igualmente amado e mimado por nós ambos. Chamava-o ‘bom amigo’ e respeitava-o infinitamente, não tendo jamais recebido dele senão ensinamentos e exemplos de honra, de probidade e de sabedoria. Considerava-o como um leal e devotado amigo de sua mãe, como um tutor, um pai moral, um protetor, que sei?…

Talvez de nada tivesse desconfiado, por ver esse homem sempre perto de mim, desde a sua mais tenra idade, ocupando-se de nós com desvelo e carinho.

Uma noite, nós devíamos jantar os três juntos (eram essas as minhas melhores festas) e eu os esperava, perguntando a mim mesma qual dos dois chegaria primeiro. A porta se abriu e foi o meu velho amigo que entrou. Corri para ele com os braços abertos e ele me deu um longo beijo de felicidade na boca. Nisso, um barulho, um sussurro, qualquer coisa, apenas, que nos indicava a presença de alguém, fez-nos estremecer e voltarmo-nos rapidamente. Jean, o meu filho, ali estava, de pé, livido, nos olhando.

Foi um atroz segundo de perturbação. Recuei, estendendo as mãos para meu filho, como que a suplicar. Não o vi mais. Partira.

Ficamos, face a face, aterrados, sem coragem de falar. Caí aniquilada sobre uma poltrona e tinha desejo, mas um desejo confuso e forte, de fugir, de sair pela escuridão da noite, de desaparecer para sempre. Depois, os soluços convulsivos me encheram a garganta, e chorei, sacudida entre espasmos, com a alma despedaçada, todos os nervos tensos por essa sensação duma irremediável desgraça, e por uma vergonha insuportável, que se derrama no coração de qualquer mãe em momentos tais.

Ele… ficou diante de mim, desconcertado, sem ousar se aproximar, sem falar, nem tocar em mim, com medo que o menino voltasse. Enfim, disse:

‘—Eu vou buscá-lo… dizer-lhe… fazê-lo compreender… Enfim, é preciso que o veja… que lhe fale… Que ele saiba…

E saiu.

Esperei-o… Esperei-o como louca, tremendo aos menores ruídos, aterrorizada, não sei por que emoção, quando a lenha estalava na lareira. Esperei uma hora, duas, sentindo crescer em meu coração um pavor desconhecido, uma agonia tal que não desejo, ao maior dos criminosos, uns instantes semelhantes. Onde estaria meu filho? Que faria ele? Cerca de meia-noite, um carregador me trouxe um bilhete de meu amante. Ainda o sei de cor:

‘—Teu filho voltou? Não o encontrei em parte alguma. Estou cá em baixo. Não quero subir a esta hora tardia.

Respondi, a lápis, no mesmo papel:

João não voltou; é preciso que o encontres.

E passei toda a noite na cadeira, esperando.

Enlouquecia. Tinha ânsia de urrar, de correr, de rolar pelo chão. E não fazia um movimento, sempre esperando. Que aconteceria? Eu procurava adivinhar, mas, apesar dos meus esforços, das torturas de minha alma, não previa nada…

Tinha medo, agora, que eles se encontrassem. Que fariam, se tal sucedesse? Dúvidas dolorosas e horríveis me abalavam…

O senhor compreende bem isto, não? A minha criada de quarto, que não sabia de nada, vinha, sem cessar, para perto de mim, que, naturalmente, ela julgava louca. Por fim, mandei-a embora com um gesto. Ela voltou com o médico e ele me achou em plena crise de nervos.

Puseram-me na cama, tive uma febre cerebral violenta. Quando voltei a mim, depois de longa moléstia, vi perto da cama meu amante, só. Gritei:

‘—Meu filho?! Onde está meu filho?

Ele não respondeu.

Balbuciei:

‘—Morto… Morto… Matou-se?

Respondeu-me:

‘—Não, não, juro-te. Mas não o encontramos, apesar dos meus esforços.

Então, disse, exasperada, indignada mesmo, pois temos dessas cóleras inexplicáveis e desarrazoadas:

‘— Proíbo-te de voltar, de rever-me, se não o encontrares; vai-te!

Ele saiu.

Nunca mais revi nem um nem outro, senhor, e assim vivo há vinte anos. Compreende este suplício monstruoso, este lento e constante despedaçamento do meu coração de mãe, do meu coração de mulher, esta espera abominável e sem fim... sem fim?... Não, ela vai acabar... porque morro. Morro sem os haver visto um momento!

Meu amante escreve-me todos os dias, há vinte anos; e eu, nunca mais o quis receber, um segundo que fosse, porque me parecia que, se ele viesse cá, seria nesse momento, precisamente, que meu filho apareceria. Meu filho! Meu filho! Estará morto? Estará vivo? Onde se esconde? Talvez lá onde ter minam os verdes mares, em algum país tão distante que eu nem lhe sei o nome! Pensa ele em mim? Oh, se ele soubesse!... Como os filhos são cruéis! Teria ele compreendido a que medonho sofrimento me condenou? Em que desespero, em que tortura me arrojou, viva e moça ainda, por toda a vida, até o fim dos meus dias, eu, sua mãe, que o amava com toda a violência do meu amor? Não é cruel? Diga.

O senhor lhe dirá tudo isto, lhe repetirá as minhas últimas palavras:

Meu filho, meu querido filho, sê menos duro para as pobres criaturas. A vida já é por si bastante brutal e feroz! Meu querido filho, pensa o que foi a existência de tua mãe, de tua pobre mãe, desde o dia em que te afastaste dela. Meu querido filho, perdoa-a e ama-a, agora que ela está morta, pois ela suportou a mais horrível das penitências.

Ela arquejava, trêmula, como se falasse ao filho. Depois, acrescentou:

O senhor lhe dirá também que nunca mais revi o outro…

Calou-se e recomeçou, com voz apagada:

Deixe-me agora, peço-lhe, quero morrer sozinha, já que eles não estão perto de mim.’ “

O Dr. Brument disse ainda:

E eu saí chorando, meus amigos, como um louco, tão escandalosamente, que o meu cocheiro voltava-se para olhar-me. E dizer-se que, diariamente, se passam muitos dramas como esse em volta de nós!... Eu não achei o filho... Esse filho... Pensem o que quiserem; eu digo: esse filho criminoso... 


Fonte: “Fon Fon”/RJ, edição de janeiro de 1923.

 

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