AS TRÊS GALINHAS - Conto da Corochinha - João do Rio

AS TRÊS GALINHAS

João do Rio

(1881 – 1921)



Era uma vez uma velha que tinha três galinhas: — uma branca, outra amarela e outra preta.

De manhã, quando elas saíram para mariscar, a branca ia na frente, a amarela em seguida e a preta por último.

Não eram lá muito amigas uma das outras: a branca torcia às vezes o nariz para a amarela e as duas não queriam saber da preta.

Esta vivia sempre retirada, mariscando sozinha, enquanto as outras duas, embora não tivessem simpatias mútuas, andavam juntinhas, zombando e rindo da companheira. A amarela tinha muito orgulho da amizade da branca e, como às vezes recebia as honras da sua intimidade, era a primeira a fazer pouco caso da preta.

A pobrezinha andava abandonada. Não podia soltar um pio, um cacarejo, um canto, que as duas não protestassem:

Não incomode os outros. Você não pode estar calada!

Aos domingos, quando elas se vestiam para passear no campo, a preta ia atrás, tristonhamente, de cabeça baixa como uma escrava, e as outras, para amesquinhá-la mais, atiravam-lhe areia no singelo vestido cor de noite. Arriscava-se ainda a abrir a boca e estender as mãos implorando, mas as duas avançavam-lhe em cima e gritavam-lhe na cara:

Bico calado! Nem um Pio! Você não tem direito a coisa alguma!

E faziam-na de criada. A branca sentava-se à sombra de uma árvore e gritava:

Galinha preta, estou com sede, quero água.

E a infeliz descia ao rio e trazia o copo cheio.

A amarela fazia o mesmo:

Galinha preta, quero água.

A preta ainda tentava resistir, mas a branca arregalava-lhe os olhos em cima, ordenando:

Você não está ouvindo a galinha amarela pedir água?

Quando foi um dia, a preta, estando a mariscar junto das ruínas de um palácio, bateu com o bico numa coisa metálica, que fez um som claríssimo de moeda. Ela saltou para trás e deu um grito. As outras duas ouviram o grito e o som e correram para perto. Era um tesouro que estava enterrado. Logo, entre as três galinhas houve uma intimidade súbita, como se elas fossem camaradas de muito tempo.

Nem se lembraram mais que a preta era preta. A amarela correu a buscar enxada em casa para se cavar o tesouro, e a branca, enquanto se esperava a enxada, andou a passear com a mão na cintura da preta.

E, quando a amarela chegou, foi a branca mesmo quem quis cavar a terra.

Não se incomode, galinha preta. Eu até gosto deste serviço.

Meia hora depois, o tesouro fulgiu. Era ouro como que ouro em barra, ouro em joias. Foi uma alegria. A preta gritou que iria levar toda a fortuna à velha sua dona. A galinha branca chamou a amarela à parte:

Vamos tomar todo o tesouro da preta. Ela vai levar tudo àquela velha e ficamos sem coisa alguma. Está dito?

Está dito!

A branca chegou-se e falou alto:

Galinha preta, você nunca teve direito a coisa alguma, por isso o tesouro é nosso.

A pobrezinha sentiu uma palpitação no seio, ajoelhou-se, ergueu a mão e implorou chorando.

Não tem direito, repetiram as duas.

E avançaram-lhe em cima, deram-lhe bicadas, afugentando-a para longe. E ficaram senhoras do tesouro.

A branca amava o luxo e combinou com a amarela que comprasse um palácio muito bonito, com torres e cúpulas, de varandas floridas e cortinados de ramos. Nunca mais voltariam à casa da velha dona delas; tinham dinheiro e não se iam sujeitar a ter senhora.

Foi dito e feito. À tarde já tinham comprado o palácio. À hora do pôr do sol estavam as duas na janela, muito orgulhosas nos seus roupões de seda cara, quando a galinha preta passou, de cabeça baixa, abatida, em caminho do galinheiro de sua dona.

A amarela, por picardia, chamou-a:

Se você quer dormir na cozinha, fique; não se dê ao trabalho de ir para a casa daquela velha.

Ela agradeceu humildemente e seguiu o seu caminho.

A velha patroa das galinhas tinha um cuidado delas como se fossem suas filhas. No galinheiro não havia fera que entrasse.

A guerra entre o reino das galinhas e o reino das raposas já se havia declarado, desde o dia em que a rainha das galinhas se casou com o galo, depois de ter contratado casamento com o rei das raposas.

E nessa noite andava pela mata uma raposa faminta. Chegou-se ao terreiro da velha e foi até ao galinheiro. A porta estava fechada a sete chaves.

Qual, não há quem coma as criações deste forte.

E nem procurou forçar a fechadura. Deu meia volta e foi seguindo o seu caminho.

Mais adiante viu luzes no meio do campo.

Olé, gente nova por aqui!

Eram as janelas, as varandas floridas do palácio das galinhas branca e amarela que estavam iluminadas.

A raposa estendeu o pescoço e farejou.

O vento que nesse momento soprava trouxe-lhe um cheiro inimigo.

Bravos! Temos comida na certa.

E seguiu. No palácio estava tudo em silêncio; as galinhas dormiam. A porta estava fechada. Era uma portazinha de ouro fino, muito elegante, muito bonita, mas muito fraca.

A raposa não teve trabalho em abri-la. Bastou um empurrão para que ela cedesse. E entrou pela escadaria acima.

Num salão, deitadas em camas de preço, lá estavam as duas galinhas, dormindo.

Olé, que pratinho gostoso e fino!

A galinha branca fez um movimento de quem vai acordar, coçou os olhos com a mão e tornou a embrulhar-se nos lençóis de linho. A amarela nem se mexeu, dormia que era um gosto.

Olé, como elas dormem…


*


No outro dia, quando a galinha preta veio mariscar, encontrou o rico palácio derrubado, o rastro da raposa e os ossos das companheiras no chão e uma porção de penas por aqui e por ali.

Olhou tudo e ainda teve uma lágrima de tristeza a ensopar-lhe os olhos.


Fonte: “Gazeta de Notícias”/RJ, edição de 13 de outubro de 1935.

Ilustração: PS/yeri.ai.


 

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