O SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA - Crônica - Paulo Soriano
O
SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA
Paulo
Soriano
Inteligente,
sagaz e profundamente humano, o professor Arlindo reservava o seu rigor à
avaliação das provas. Parecia que, naqueles momentos tenebrosos, que nos
enchiam de angústia — de quase terror —, Arlindo despia-se da indumentária de
mestre afável e punha sobre a face o capuz de um algoz empedernido.
—
Hoje é dia de cadafalso — dizíamos, quando chegava o dia de prova.
E
veio a última avaliação do ano. Com um estremecimento atroz, soubemos, pelos
lábios do mestre, que o exame seria oral. Duas únicas perguntas. Ou dez, ou
cinco, ou zero. Este era o prognóstico.
Chegou
a minha vez.
Respondi
à primeira pergunta — que me parecera fácil — com tranquilidade. Veio a
segunda:
—
Qual o nome que se dá ao fenômeno consistente no súbito esquecimento de uma
palavra que bem conhecemos?
A
resposta era fácil. Facílima. Abri a boca para responder, mas…
—
Está na ponta da língua, Soriano? — insistiu o mestre, com um sorrisinho —
talvez irônico, talvez estimulante — no canto dos lábios.
Estava,
sim, na pontinha da língua. Eu bem conhecia aquela palavra, mas… Tão fácil, e
tão distante… Não, não era possível que eu tivesse esquecido a palavra que
tanto me esforçara em decorar, em não me
esquecer!
—
Não vai me dizer que não sabe que o termo é “letologia”, vai?
Meu
Deus! Aquilo era verdade? Aquilo era mesmo verdade? O mestre deixara escapar
dos lábios, sem que — pensava eu — o percebesse, a resposta ao quesito que
formulara? Aquilo era um sonho? Um sonho maravilhoso?
Fingi
que pensava profundamente. Depois, respondi, deveras satisfeito:
—
Letologia, mestre Arlindo!
—
Perfeito. Nota dez!
E
chamou a próxima vítima… Coitada dela…
Até
hoje não sei se o mestre Arlindo incorreu em grave erro ou se, inusitadamente,
poupou-me de uma humilhante reprovação. Sei apenas que a circunstância de
trair-se involuntariamente tem um nome. Mas qual será mesmo o nome? Está na
ponta da língua… Está, sim!… Sem dúvida, mais tarde, inesperadamente, o nome me
aparecerá e me sorrirá, no canto dos lábios, talvez séria, talvez jocosamente,
como me faria o mestre Arlindo…
Crônica originariamente publicada na “Folha de Ponte Nova”/MG, edição de 15 de maio de 2026.

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