O ENFORCADO - Conto - J.-H. Rosny
O
ENFORCADO
J.-H.
Rosny
[Joseph-Henri-Honoré
Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)]
—
Eu vegetava então — diz o professor Charlier — em uma obscura aldeia de
Saint-Tonge. O governo pagava-me mil e cem francos por ano para ensinar a ler e
a escrever uns quarenta rapazinhos. Não tendo para me empurrar para adiante
nenhum personagem dotado do simbólico braço comprido, não via outro bastão de
marechal além de um lugar de mil e oitocentos francos, seguido de uma minúscula
remuneração. Era novo; a natureza tinha-me feito otimista; pairava no mundo das
ilusões.
As
minhas infelicidades principiaram no dia em que caí enamorado da garota
Lucette, a filha de Saboreaux, maire[1]
da aldeia, proprietário de cinquenta hectares de terras, senhor de sete vacas,
cinco bois, três cavalos, um rebanho de carneiros, uma vara de porcos grandes e
pequenos, sem contar com uma boa reserva de dinheiro em metal sonante. Ele
apreciava o seu valor e não o deixava ignorar a ninguém.
Pela
sua maneira de escarrar no chão, via-se logo que era um personagem poderoso e
temível. Para um pobre-diabo de professor de casaco rapado e luzidio, não podia
haver maior loucura do que a de amar Lucette. Mas, como diz o outro, o amor é
filho da boêmia, e Lucette ostentava pela herdade e pelas estradas um exemplar
de luxo da raça humana. Era encadernada em polpa de lilás branco, a boca
fechada, era uma flama de papoula; aberta, via-se rir um crescente nacarado
entre duas nuvens cor de cereja. Pirilampos azuis pareciam palpitar no fundo
das lanterninhas de seus olhos. Foi um desastre. Amava-a a ponto de não o poder
dissimular aos rudes olhares dos rústicos. O pai Saboreaux, quando me
encontrava no caminho, enviava no espaço um grande jato de saliva e soltava uma
gargalhada sarcástica, um riso de pirata e de rei negro.
*
Ora,
um domingo, meti-me a caminho sempre a direito, levado pelo desespero, e fui
dar comigo na floresta das Espinetes, a dez ou doze quilômetros da aldeia.
Rugia como um tigre, devorado pelo mau humor, aniquilado pela minha miséria. Ia
sentar-me sobre um banco do relvado, quando descobri um homem a balouçar-se
suspenso do tronco de um carvalho.
Um
nó corredio apertava-lhe o pescoço; a língua passava-lhe entre os lábios; os
seus olhos exorbitados pareciam enormes; a face tinha uma cor violeta que
tirava a preto; era, em suma, um enforcado, provavelmente um suicida e, depois
de um sobressalto de espanto, disse comigo:
—A
sorte dele vale mais que a minha! Não sofrerá mais.
O
meu instinto não respondia a estas palavras. Pus-me automaticamente a
despendurar o enforcado. O carvalho, pela sua inclinação e grandes nós, tornava
a ascensão fácil; além disto, tendo passado uma parte da minha infância pelos
bosques, eu trepava bem. Tive, no entanto, muito trabalho para trazer o homem
para baixo. Depois que o estendi no chão, prestei-lhe os cuidados necessários.
Sabia como me haver, tendo esmiuçado a questão no tratado do Dr. Jusserand,
tratado preciso e substancial, onde era esboçada a teoria das trações rítmicas.
O
meu homem ainda estava quente. Todavia, os meus esforços deixaram-no, a
princípio, insensível e eu desesperava já, quando, enfim, começou a dar sinais
de vida. Meia hora depois, tinha recuperado os sentidos e agradecia-me:
—
Compreendi a minha tolice — acrescentou ele — no momento em que senti a corda
apertar-me o gasnete.
Contou-me
rapidamente a causa do seu suicídio. Marchante em P…, tinha feito maus negócios
e, desesperado pela ruína, viera enforcar-se na floresta.
—Foi
uma ideia estúpida! — concluiu ele. — Se alguma vez o senhor tiver um desgosto
grande, não faça o que eu fiz! Porém, o senhor é o meu salvador. Devo mostrá-lo
aos meus amigos.
Estava
um pouco fraco ainda, mas, apoiando-se no meu braço, venceu o caminho até P...
Chegamos, com efeito, no fim de uma hora de marcha, e desembocamos no largo do
mercado, justamente no momento em que terminava a inauguração da estátua de
Jacques Vemouthiers, o poeta do século XIII. A multidão dispersava; um grupo,
sete homens cheios de insígnias, conservava-se ainda no estrado.
A
nossa chegada não passou despercebida, porque meu companheiro se pôs a gritar:
—
Senhor ministro, senhor maire! Aqui está um homem que me salvou a vida.
Estava enforcado e já morto. Ele me ressuscitou.
Empurrava-me
para o grupo dos homens das insígnias. Vi-me diante de um personagem sal e
mostarda, que perguntou bruscamente ao marchante:
—Por
que se tinha enforcado?
—Por
desespero, Sr. ministro, visto que perdi toda a minha fortuna. Por isto, corri
para a floresta e botei a corda no pescoço… Este senhor vai passando, sobe à
árvore, despendura-me, traz-me para baixo e sopra-me para dentro. É o que se
pode chamar um grande salvador! E uma vez que há medalhas para premiar estes
atos, a quem melhor do que a este homem poderão ser conferidas?
O
homem sal e mostarda tinha-se a pouco e pouco voltado para mim e, observando-me
com atenção, perguntou-me, com rude bonomia:
—
Quem é e o que faz?
—
Chamo-me Pierre Charlier — disse eu — e sou professor em Croix-du-Montoir…
—Bom!
E onde aprendeu a tratar dos asfixiados?
—No
tratado do Dr. Jusserand — respondi.
Alguma
coisa de radiante, não sei que vaidade quase ingênua, iluminou o rosto do meu
interlocutor:
—Oh!
— exclamou ele. — O senhor lê o Dr.
Jusserand!
Depois,
pôs-se a rir:
—Mas,
meu rapaz, o Dr. Jusserand, ministro da instrução pública e das belas-artes,
sou eu… O senhor pode gabar-se de que é um felizardo... Será altamente
recompensada a sua coragem. Terá uma medalha de salvação. Também há de ter as
palmas, porque um professor de Croix-du-Montoir, que conhece a arte de tratar
os asfixiados, segundo os melhores métodos, não é um homem vulgar. Deixe estar,
não perderei de vista o seu adiantamento... Não há de ficar eternamente no seu
lugar, meu rapaz.
Deu-me
uma palmada sobre o ombro e mandou tomar o meu nome por um sujeito que o
acompanhava.
*
Quando
voltei, ao cair da tarde, para Croix-du-Monloir, a populaça precipitou-se para
me ver chegar. Um dos primeiros que se apresentaram diante de mim foi
Saboreaux, acompanhado de Lucette. A beirou-se, atirando o jato de saliva pelo
qual debutava sempre a sua conversação; mas, desta vez, era um jato amável, um
jatozinho cheio de benevolência e quase de amizade. Depois, exclamou:
—
Bem, meu velho Charlier, parece que você vai ter uma medalha, vai ser
condecorado… Isso é uma honra para todos nós. Convido-o para vir beber um
copázio à nossa casa… e do velho!
Agarrou
me pelo braço e empurrou-me para a sua herdade, gritando:
—Rapaziada,
este rapaz promete ir longe… Toca a tirar os chapéus…
Na
grande sala da herdade instalou-me me no meio dos influentes do lugar e
desarrolhou garrafa por garrafa. Depois, chamou Lucette e declarou:
—Esta
manhã ainda, meu rapaz, não tinhas considerações nem nada. Mas agora à tarde és
outro homem. Podes namorar a pequena… Fica sabendo, se a medalha não vier, nada
feito. Eu só conheço duas coisas: as honrarias e o dinheiro… E também os bons
lugares, porque não deixas de apanhar um emprego.
Tive
as palmas, a medalha, o emprego e Lucette. Prossegui nos meus estudos, cheguei
ao curso superior, recebi a condecoração, cujo diploma meu sogro ainda ostenta
em todas as feiras da sua terra.
Quanto
à moral da minha história, convém confessar que é um pouco imprecisa. Prova que
é bom salvar os enforcados, ou, antes, não vem corroborar a reputação brilhante
de que a corda dos enforcados sempre foi espécie de condão, desde os tempos
remotos?
Fonte:
“A República”/PR, edição de 23 de novembro de 1907.
Nota:

Comentários
Postar um comentário