PARÁBOLA DA TERRA JUSTA - Fábula - Máximo Gorki
PARÁBOLA DA
TERRA JUSTA
Máximo Gorki
(1868 – 1936)
Tradução de
autor anônimo do séc. XX
Houve
um homem que só vivia por que se apegara à crença de que, em qualquer parte do
globo, existia um país justo. E, por mais desgraçado que fosse, fossem quais
fossem os sofrimentos que padecesse, ele tudo suportava evangelicamente em nome
de sua fé.
—
Esperarei — dizia ele. — Quando tiver acabado de sofrer o meu bocado, acharei a
terra justa.
Uma
convicção profunda da existência desse país, e da possibilidade de lá ir um dia,
o sustentava.
Certo
dia, porém, à cidade por ele habitada chegou um sábio trazendo consigo muitos
livros e muitos mapas; e o nosso homem de crença robusta na terra justa
foi a ele e lhe pediu que procurasse em seus mapas o país em questão,
indicando-lhe também o caminho que lá ia ter.
O
sábio desenrolou os seus mapas e pôs-se a procurar. Procurou uma, duas,
repetidas vezes. Procurou com afinco e não o achou. Todos os países estavam
assinalados, exceto o justo.
O sábio diz ao homem de vasta e forte fé no país
justo:
—Tal
país não existe!
—
É impossível, mestre! Procura melhor.
E
o sábio pôs-se de novo a procurar, mas em vão o fez; não o achou.
—Não
existe, positivamente —disse de novo.
—
Por Deus! Deve existir! — exclama o crente. Para que servem, então, tua ciência,
teus mapas, teus livros, se tu não podes achar o país justo? Por certo ele
existe e tu o não conheces.
O
sábio se recusou, porém, a procurar mais vezes. Seus mapas não mencionavam
absolutamente esse país.
Então
aquele homem, que sofrera a vida toda em silêncio, e que se resignara a todos
os tormentos em nome de sua fé na terra justa, interroga ainda o sábio uma
vez, duas, e ao fim da terceira o deixa para se ir enforcar.
Fonte:
“Leitura para Todos”/RJ, edição de fevereiro de 1926.
Fizeram-se
breves adaptações textuais.

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