O REMENDÃO QUE FOI REI - Crônica - Autor anônimo do séc. XX
O
REMENDÃO QUE FOI REI
Autor
anônimo do séc. XX
No começo do século XV, nos tempos
de Filipe, o Bom[1],
filho de João Sem Medo e duque de Borgonha, deu-se um caso que lembra um conto
de fadas.
Uma noite, o duque, que ia a
Bourges, encontrou um sapateiro remendão, que dormia profundamente à beira da
estrada.
Desejando divertir-se à custa do
infeliz, mandou que os seus criados o levassem, assim adormecido, para o paço,
o despissem dos andrajos que levava e o colocassem vestido com riquíssimo traje
de noite no seu próprio leito.
Quando o pobre homem acordou na
manhã seguinte e se viu rodeado de pajens e escudeiros, julgou ter
enlouquecido. Em vão, jurou que não era o duque. A criadagem, porém, tratando-o
como tal, perguntou-lhe que roupas desejava vestir nesse dia, e, por fim, foi
levado com grande pompa e magnificamente ataviado, a ouvir missa na capela
ducal. Todo o cerimonial correspondente a tão alta personagem foi observado
rigorosamente. O sapateiro deu audiência sentado no trono e foi tratado em toda
parte e por toda gente com o mais profundo respeito. A sua breve soberania
terminou com uma ceia opípara e um baile.
Mal se meteu na cama, o sapateiro,
cansado das fadigas de uma vida a que não estava habituado, e com a cabeça
cheia de vapores do vinho que bebera na ceia, caiu num sono ferrado.
Aproveitando-lhe o sono e a
bebedeira, os criados, cumprindo sempre as ordens do duque, tornaram a
vestir-lhe os andrajos e foram deitá-lo no mesmo lugar onde o haviam
encontrado.
Diz-se que quando voltou à casa, o
sapateiro contou tudo à mulher como se fosse um sonho, e como sonho o teve toda
a vida.[2]
Fonte: “Almanaque Eu Sei Tudo”/RJ, edição de 1941.
Ilustração:
Chester Loomis (1852 – 1924).
Notas:
[1]Filipe III de
Borgonha (1396 – 1467), príncipe Francês.
[2]Este evento,
tido por verídico, no qual um homem pobre é induzido a crer que é um nobre, é
deveras similar à abertura de “A Megera Domada”, de William Shakespeare (1564 –
1616); nesta, um funileiro (Christopher Sly), pobre e bêbado, é lavado, em
iguais circunstâncias, a crer-se nobre.

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