OS PODERES DO OURO - Conto - Francisco Rodrigues Lobo

OS PODERES DO OURO

Francisco Rodrigues Lobo

(1580 - 1622)

  

Houve em Itália, e em um dos mais conhecidos lugares dela, um honrado pai de famílias, nobilíssimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus passados, dotado de muitas partes e graças naturais, e tão liberal do que possuía, que mais parecia despenseiro das riquezas que carcereiro delas.

Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e esperto nos negócios da mercancia, que ajuntou em poucos anos grande cópia de dinheiro, o qual ele guardava com tão solícito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram, e era notável espanto aos naturais verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo, e em o filho a avareza e tenacidade de velho.

O pai, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a idade e continuação de gastar largo estava menos rico, muitas vezes lhe dizia, e aconselhava com brandura, que conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados, e não degenerasse deles por seguir a vileza do interesse. Que usasse das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o criara, e honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos e parentes, benigno aos pobres, e se não cativasse ao trabalho de entesourar riquezas sem fruto. Mas como falar a um morto e aconselhar a um avarento é cuidado vão, nenhum efeito faziam os paternos rogos em sua má natureza.

Sucedeu que o senado daquela República, pela nobreza e pessoa do mancebo, e pela indústria e sagacidade que mostrava, o elegeu, em companhia de outros, para ir com uma embaixada a Roma ao Sumo Pontífice.

Depois de sua partida, vendo o pai ocasião ao que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas, com que entrou na câmara do filho, e abriu os cofres em que aquele inútil tesouro estava depositado, e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente, deu libré a seus criados, comprou ricas armações e baixelas, encheu a estrebaria de cavalos fermosos, acudiu em ocasiões a parentes e amigos necessitados; despendeu, enfim, aquela prata e ouro que o filho com muitas vigílias ajuntava, da maneira em que ele, quando florescia em riquezas, usava delas.

Gastado o dinheiro, encheu os sacos, em que antes estava, de muitos seixos e areia, e, posto tudo na mesma ordem em que o filho o deixara, tornou a fechar os cofres e as caixas como de antes.

Tornou depois o filho da sua embaixada, e os pequenos irmãos o foram esperar à entrada da cidade vestidos custosamente, e com o magnífico aparato de que então usavam.

Vendo-se o irmão rodeado deles, ficou confuso e enleado; lhes perguntou logo donde houveram tão ricos vestidos e fermosos cavalos. Ao que eles, com uma simplicidade inocente responderam que seu pai e senhor vivia com diferente largueza da que antes tinha, e que outros trajos e cavalos de maior preço lhe ficavam.

Entrando depois em casa de seu pai, nem a ele conhecia, pelo diferente estado em que o deixara, e, como nesta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde tinha posto o seu tesouro, entrou na sua câmara, abriu os cofres, e. vendo que os deixara, se quietou, porque não dava lugar à mais vagarosa experiência a pressa com que os companheiros o chamavam e o senado o esperava.

Depois que deu fim àquela obrigação, que a ele lhe não pareceu que fosse tão custosa, fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os sacos em que lhe parecia que estava a sua bem-aventurança, e vendo o engano da areia e seixos, que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e brados, a que, primeiro que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe que tinha, de que se queixava e quem o ofendera.

— Ai de mim — disse ele —, que me roubaram as riquezas que com tantos trabalhos e com tão largo decurso de anos tinha granjeadas.

— Como é possível que te roubaram —respondeu dele —, se eu vejo esses cofres e sacos cheios, que parece que não podiam tirar nada deles, nem eles levarem mais?

— Ai, triste de mim — tornou o filho —, que o de que eles estão cheios não é do ouro e prata com que os deixei, que não tem agora mais que pedras e areia sem proveito.

A isto respondeu o generoso pai, sem no rosto fazer mudança:

— Ah, enganado filho, que importava para que estes sacos estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te não deixava fazer nas obras diferença dela?

Cessaram os brados, mas não já o sentimento do filho com esta resposta, que a mim me pareceu digna de ser contada entre as mais célebres do mundo.

 

Fonte: “Corte na Aldeia”; apud Teófilo Braga, “Contos Tradicionaes do Povo Portuguez”.

 

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