OS QUATRO RIBALDOS - Conto - Frei Hermenegildo de Tancos
OS QUATRO
RIBALDOS
Frei
Hermenegildo de Tancos
(Séc. XIV)
Um
rústico aldeão matou um carneiro e esfolou-o, e levava-o às costas para vender
em o mercado.
E
falaram-se quatro ribaldos[1]
que estivessem em quatro lugares na carreira[2]
per onde havia de ir aquele aldeão, e que cada um lhe dissesse, de si, que
aquele carneiro era cão, por tal que o deitasse de si[3]
, e que o houvessem[4]
eles.
E
quando o aldeão passou por onde estava o primeiro ribaldo, disse-lhe:
–
Pera que levais assim esse cão?
Respondeu
o aldeão:
– Irmão, não sabeis o que dizes, ca[5] certamente carneiro é, e não cão.
E
o ribaldo aperfiou[6]
com ele que era cão.
E
assim o fizeram os outros três ribaldos.
E
o aldeão, vendo isto, disse antre si[7]:
–
Eu cuidava que isto era carneiro; mas, pois, todos dizem que é cão, não hei
que
faça dele[8].
E
lançou o carneiro em terra e foi-se.
E
os ribaldos tomaram-no.
E
bem assim comunalmente todo o mundo fala mentirosamente.
Atualização
ortográfica: Paulo Soriano.
Texto medievo (com ortografia
original, apud “Contos Tradicionaes do Povo Portuguez”, de Teófilo Braga):
Hum
Rustico aldeano matou hum carneyro e esfolouo e levava-o aas costas pera o
vender en o mercado. E falaronse quatro ribaldos que estevessem em quatro
lugares en a carreyra per hu avia de hir aquelle aldeaão, e que cada hum lhe
dissesse que aquel carneyro era cam, por tal que o deitasse de ssy, e que o
ouvessem elles. E quando o aldeão passou per hu estava o primeiro ribaldo
disse-lhe:
—
Pera que levaes assy esse cã?
Respondeu
o aldeão:
—
Irmaão, nom sabês o que dizees, ca certamente carneyro he e nom cam.
E
o Ribaldo aperfiou com elle que era cam. E asy o fezerom os outros tres
ribaldos. E o aldeão veendo esto disse antre sy:
—
Eu cuidava que esto era carneyro; mas poys todos dizem que he cam, nom hei que
faça dele, — e lançou o carneiro em terra e foyse. E os Ribaldos tomaram-no.
E
bem assy communalmente todo o mundo falla mentirosamente.
(Orto
do Sposo, de Frei Hermenegildo de Tancos, alcobacense.)
Notas:
[1]Velhacos,
patifes.
[2]Caminho,
estada.
[3]
Abandonasse.
[4]Tivessem
para si.
[5]
Que.
[6] Porfiou; insistiu,
teimou.
[7]
A si mesmo.
[8]
Não tenho o que fazer dele.

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