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OS PÃES DE CENTEIO - Conto Legendário - Anatole France

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OS PÃES DE CENTEIO Anatole France (1844 - 1924) Naquele tempo, Nicolau Nerli era um banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora, já estava sentado em sua mesa de trabalho e, ao soar a hora nona, ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números era suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios com este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia. Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estav...

O ALGOZ DE ESTRASBURGO - Conto Trágico - Charlotte de Sor

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O ALGOZ DE ESTRASBURGO Charlotte de Sor (Séc. XIX) Numa tarde em que Napoleão estava no seu palácio de Malmaison, cercado de toda a sua família, sucedeu recair o assunto sobre a princesa de Wurtemberg. O imperador então perguntou ao seu camarista que idade tinha o rei de Wurtemberg. — Frederico Guilherme, senhor, tem setenta anos. Nasceu em 1736, casou em 1780 com a princesa Carolina de Brunswich [1] , e enviuvou em 1788...   —Sim, enviuvou! — interrompeu o imperador. O tom com que ele proferiu estas palavras atraiu a atenção de todos os que estavam presentes. Seguiu-se um breve silêncio, que o imperador quebrou contando a seguinte história:   Aos 4 de outubro de 1788, quase pelas 8 horas da manhã, um homem se apresentou à porta de Dietrich, pretor de Estrasburgo. O criado, quando entrou no quarto onde estava seu amo, vinha pálido e aterrado.   —Que quer, Francisco?   —Senhor, procuram-no. —Quem é? Fale.   —É o verdug...

ALARME NOTURNO - Conto de Anton Tchekhov

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ALARME NOTURNO Anton Tchekhov U ma mosca de regular tamanho introduzira-se lentamente no nariz do sr. Gagin . O nariz não tolerou a presença desse corpo estranho, e deu, com um espirro, o sinal de alarme. Gagin espirrou, em realidade com todo o seu corpo. Sua esposa Maria estremeceu, despertando, e virou-se para o outro lado, disposta a prosseguir no sono. Transcorridos uns minutos, tornou a virar-se. Mas não conseguiu conciliar o sono. Cansada de se voltar na cama, levantou-se e aproximou-se da janela. Fora, reinavam as sombras e o silêncio. Do lado leste, uma ligeira claridade permitia distinguir os contornos das árvores e o perfil dos tetos. De repente, Maria soltou um grito. Teve a impressão que vira no jardim uma sombra negra, que se aproximava da casa. Um homem!... Um ladrão, com certeza!... A sombra aproximou-se da janela da cozinha. Deteve-se uns segundos, indecisa. Levantou uma perna e confundiu-se no retângulo negro. Ah!... Um ladrão!... Enquanto esse...

A MOEDA - Conto de Anna Katherine Green

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A MOEDA Anna Katherine Green (1846 – 1935) — E agora, meus amigos, se viram bem e suficientemente olharam a moeda, façam, a gentileza de entregá-la a mim, valete Albert, para que a torne a colocar no cofre. Os convidados se entreolharam à espera de que o objeto aparecesse. Olhares interrogadores. A moeda não aparecia.   —Não é possível que se haja extraviado — assegurou lorde Sedgwick, com tranquilidade. — Eu a vi há um momento na mão de alguém. Ah, sim! Barrow, ela estava com você. Que fez dela?   —Passei-a a outros.   —Bem. Terá corrido para debaixo de alguma fresta. Enquanto lorde Sedgwick se inclinava para olhar em sua própria cadeira, os demais hóspedes o imitavam.   —Não se incomodem, senhores — continuou. — Bebamos à nossa saúde e deixemos que Albert a procure quando tivermos saído da sala.   Entretanto, notava-se nele certa preocupação: a moeda era raríssima e a contava entre os mais preciosos espécimes de sua...