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O DOM DAS FADAS - Conto de Charles Baudelaire

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O DOM DAS FADAS Charles Baudelaire (1821 – 1867)   Era uma grande assembleia de fadas, reunida para fazer a uma partilha de dons entre os nascidos naquelas últimas 24 horas. Todas aquelas antigas e caprichosas irmãs do Destino, todas aquelas estranhas mães da Alegria e da Dor eram distintas. Umas tinham ar sombrio e resignado; outras sorriam descuidadas ou malignas: estas jovens, que haviam sido sempre jovens, outras velhas, que haviam sido sempre velhas. Os pais, que têm fé nos poderes fantásticos, tinham vindo e cada qual trazia seu filho nos braços. As pobres fadas estavam muito atarefadas porque a multidão era grande e o mundo intermediário entre o homem e Deus está submetido, como nós, às terríveis leis do tempo e de sua infinita posteridade — os dias, as horas, os minutos e os segundos. As fadas estavam como os juízes humanos que, julgando durante horas prosseguidas processos sem conta, acabam distribuindo sentenças ao acaso, sem outra preocupação senão a da h...

UM CAPÍTULO ESQUECIDO NOS MISTÉRIOS DE PARIS - Conto - Félix Roubaud

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UM CAPÍTULO ESQUECIDO NOS MISTÉRIOS DE PARIS Félix Roubaud (1820-1878)   Em 1847, quando eu redigia a Gazeta dos Hospitais, obtive o conhecimento de um fato singular, de que dei notícia da maneira seguinte: Conta-se que um de nossos romancistas, desejando estudar os costumes, a linguagem e o modo de viver das classes ínfimas da sociedade, ia, muitas vezes, a horas mortas, às espeluncas da Cité , e às tavernas imundas do Mercado dos Inocentes. Ali, com um gorro de lontra na cabeça, uma blusa sem cor, calças indefiníveis e em chinelos, podia ele, sem trair a sua posição, sentar-se nos bancos de pau, despejar seu copo, e fazer bem à vontade seus estudos e observações. Entrando uma noite num desses antros, notou, no meio da sala, e gravemente sentado diante de uma mesa, um homem pálido e magro, mas de olhar penetrante e inteligente: esse homem era um trapeiro, ou seja, apanhador de trapos. Ao clarão de uma vela presa ao gargalo de uma garrafa, e posta à esquerda desse ser...

SALOMÃO E AZRAEL - Conto Breve de Rumi

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SALOMÃO E AZRAEL Rumi (1207 – 1273) Tradução indireta de Paulo Soriano   Um homem apresentou-se muito cedo ao palácio do profeta Salomão. Tinha o rosto pálido e os lábios exangues. Salomão, vendo-o assim, perguntou: — Por que estás em tal estado? O homem respondeu: — Azrael, o anjo da morte, me lançou um olhar impressionante, cheio de ódio. Manda que o vento, eu te suplico, me transporte para a Índia, pondo a salvo o meu corpo e a minha alma! Salomão mandou, pois, que o vento fizesse o que o homem lhe pedira. No dia seguinte, o profeta perguntou a Azrael: — Por que lançaste um olhar tão inquietante àquele homem, que é um fiel? Causaste nele tão grande pavor que abandonou a sua pátria. Azrael respondeu: —Ele interpretou mal o meu olhar. Não o olhei com ódio, mas com assombro. Deus, de fato, me havia ordenado a ceifar a sua vida na Índia e eu me perguntei: como poderia ele transportar-se para a Índia?   Imagem: Evelyn De Morgan (1855- 1919).

OS DOIS CONSOLADOS - Conto de Voltaire

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OS DOIS CONSOLADOS Voltaire (1694 – 1778) Tradução de   M. C.   O grande filósofo Citófilo dizia, certo dia, a uma dama desolada, que tinha muitas razões para estar assim: — A rainha da Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão desventurada quanto a senhora: expulsaram-no do trona, esteve na iminência de perecer no oceano sob a fúria das tempestades e viu o seu marido no patíbulo. — Lamento por ela — disse a dama. E se pôs a chorar os seus próprios infortúnios. — Lembre-se de Maria Stuart — atalhou Citófilo. — Ela amou com grande honestidade um elegante músico que tinha uma grande voz. O seu marido matou o músico em sua presença. E, depois, sua boa amiga Elisabete, que se dizia virgem, mandou-lhe cortar a cabeça sobre o cadafalso forrado de negro, após dezoito anos de cativeiro. — Isso é muito cruel — respondeu a dama. E novamente mergulhou em sua melancolia. —Talvez a senhora tenha ouvido falar — disse o filósofo consolador — da bela Joana de Ná...

A RAINHA DE SABÁ - Lenda Oriental - Conto de Helena Rubini

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A RAINHA DE SABÁ Lenda Oriental Helena Rubini (Séc. XX)   Dos confins da Arábia, a terra do incenso e das palmeiras, a rainha de Sabá, a grande Balkis [1] , ouviu a faina do grande poderio e sapiência do filho de Davi. Fugiu-lhe o sono. Debalde, as lindas servas, os servis ministros, os deslumbrantes pajens indagavam por que cuidados tinha a gentil princesa a fronte enuviada Um dia, porém, após noite de cruel insônia, ela chama seu velho mordomo, e ordena-lhe que, sem réplicas ou delongas, mande aprestar os dromedários, riquezas e perfumes que pudessem levar esses herbívoros. Teria enlouquecido essa princesa tão sabia e tão prudente?... — Cumpre o que te ordeno. Ao grande Salomão vou visitar, e não é justo que vá com as mãos vazias, sem as galas e pompas que me cercam? E, depois, pensativa e vagarosa, buscou os régios e suntuosos aposentos, onde, à   noitinha, das rasgadas janelas do torreão adusto, consultou as estrelas vaporosas que recamavam   o velud...

STELLINA - Conto Trágico - Benito Vicetto

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STELLINA (Balada) Benito Vicetto (1824 – 1878) Tradução de Paulo Soriano A poucas milhas de Nápoles há um castelo triste e sombrio, açoitado pelo vento e oculto por espessas névoas. Este colossal edifício — negro e gigantesco —, incrustado entre elevados rochedos, é o castelo de San Giovanni. O conde é o seu senhor absoluto. Um conde jovem e valente, como um donzel da Idade Média, soberbo e fogoso como seu alazão de batalha. O conde Rugiero tem uma irmã bela como um anjo de Lawrence [1] , como a Virgem da Glória de Rafael [2] . São duas horas da manhã. Nem uma luz brilha no céu e na terra. Todavia, não é completa a escuridão... Os morros e as planícies estão cobertos de neve e ao seu redobrado reflexo divisa-se a mais insignificante árvore, a mais oculta rocha. Esta claridade é tão sublime, tão estranha... Esta luminosidade magnífica, cheia de mistério e poesia, que não pertence nem ao Sol nem à Lua, nem ao crepúsculo nem à aurora, derrama sobre o castelo de San G...

O MÉDICO E O SAPATEIRO - Conto breve de Mário Terrabatava

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O MÉDICO E O SAPATEIRO (Baseado numa anedota inglesa) Mário Terrabatava Porque a sua mulher adoecera seriamente, um sapateiro de Londres procurou um médico. Todavia, vendo que o homem se vestia pobremente, e   imaginando que aquele pobretão não dispunha de recursos suficientes para cobrir os seus honorários, tratou o médico de dispensá-lo, dizendo que estava ocupado e que não dispunha de tempo para ver a mulher enferma. Conhecendo o motivo subjacente à resposta recebida, disse o sapateiro ao médico: — Doutor, disponho de dez libras, que economizei com grande sacrifício. Com elas, hei de pagar por seus serviços, quer o senhor cure, quer mate a minha mulher. Diante de tal promessa, e lhe parecendo que o homem falava com sinceridade, o doutor foi visitar a enferma. Mas, poucos dias depois, a mulher desceu ao túmulo. Tendo o sapateiro se recusado a realizar o pagamento, o doutor foi a juízo, reclamando as dez libras prometidas. Citado, o sapateiro apresen...