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Mostrando postagens com o rótulo Fábula

O HOMEM MUDO - Conto - Sherwood Anderson

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O HOMEM MUDO Sherwood Anderson (1876 – 1941)   Há uma história. Não consigo contá-la. Faltam-me palavras. A história está quase esquecida, mas, às vezes, recordo-me dela. A história fala de três homens numa casa, numa rua. Se eu conseguisse expressar-me em palavras, contaria a história. Eu a sussurraria nos ouvidos das mulheres, das mães. Correria pelas ruas repetindo-a sem parar. Minha língua se soltaria — ela vibraria entre os meus dentes. Os três homens estão em um cômodo da casa. Um deles é jovem e vaidoso. Está sempre rindo. Há um segundo homem que tem uma longa barba branca. Ele está consumido pela dúvida, mas, ocasionalmente, a dúvida o abandona e ele adormece. Há um terceiro homem, de olhar malicioso, que se move nervosamente pela sala, esfregando as mãos. Os três homens estão esperando... esperando. No andar de cima da casa, há uma mulher de pé, de costas para a parede, na penumbra, junto a uma janela. Esta é a base da minha história e tudo o que eu puder saber condensa-se...

PARÁBOLA DA TERRA JUSTA - Fábula - Máximo Gorki

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PARÁBOLA DA TERRA JUSTA Máximo Gorki (1868 – 1936) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Houve um homem que só vivia por que se apegara à crença de que, em qualquer parte do globo, existia um país justo. E, por mais desgraçado que fosse, fossem quais fossem os sofrimentos que padecesse, ele tudo suportava evangelicamente em nome de sua fé. — Esperarei — dizia ele. — Quando tiver acabado de sofrer o meu bocado, acharei a terra justa . Uma convicção profunda da existência desse país, e da possibilidade de lá ir um dia, o sustentava. Certo dia, porém, à cidade por ele habitada chegou um sábio trazendo consigo muitos livros e muitos mapas; e o nosso homem de crença robusta na terra justa foi a ele e lhe pediu que procurasse em seus mapas o país em questão, indicando-lhe também o caminho que lá ia ter. O sábio desenrolou os seus mapas e pôs-se a procurar. Procurou uma, duas, repetidas vezes. Procurou com afinco e não o achou. Todos os países estavam assinalados, exceto o justo.  ...

O CÃO E A PULGA - Fábula - Leonardo da Vinci

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O CÃO E A PULGA Leonardo da Vinci (1452 – 1519) Um cão estava dormindo sobre a pele de um cordeiro capão, quando uma de suas pulgas, sentindo o cheiro da lã gordurosa, julgou que ali encontraria melhor vida, e que estaria protegida dos dentes e das unhas do cão, de cujo sangue extraía o seu alimento. Sem mais pensar, abandonou o cão e mergulhou na espessa lã. De início, tentou chegar às raízes dos pelos, mas, depois de muito esforço, percebeu a futilidade daquela empreitada, pois aqueles pelos estavam tão amontoados que quase se tocavam, e não havia espaço entre eles para atacar a pele. Depois de muito trabalho e fadiga, resolveu voltar ao seu cão; mas como, neste meio tempo, ele já se havia evadido, a pulga, queixosa e arrependida, acabou por morrer de fome. Versão em português de Paulo Soriano.  

O AVARENTO E O INVEJOSO - Narrativa Clássica - Flávio Aviano

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O AVARENTO E O INVEJOSO Flávio Aviano (Final do século IV — início do século V)   Do alto dos céus, Júpiter enviou Febo à Terra para inteirar-se da dúbia vontade dos seres humanos. Apareceram, diante de Febo, dois homens cujos espíritos eram bem distintos: um era avarento; o outro, invejoso. — O que quereis pedir-me? — perguntou Febo. — Dizei-me e vos será concedido. E àquele que primeiro pedir, darei em dobro ao segundo. Ao ouvir isto, acreditando que o companheiro demandaria por riquezas, quis o avarento que o invejoso formulasse primeiro o pedido, para que obtivesse o dobro do que àqueloutro caberia. O invejoso, porém, percebendo, de pronto, a astúcia do avarento, que haveria de receber em dobro o seu quinhão, não pôde conter a inveja. Então, pediu a Febo que lhe despojasse de um olho, para que o seu companheiro tivesse ambos os olhos arrancados. Febo, vendo isto, ascendeu a Júpiter, e, sorrindo, contou-lhe que, na Terra, a perniciosa inveja reinava com tal vig...

O FATOR IGNORADO - Fábula de Ambrose Bierce

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  O FATOR IGNORADO Ambrose Bierce (1842 – 1914?) Tradução de Paulo Soriano     Um homem era dono de um belo cão. Depois de uma cuidadosa seleção, deu a ele uma companheira, da qual nasceram vários animais quase angelicais. O homem, tendo se apaixonado por sua empregada, casou-se com ela, produzindo uma ninhada de imbecis. — Ai de mim! — exclamou o homem, contemplando aquele funesto resultado. — Se eu tivesse escolhido a minha mulher com a metade do cuidado que dediquei à escolha da cadela, eu seria agora um pai orgulhoso e feliz! — Eu não teria tanta certeza disto — disse o cão, que escutara aquele choramingo. — Decerto, há enorme diferença entre a minha e a sua prole, mas arrisco a ufanar-me de que tal disparidade não se deve totalmente às mães. Você e eu não somos exatamente iguais.