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O DESTINO DECIDE PELOS TÍMIDOS - Conto - O. Henry

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O DESTINO DECIDE PELOS TÍMIDOS O. Henry (1862 – 1919)   Certa feita, deparei-me com uma revista que valia dez centavos num banco de um parque da cidade. Ao menos, foi este o valor que o homem me pediu quando me sentei ao seu lado. Era uma velha revista, mofada e suja, que continha em si algumas histórias absurdas. Eu estava certo disto. E o homem — ou minha revista — acabou por se mostrar um álbum de recortes. Para testá-lo, disse com afetado desembaraço: — Sou jornalista e ando em busca de assunto para crônicas. Então, lembrei-me de entrevistar os... sem trabalho, que passam dias e noites nos bancos dos jardins públicos.  O maltrapilho sorriu, fitou-me com olhar irônico e atalhou: —Pois sim. O senhor não é repórter. Pensa que se vive, assim, olhando para quem passa, sem aprender alguma coisa? Polícia e jornalista são duas raças que eu conheço de longe. O senhor não tem o que fazer e está com vontade de conversar... Pois vamos em frente. Esperou um instante e, como eu h

A PAPISA JOANA - Narrativa Breve - Giovanni Boccaccio

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  A PAPISA JOANA Giovanni Boccaccio (1313 – 1375)   João, apesar do nome masculino, era, na verdade, uma mulher, cujo inaudito atrevimento a tornou inusitadamente conhecida de todos em seus dias e dos que vieram depois. Embora alguns digam que ela era de Mainz, mal se sabe qual era o seu próprio nome e, segundo alguns, chamava-se Giliberta. Sabe-se que ela foi amada por um jovem estudante em sua juventude, e ela tanto correspondeu a esse amor que, tendo vencido o medo virginal e o pudor feminino, fugiu da casa de seu pai em segredo e — mudando de nome e vestindo-se como um garoto — seguiu o namorado. Depois, estudando na Inglaterra, onde todos a tomavam por jovem clérigo, aplicou-se aos estudos de Vênus e da literatura. Tendo falecido o jovem, e sabendo-se possuidora de elevado intelecto e de inclinação pela ciência, manteve o hábito de religioso, e passou a evitar a companhia dos homens, escondendo de todos a sua condição de mulher. Aferrando-se diligentemente aos estu

UMA PANTOMIMA DE SUCESSO - Narrativa Breve - H. R. Tlyr

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UMA PANTOMIMA DE SUCESSO H. R. Tlyr (Séc. XX)   Sir Frederick Bridge, famoso organista da abadia de Westminster, estava na Rússia com seu amigo, o romancista James James L. Player. Acabavam de visitar Moscou e já estavam de partida para Leningrado, onde Sir Frederick deveria realizar alguns concertos. Seduzidos pelas maravilhas da arquitetura oriental da cidade, os amigos não perceberam que o tempo voara. Quando Mr. Player consultou o relógio, viu que só lhes restavam trinta minutos para chegarem à estação ferroviária. —Depressa, um carro! Encontrado um táxi, surgiu uma nova dificuldade: como explicar ao motorista que queriam chegar à estação?  Aquele homem russo, de pouca instrução, não sabia uma palavra de inglês e eles não falavam russo. —Imite uma locomotiva — propôs o romancista. — Enquanto você move os braços em círculos, como se impulsionasse a máquina, dirá: “Tchaca, tchaca, tchaca, tchaca...” Ao mesmo tempo, eu farei o gesto de puxar a corda de escapamento e

A HISTÓRIA DE OMAR E O VALOR DA ÁGUA - Conto de Emilio Vilaró

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  A HISTÓRIA DE OMAR E O VALOR DA ÁGUA Emilio Vilaró Tradução de Paulo Soriano   Era uma vez um homem chamado Omar, que vivia no pequeno oásis de Izmir. Izmir, como logo se saberá, é um dos muitos oásis que se encontram em meio à rota das caravanas que se deslocam a Bagdá. Pequeno, mas suficientemente importante a permitir os preparativos à última e mais importante etapa da viagem, antes de adentrar-se a grande cidade. Por ser a última grande escala, permitia ao viajante prevenir sobre a sua chegada iminente, inteirar-se dos preços atuais de mercado, deixar no oásis os objetos não mais necessários, ou que poderiam ser recolhidos quando do retorno, e organizar as mercadorias destinadas à venda. Embora não fosse o mais próximo dos oásis da capital, nele Omar recebia várias caravanas por mês, cujos integrantes ali chegavam para assear-se, descansar e preparar-se para a tão esperada chegada ao destino. Era a última grande parada antes da chegada a Bagdá. Perdoem-me por ter

A ÁRVORE DE NATAL - Conto de Fíodor Dostoievski

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A ÁRVORE DE NATAL Fíodor Dostoievski (1821 – 1881)   Em uma grande cidade, na noite de Natal, sob um frio intensíssimo, vi um menino, ainda muito criança, de oito anos apenas, talvez de menos, ainda bem pequeno para mendigar, mas já perseguido e torturado pela miséria. Esse menino despertou tiritando, pela manhã, num quarto úmido e frio, abrigado com uma espécie de bata, velha e puída. A respiração saia-lhe em forma de vapor branco: sentado a um conto, sobre um baú, distraía-se ativando de propósito sua respiração, divertindo-se vendo-a sair. Mas tinha muita fome. Desde a madrugada, aproximara-se já várias vezes da cama de tábuas, coberta com um delgado enxergão, em que estava deitada a mãe, com a cabeça apoiada em um monte de farrapos à guisa de travesseiro. Como chegara até ali aquela pobre mulher? Sem dúvida saíra, com seu filho, de alguma cidade longínqua, em que a acometera a enfermidade. E ali estava havia dois dias. Na companhia de gente miserável como ele. Dia de