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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

O SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA - Crônica - Paulo Soriano

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O SÚBITO LAPSO DA MEMÓRIA Paulo Soriano   Inteligente, sagaz e profundamente humano, o professor Arlindo reservava o seu rigor à avaliação das provas. Parecia que, naqueles momentos tenebrosos, que nos enchiam de angústia — de quase terror —, Arlindo despia-se da indumentária de mestre afável e punha sobre a face o capuz de um algoz empedernido. — Hoje é dia de cadafalso — dizíamos, quando chegava o dia de prova. E veio a última avaliação do ano. Com um estremecimento atroz, soubemos, pelos lábios do mestre, que o exame seria oral. Duas únicas perguntas. Ou dez, ou cinco, ou zero. Este era o prognóstico. Chegou a minha vez. Respondi à primeira pergunta — que me parecera fácil — com tranquilidade. Veio a segunda: — Qual o nome que se dá ao fenômeno consistente no súbito esquecimento de uma palavra que bem conhecemos? A resposta era fácil. Facílima. Abri a boca para responder, mas… — Está na ponta da língua, Soriano? — insistiu o mestre, com um sorrisinho — talvez irônico, talvez est...

AMÁ-LA-IA - Crônica Humorísitica - Júlio Portus Cale

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AMÁ-LA-IA Júlio Portus Cale E Coriolano Cerqueira, o gênio vivo de Arco da Ponte, concluiu o seu longo e erudito poema com o incisivo estribilho: “…Se eu vivesse Amá-la-ia!” Soaram os aplausos em torno do coreto da praça. E quem mais aplaudia era Chico Borbulha, exímio e tradicional morador de rua. Firmino Bento perguntou: — E aí, Chico. Gostou do poema? — E como, moço! Bão demais. —Gostou mesmo? Mas… por quê? — Porque é justo: a mala ficou com o pobrezinho do defunto…  

UMA RAPARIGA APRESSADA - Crônica - Catulle Mendes

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UMA RAPARIGA APRESSADA Catulle Mendes (1841 – 1909) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934) A honesta avozinha começou primeiro por dar um par de bofetadas na pequena desavergonhada, e, depois, enquanto a rapariga chorava a bom chorar, vermelha como uma papoula, fez-lhe este discurso: — É, pois, verdade, teres um amante? E confessas, ousas confessar? Um amante! E só com dezesseis anos! Com os olhos baixos, o arzinho modesto, parece que não quebras um prato, e chegaste já a esse ponto no deboche e no cinismo! Quem te visse julgaria só em bonecas ou num bebê japonês e, afinal, a boneca que a menina tinha na cabeça é um homem! Que vergonha! É para uma pessoa fugir, meter-se pelo chão abaixo! Como? Foi essa a educação que recebeste? Não tendo na família senão bons e virtuosos exemplos, como pudeste cometer uma falta tão grande? É preciso, palavra de honra, que tivesses o diabo no corpo! Mas o que mais exasperava a avó era ter a Luisinha conseguido enganá-la, apesar da v...

VIVO E MORTO - Crônica - Autor anônimo do início do séc. XX

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VIVO E MORTO Autor anônimo do início do séc. XX Em 1870, Lucien Grattery era soldado do 4º regimento de zuavos, em França. No combate de Bry-sur-Marne, lançou-se sobre os prussianos com um tal furor que recebeu um tiro em pleno peito; o projétil varou-o de um lado a outro, fazendo enormes estra g os nos principais órgãos, atravessando-lhe o pulmão esquerdo. Ma s há homens de sorte. Lucien Gratterv, transportado para o hospital de sangue, não morreu; o pulmão cicatrizou, e restabelecido, Gratterv teve baixa, retirando-se para o lar de sua família. Começou então a pensar numa condecoração. Em França, como em toda a parte, quando se tem direito e se quer uma medalha, é preciso um mundo de papéis. Lucien Grattery necessitou de cópia da sua fé de ofício. Para a obter, escreveu ao ministro da guerra, o qual não respondeu porque tinha mais que fazer. Felizmente, os ministros passam. Assim sucedeu com Crattery; depois do combate de Bry-sur-Marne, até hoje, houve em França cinquenta ...

A RECEITA - Crônica - Catulle Mendes

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A RECEITA Catulle Mendes (1841 – 1909) Tradução de autor desconhecido do séc. XIX No camarim cor do rosa e malva, por cujas cortinas mal penetrava a luz, a gentil viscondessa de Belvélise, um tanto pálida, com uns ares de moribunda, estava deitada, toda coberta de rendas, sobre uma chaise longue . Os seus pesinhos nus, de calcanhares rosados, saem a meio das chinelas de pérolas. Junto dela, o médico da moda, jovem, lindo, de umas maneiras de estrangeiro, com as compridas mãos, apalpava-lhe o pulso por baixo das rendas da manga. — É grave, não, doutor? — disse ela, com um gracioso estremecimento que parecia de febre. — Muito grave, disse ele. — Eu estou certa de que é uma languidez o que sofro. — Exatamente. — E qual é a causa da moléstia? — Eu creio, minha senhora, que há duas causas. — Duas? O Sr. me faz medo. Quais? Diga depressa. Ele pareceu hesitar; no entanto, sorria. — E então, senhor, quais são essas causas? — São — respondeu ele afinal, em voz baixa — os seus ...

OS HERÓIS NAVEGADORES - Crônica Classica - Joseph Conrad

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OS HERÓIS NAVEGADORES Joseph Conrad Tradução de autor anônimo do séc. XX A geografia é a mais inocente de todas as ciências. Nunca enganou os homens. Quando muito, tirou-os dos seus lares e conduziu-os à morte, ou a um pouco de glória duramente conquistada. O navegador que deu à geografia moderna um novo mundo foi carregado de grilhões e metido numa prisão. Cristóvão Colombo, o inditoso navegante, destaca-se como uma figura patética, uma vítima das imperfeições e invejas do coração humano. Foi grande como um rei nos sofrimentos e nas honrarias. A sua contribuição para o conhecimento da Terra foi considerável. O descobrimento da América deu origem à maior expressão de cobiça e crueldade que a história regista, ocasionada pelo ouro do México e do Peru. Talvez isto não mostre um coração piedoso, mas devo confessar que sinto um malicioso prazer ao pensar nas decepções que sofreram os obstinados buscadores do Eldorado, escalando montanhas, abrindo caminho pelas florestas virg...

MEMÓRIAS - Crônica - Thomaz Soriano Filho

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MEMÓRIAS… 1 Thomaz Soriano Filho 2 (22/05/1890 – 28/01/1919) Ao Dr. A. de A. A alegria e a saudade que sentimos quando recordamos fatos de nossa meninice são um fenômeno físico muito constante e comum aos espíritos bem formados. Alegria por termos passado por coisas tão boas e saudade porque elas já passaram na ampulheta dos “tempos que não voltam mais”. Corria o mês de março, no meio das ventanias dos dias hiemais, quando eu e meu pai nos preparamos para assistir às festas da Semana Santa em minha terra. Partimos e eu ia tão satisfeito ver a terra onde nasci e onde há muito tempo não pisava! Após um dia de viagem fatigante, saltamos na estaçãozinha—B às 7 horas da noite. Meu pai tomou a frente do caminho que nos conduzia à casa de nossa visita, cujo pessoal só eu não conhecia então. Chegados lá, trocaram-se os abraços e imediatamente nos foi oferecido um jantar. Eu, muito acanhado, apenas respondia ao que me perguntavam; e fiquei ainda mais quando vi que não havia ali um...

LAMPIÃO - Crônica Humorística - Luiz Raimundo

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  LAMPIÃO Luiz Raimundo   Aquela manhã de terça, 6 de abril de 1937, ficaria para sempre na lembrança dos moradores de minha terra natal, Jequeri, até o fim dos tempos. Zequinha dos Correios, nas primeiras horas do dia, vinha em desabalada correria pelas ruas da cidade, com destino à sede da prefeitura. Entrou na sala do Dr. Arthur Damásio, com os cabelos em riste, parecendo um “luís-cacheiro” (*), os olhos mais esbugalhados que os de um macaco-esquilo, brandindo um telegrama, sem conseguir falar nada. O Prefeito, que também era médico – estimadíssimo na cidade – mandou que se sentasse e trouxe-lhe um copo d´água com açúcar. Assim que ele se acalmou, o alcaide tomou-lhe das mãos o telegrama, e o que leu fez com que arregalasse também os olhos e se deixou cair como uma jaca desprendida do galho em sua cadeira de trabalho.  O telegrama dava a seguinte informação: “Lampião chegará essa cidade vg amanhan vg pelas cinco da tarde pt.” Do telegrama não constavam destinatário nem...

A RECEITA - Conto Humorístico - Catulle Mendes

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  A RECEITA Catulle Mendes (1841 – 1909) Tradução de autor desconhecido do séc. XIX   No camarim cor do rosa e malva, por cujas cortinas mal penetrava a luz, a gentil viscondessa de Belvélise, um tanto pálida, com uns ares de moribunda, estava deitada, toda coberta de rendas, sobre uma chaise longue . Os seus pesinhos nus, de calcanhares rosados, saem a meio das chinelas de pérolas. Junto dela, o médico da moda, jovem, lindo, de umas maneiras de estrangeiro, com as compridas mãos, apalpava-lhe o pulso por baixo das rendas da manga. — É grave, não, doutor? — disse ela, com um gracioso estremecimento que parecia de febre. — Muito grave, disse ele. — Eu estou certa de que é uma languidez o que sofro. — Exatamente. — E qual é a causa da moléstia? — Eu creio, minha senhora, que há duas causas. — Duas? O Sr. me faz medo. Quais? Diga depressa. Ele pareceu hesitar; no entanto, sorria. — E então, senhor, quais são essas causas? — São — respondeu ele afinal...

INFERNO NO CÉU - Crônica de Júlio Portus Cale

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  INFERNO NO CÉU Júlio Portus Cale   Porque virtuoso, quando morri, fui direto para o Céu. Lá chegando, procurei prontamente Santo Antônio, o mais milagreiro dos santos e o meu santo de devoção. Encontrei-o sentado a uma escrivaninha, debruçado sobre um livro imenso, fazendo apressadas anotações com uma pena. Tinha um ar de grande cansaço, mas trabalhava febrilmente. — Com licença, Santo Antônio. Posso me sentar um bocadinho? — Um dedinho de prosa é bem-vindo. Fique à vontade. Sentei-me. — Meu santo, o senhor parece-me cansado — disse-lhe. — Extenuado, meu filho! Extenuado! Somente nesse minutinho, desde que você chegou, já vieram 50 novos pedidos de casamento. É difícil dar conta de tanto pedido.   E olhe que, hoje em dia, casamento é coisa difícil... —Mas é assim que o senhor faz os milagres, escrevendo num livro enorme? — Não, meu filho.   Este aqui é o livro de registro. — Então o senhor é um burocrata? Não faz milagres de verdade? — P...