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PERDIDO - Conto de Loucura - João da Câmara

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PERDIDO João da Câmara (1852 – 1908) Quando ouviu ao longe, no campanário da freguesia, bater meia-noite, entreabriu de mansinho a porta da choupana e escutou por longo tempo. Nem um sussurro!... Tudo dormia àquela hora. Saiu e, pé ante pé, com a enxada ao ombro, aproximou-se da aldeia, que tinha de atravessar. Tudo era em silencio; apenas, muito ao longe, junto à fonte, uma rã solitária coaxava tristemente. A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou quarenta casas, dispostas no fundo do vale, ao acaso, entre os choupos da beira do riacho e os últimos pinheiros da mata, que descia pela encosta em pujante vegetação sombria. Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo ressonar compassado dos homens de trabalho. Então parava de ouvido à escuta, olho à espreita, com um pé para diante, o outro para traz, posto de bico, pronto para a retirada. E, quando tudo outra vez caia no primitivo silencio, tornava a caminhar devaga...

TOC, TOC, TOC, TOC... - Conto Humorístico - Artur de Azevedo

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TOC, TOC, TOC, TOC... Artur de Azevedo (1855 – 1908) O Borges não a tinha visto nunca senão à janela da casa paterna: só lhe conhecia o busto, e não era preciso mais nada para encantá-lo, porque na verdade ela possuía o palmo da cara mais simpático e ao mesmo tempo mais lindo que era possível imaginar. Chamava-se Idalina, e era filha natural de um vidraceiro estabelecido na loja do prédio em que ambos moravam. Não iam a parte alguma. Havia uma circunstância, uma só, que contrariava o Borges; a mãe da pequena tinha sido mulher da vida alegre; dera em público toda a espécie de escândalos, e fora, afinal, assassinada, durante uma pândega, por um dos seus inúmeros e sucessivos amantes. É verdade que Idalina desde a mais tenra idade fora subtraída ao contato dessa mulher, e nunca mais a viu: mas o Borges preferia, naturalmente, que ela fosse filha de outra mãe; entretanto, não se lhe dava de ligar o seu destino ao dela, tão forte era a simpatia que a moça lhe inspirava....

CHARLATANISMO - Narrativa humorísitica de escritor desconhecido do séc. XIX

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CHARLATANISMO Anônimo do séc. XIX Se o leitor ainda não está cansado de viajar, venha conosco a Choisy-le-Roi, em França, e presenciará um exemplo de charlatanismo tão curioso que dificilmente achará outro mais interessante em toda a história dos charlatães. Chegou a uma estalagem daquela terra certo viajante, que logo no dia seguinte caiu doente. Dentro em pouco tempo, agravou-se de tal modo a moléstia que o pobre homem não podia mover-se, e apenas podia falar. Por cúmulo de desgraça, era pobre, e não tinha com que pagar a médico que o tratasse. Dali a dias, passou um Nayler Bey [1] . Vinha numa riquíssima carruagem, com seu lacaio uniformizado de bigode, e um cocheiro elegantemente vestido. Fez logo apregoar, ao som de trompa, que trazia consigo alguns milheiros de frascos de bálsamo homogêneo simpático , com o qual se curavam todas as moléstias possíveis e impossíveis, e, quando muito, se demoraria duas horas na cidade, e, por favor até três, em benefício das pess...

A ALEGRIA DE VIVER — Conto Breve - Leopoldo Lugones

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A ALEGRIA DE VIVER Leopoldo Lugones (1874 – 1938) Pouco antes da oração no horto, um homem muito triste, que fora ver Jesus, estava conversando com Filipe, enquanto o Mestre concluía a sua oração. — Eu sou o ressuscitado de Naim — disse o homem. — Antes de minha morte, eu me regozijava com o vinho, divertia-me com as mulheres, festejava com os meus amigos, prodigalizava joias luxuosas e me alegrava com a música. Filho único, a fortuna da minha mãe viúva era somente minha. Agora, não posso fazer nada disso; minha vida é um marasmo. A que devo isto tudo? — É que, quando o Mestre ressuscita alguém, assume todos os seus pecados — respondeu o apóstolo. — É como se o ressurrecto tivesse nascido de novo na pureza de uma criança ... — Foi o que pensei e é por isso que eu estou aqui. — O que você poderia pedir ao Mestre, já que ele lhe devolveu a vida? — Que devolva meus pecados — suspirou o homem.

OS PRISIONEIROS - Fábula - Friedrich Nietzsche

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OS PRISIONEIROS Friedrich Nietzsche (1844 - 1900) Certa manhã, os prisioneiros saíram ao pátio de trabalho. O guarda estava ausente. Alguns se entregaram imediatamente ao labor, como era de costume, mas outros permaneceram ociosos, lançando olhares de desafio ao redor. Então, um deles deu um passo à frente e disse em voz alta: — Trabalhem o quanto quiserem ou não façam nada; é completamente indiferente. As suas maquinações secretas foram todas descobertas, o guarda da prisão surpreendeu-os e nos próximos dias pronunciará sobre as suas cabeças o seu terrível julgamento. Como sabem, ele é severo e vingativo. Mas escutem bem o que eu lhes direi: vocês não me conheciam até hoje; não sou eu quem acreditam quem eu seja. Sou o filho do guarda desta prisão e posso obter, dele, tudo o que quiser.   Eu posso salvá-los e quero salvá-los.   Mas devo avisar-lhes que salvarei apenas aqueles, entre vocês, que acreditam que sou o filho do carcereiro. Aqueles que não acredita...

A VIÚVA E O SAPATEIRO - Conto de Mário Terrabatava

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A VIÚVA E O SAPATEIRO Mário Terrabatava (Conto inspirado numa antiga narrativa medieval.) Em minha terra, se um homem sem prole masculina morre ab intestato — ou seja, sem deixar testamento —, seus bens, porque não expressamente destinados aos familiares supérstites, são arrecadados pelo e para o tesouro real, ainda que o defunto tenha filhas e a sua esposa esteja viva.   Mulher e filhas, graças ao descaso da   Divina Providência e à Imprevidência do desgraçado varão, estão condenadas à indigência ou à prostituição (se não   a ambas, a depender da idade da viúva), acaso não tenham parentes vivos e generosos — o que é mui raro; menos a parentela, mais a generosidade — que lhes garantam um   miserável sustento. E tudo é assim porque os agentes do tesouro são inclementes e, se lhes não é exibida prontamente uma certidão autêntica, de inteiro teor, do testamento, arrancam das mulheres o último dos últimos vinténs, quando não algo mais. Algo menos metálico ...

UM BANDIDO GALANTE - Conto de Prosper Mérimée

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UM BANDIDO GALANTE Prosper Mérimée (1803 – 1870) Celebrava-se um casamento nos arredores de Andujar. Os noivos já tinham recebido os cumprimentos de seus amigos. Era a ocasião de irem todos para a mesa, preparada à sombra de uma grande figueira defronte de casa. Cada um dos convivas estava com a melhor disposição. Os aromas dos jasmins e das laranjeiras floridas misturavam-se agradavelmente com o cheiro que exalava dos pratos que enchiam as mesas. De repente, aparece um homem a cavalo, saído de uma pequena mata próxima de cada. Apeou-se destramente, saudou as pessoas presentes e conduziu o animal à estribaria. Não se esperavam mais outros convidados. Todavia, na Espanha, qualquer viajante é sempre bem-vindo num jantar de festas. Além disso, pelo seu vestuário, o estranho parecia ser gente de importância e o noivo adiantou-se para recebê-lo. Enquanto uns perguntavam aos outros quem seria aquele recém-chegado, o escrivão de Andujar empalidecia como um ...