PERDIDO - Conto de Loucura - João da Câmara
PERDIDO João da Câmara (1852 – 1908) Quando ouviu ao longe, no campanário da freguesia, bater meia-noite, entreabriu de mansinho a porta da choupana e escutou por longo tempo. Nem um sussurro!... Tudo dormia àquela hora. Saiu e, pé ante pé, com a enxada ao ombro, aproximou-se da aldeia, que tinha de atravessar. Tudo era em silencio; apenas, muito ao longe, junto à fonte, uma rã solitária coaxava tristemente. A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou quarenta casas, dispostas no fundo do vale, ao acaso, entre os choupos da beira do riacho e os últimos pinheiros da mata, que descia pela encosta em pujante vegetação sombria. Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo ressonar compassado dos homens de trabalho. Então parava de ouvido à escuta, olho à espreita, com um pé para diante, o outro para traz, posto de bico, pronto para a retirada. E, quando tudo outra vez caia no primitivo silencio, tornava a caminhar devaga...