JACOPO MARINI - Conto Trágico - Adolphe Carle
JACOPO MARINI
Por Adolphe Carle (1804
- 1891)
Tradução de Roberto Augusto
Colin (1828 - 1895)
Jacopo Marini, um dos tipos
mais enérgicos desses montanheses sicilianos, que são ao mesmo tempo
proprietários, caçadores, contrabandistas, e sempre algum tanto assassinos,
ainda que votados de coração e alma à religião católica, apostólica e romana,
tornou-se excessivamente apaixonado da bela Lúcia, rapariga das vizinhanças de
Randazzo.
Lúcia
era uma jovem morena do melhor sangue, tinha uma perfeição de formas sedutoras,
uma viveza e volubilidade incontíveis, uma alegria simpática a ponto de
arrebatar todos os corações. Desde Girgenti até Messina, desde o cabo de
Passaro até Palermo, os encantos de Lúcia eram tão célebres, e seus numerosos
admiradores, por esperança ou por despeito, tinham contribuído para espalhar a
sua fama até os vales mais retirados da Sicília.
Com
a chegada de Marini, todos os pretendentes foram dispensados. Jacopo era um
partido muito conveniente. Sua vigorosa mocidade, beleza e coragem, seus bens e
ainda talvez a sua terrível reputação produziram poderoso efeito no espírito de
Lúcia. Todavia, a jovem namoradeira, ainda que lisonjeada de ser procurada por
um homem tão considerável, não quis esposar Marini sem condições. Um dia,
pois, que seu amante a seus pés instava com ela para que concluísse o
casamento, Lúcia, depois de ter balbuciado algumas palavras, fez-lhe com
franqueza uma confissão de que muito se admirou Marini:
– Eu
retardo tanto quanto posso o casamento – disse ela – porque tenho medo de ti.
– De
mim, Lucia? De mim? – exclamou Jacopo exasperado. – Medo de mim, que te
daria meu sangue e minha vida? E como podes dizer que me ama, cruel
menina, se tens medo de mim?
–
Pois bem, é o que te digo – replicou a rapariga. – Eu te amo com todas as
forças de minha alma e, contudo, tenho medo de ser tua mulher. Escuta, Jacopo,
tu tens sido sempre bom desde que és meu pretendente. Porém, és sujeito ao
furor, eu o sei, e a tua carabina... – acrescentou ela um pouco embaraçada,
passando os dedos pelos cabelos do noivo, como se quisesse, com esta
familiaridade, abrandar a aspereza da repreensão que lhe ia dirigir – ...a tua
carabina, mais de uma vez...
Não
ousou acabar, porque o semblante do montanhês tomara de repente uma expressão
feroz e consternada, e Lúcia abaixou imediatamente os olhos, receando encontrar
algum olhar fulminante nos de seu noivo, que um instante antes nela se fiavam
enternecidos e cheios de um fogo amoroso e acariciador. Mas, depois de um
momento de silêncio causado pelo embaraço dos dois amantes, Marini pôs um
joelho na terra, diante da bela rapariga e, com um tom solene, adivinhando
muito bem o seu pensamento, jurou pelo sangue de Cristo e pela alma de sua mãe
que, o que quer que entre eles pudesse acontecer, sua mulher seria por ele
respeitada, e que nunca as suas mãos se levantariam contra ela.
Lúcia,
que bem conhecia Marini, sua honra de bandido e profundo respeito pelo
juramento, ficou desde este momento sossegada, e alguns dias depois foram
celebradas as bodas na igreja principal de Randazzo.
Depois,
foram juntos habitar a herdade de Marini, onde viveram cinco anos felizes, um
para o outro, como se diz, sem que o marido desmentisse um só instante
suas promessas, sem que tivesse, na verdade, uma grave repreensão que dirigir à
sua mulher, ainda que outro, que fosse mais propenso ao ciúme, tivesse podido
inquietar-se pelo procedimento algo tanto leviano e inconstante de Lúcia, cujos
olhos negros não cessavam de atear em sua passagem violentos incêndios e que,
no domingo, saindo da missa, não se esquecia de trocar sorrisos de amizade com
os mais belos mancebos da aldeia.
Enfim,
Lúcia era prudente, porém não se via nela o sério, casto e profundo recato da
mulher italiana que ama alguém religiosamente. É verdade que, mais que qualquer
outra, tinha ela o direito de se entregar aos caprichos de seu caráter, nos
limites do que é permitido, mesmo por causa do nome temido que lhe tinha dado o
seu marido. O terror ainda inspirava Jacopo Marini e, no meio da vida
tranquila que ele passava, elevava em torno dela uma barreira tão insuperável
como os altos muros de um harém.
Havia,
pois, cerca de cinco anos que estavam unidos, quando, por motivos que ficaram
desconhecidos por sua mulher, Jacopo Marini anunciou-lhe que ia fazer uma
viagem ao reino de Nápoles. Quando partiu, abraçou-a, dizendo unicamente estas
palavras:
–
Ficaremos dois meses sem nos ver, Lúcia. Porém, não te esqueças um só
momento de que és minha mulher.
Lúcia
ficou na herdade com dois velhos criados. Pareceu muito triste durante
dois ou três dias; porém, pouco a pouco recobrou a sua costumeira
alegria. No domingo seguinte, ao sair da igreja, chegou-se a ela um jovem
montanhês do seu país, que também a amara antes de Jacopo. Era bonito e
jovem, quase tão belo quanto Marini, vestido de veludo todo bordado a ouro, com
um rico cinto de seda vermelha, fitas no alto do chapéu e botões de prata nas
polainas. Lúcia nada podia fazer melhor do que acolher bem um antigo conhecido,
tanto mais que o estrangeiro também era amigo de Marini. Consentiu, pois, que
ele a acompanhasse até muito longe pelo campo.
O
estrangeiro, que se chamava Matteo, conservava no coração um rancor muito vivo.
Foi assíduo e diligente, e, no fim de duas semanas – custa-nos confessá-lo –,
Lícia tinha inteiramente olvidado que era a mulher de Marini.
Não
poderíamos dizer que ela foi feliz depois de seu erro, mas é verdade que nem
ela nem o seu amante andavam constrangidos. Ter-se-ia dito, ao
vê-los viver juntos, que Jacopo Marini tinha deixado este mundo com a maior
vontade e que a sua sombra impotente só podia, como única vingança, mostrar-se
aos dois culpados.
Eles
estavam tão cegos, tão loucos, que não refletiram que uma viagem de dois meses
podia passar com a brevidade de uma semana. Tanto que uma noite, quando
estavam ceando na própria câmara de Lúcia e Marini, o cão da herdade pôs-se a
uivar alegremente e, um instante depois, Jacopo, com a carabina na mão e a
roupa molhada pela chuva – porque era noite tempestuosa –, achou-se no limiar
da porta aberta, como por encanto.
Esta
aparição produziu sobre Lúcia e Mattei o efeito de um raio.
Lúcia
lançou sucessivamente os olhos do rosto de seu marido para o de Matteo. Viu um
sorrir amargamente e o outro ficar excessivamente pálido.
Contudo,
como ela não tinha se esquecido do juramento que Jacopo lhe tinha feito antes
do casamento, disse-lhe, com bastante calma e altivez:
–
Meu marido, eu sou uma infame. Mas tu juraste pelo sangue de Cristo e
pela alma da tua mãe que nunca levantarias a mão contra mim. Lembras-te!
– É
verdade – disse Jacopo, estendendo a mão para sua mulher –, e cumprirei meu
juramento.
Então
Lúcia sentou-se e aguardou o resultado desta cena, como se nela não representasse
o principal papel. Não porque se julgasse salva, mas sabe-se que em
certas ocasiões as mulheres mais levianas patenteiam uma energia
admirável. No íntimo desta louca criatura havia uma coragem sólida.
–
Muito bem, Matteo! – exclamou Marini. – Eis-te, pois, em minha casa, meu
bravo amigo, comendo as minhas frutas e carne, bebendo meu vinho, deitando-te
no meu leito, e amante de minha mulher! Como achaste tudo isso, meu caro?
Bom, não é assim? Tu vês como eu tinha arranjado minha pobre existência... cada
um faz o que pode. Ah!...
Marini,
por um momento, entreteve-se em contemplar os dois amantes. Depois,
prosseguiu:
–
Portanto, é necessário que um de vós me pague, meus caros. Dizei: o que
devo fazer? Aqui está a mulher, que me enganou como uma infame que é, e que eu
não posso matar, porque já lhe jurei, como acabas de ouvir, de nunca levantar a
mão contra ela. E tu és meu hóspede, por isso és duas vezes sagrado para
mim. E, contudo, é preciso que me pagueis. Eu vos digo: é mister
que um ou outro... calai-vos?... bem o creio... a questão vos embaraça.
Ele
tornou a calar-se e tomou com afetação o ar de um homem que procura resolver um
grande problema na cabeça. Depois deu uma forte pancada no chão com a sua
carabina. Matteo e Lúcia estremeceram ao estrondo da arma. O assassino, o
feroz bandido, tinha posto de lado a ironia.
–
Toma – disse ele a Matteo em voz alta, lançando diante dele uma faca, que tirou
da mesa –, tu vais matar essa mulher. Desta maneira, tudo ficará arranjado.
Matteo
sentiu despertar-se sua indignação. Levantou-se e observou a faca com os olhos
entorpecidos pelo medo. Ele e sua cúmplice estavam imóveis como duas estátuas.
–
Vamos, não vês que este é o meio de salvar a tua vida? Digo-te que eu
mesmo não posso feri-la. Não ouviste o meu juramento?
Matteo
pegou maquinalmente a faca.
–
Não olhes para mim dessa maneira, animal bruto. Mete essa faca na
garganta dessa mulher e poderás partir. Faz isso depressa. Digo-te que
poderás partir, eu te juro, também, pelo sangue de Cristo.
Estas
palavras, que na boca do feroz montanhês antes pareciam uma blasfêmia do que um
juramento, pareceram, contudo, determinar Matteo, que se adiantou para
Lúcia. Então despertou-se o amor pela vida no coração da rapariga.
Ela lançou um grito despedaçador, e disse, com horror:
–
Como, Matteo, tu me matarias?
–
Ele te matará porque é covarde! – gritou Marini com uma voz terrível. –
Eis aqui o que acontece à mulher que se entrega a um covarde. Vamos,
acabemos com esta comédia. Mais um minuto... mais um segundo de demora
e... mãos à obra... ou tu ou eu!
E,
tendo recuado dois passos, aproximou do rosto a carabina, e colocou a
extremidade do cano no ouvido de Matteo. Este, fora de si, logo que sentiu o
frio do ferro sobre o rosto, empurrou a mesa, segurou Lúcia pela garganta e,
apesar de seus gritos de horror, apesar da luta que ela sustentou por um
instante, imprimindo as unhas no rosto de seu assassino, apesar de suas
lágrimas, murmúrios e súplicas, Matteo a empurrou para junto ao leito, com a
impassibilidade de um carrasco e, ali, por duas vezes, cravou a faca no seio.
Lúcia,
moribunda, ainda pôde fazer o sinal da cruz e balbuciar algumas palavras que
imploravam o perdão a seu marido, que se tinha posto de joelho ao seu lado,
enquanto Matteo se arremessava fora da herdade, todo coberto de sangue, perseguido
pelo latido dos cães. Os dois velhos criados, que tinham entrado neste
momento, tinham visto e ouvido, eis que prevenidos por Marini. Eles contaram,
no dia seguinte, a todo país, a baixeza de Matteo.
Deitaram
a infeliz no seu leito. Pouco depois, ela deu o último suspiro, apertando
a mão do marido que, tornado a ser piedoso, depois de feita a justiça,
depositou um beijo na fronte da culpada, a tempo de ainda de levar consigo a
ideia de ter sido perdoada.
Conto originalmente publicado no Jornal de Instrução e Recreio da
Associação Literária Maranhense, 1845. Atualizamos a ortografia e
fizemos pequenas adaptações textuais.
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