OS CONSELHOS DE SALOMÃO - Conto de Giovanni Boccaccio


OS CONSELHOS DE SALOMÃO
Giovanni Boccaccio
(1313- 1375)


A fama da miraculosa sabedoria de Salomão estendera-se por todo o universo. Sabia-se também que ele não desdenhava dar provas de seu saber a quem quer que as pedisse, e de todos os lados vinham a ele, consultavam-no sobre os casos mais urgentes e os assuntos mais espinhosos.

Um rapaz, da cidade de Lajazzo, chamado Melisso, pôs-se a caminho para o consultar. Durante a viagem, encontrou outro jovem, cujo nome era José, que ia igualmente pelo mesmo motivo. Chegou-se a ele, entrou em conversa, interrogou-o a respeito de seu nascimento, sua pátria, sua condição, o fim e o objetivo de sua jornada. Respondeu José que ia consultar Salomão sobre o procedimento que deveria seguir em relação à sua mulher: a mais difícil, mais desagradável, mais perversa que existira, e sobre a qual os rogos, as ameaças, as carícias, as lisonjas não puderam até então produzir o menor resultado. Sendo, por sua vez, interrogado por José, tal como o interrogara, respondeu-lhe Melisso:

—Eu sou de Lajazzo. Jovem, rico, generoso, mantenho uma casa hospitaleira, onde homenageio todos os meus concidadãos, mas sou tão infeliz quanto você. Apesar de minhas despesas, ainda não consegui encontrar um amigo. Vou, como você, ver Salomão, e pedir-lhe que me ensine um meio de ser amado.

Chegados a Jerusalém, foram ambos conduzidos perante o rei. Melisso apareceu em primeiro lugar e contou a sua história.

—Ama — respondeu-lhe Salomão. E o mancebo saiu após essa curta resposta.

Veio José e relatou a sua desdita:

—Vai à ponte dos Patos. — Foi o conselho único que pôde obter.

Quando de novo se viram, comunicaram um ao outro as respostas que tinham recebido, e consideraram-nas como enigmas cuja solução não lhes era dado encontrar; ou como palavras vagas, que não tinham qualquer ligação com os seus casos, parecendo terem sido proferidas por zombaria. Muito descontentes com os nulos resultados da viagem, deixaram Jerusalém e retomaram o caminho da pátria.

Após alguns dias de marcha, chegaram a um profundo rio sobre o qual havia uma magnífica ponte. Nesse momento passava uma grande fila de cavalos e de burros carregados que lhes impediam a passagem e viram-se, portanto, obrigados a esperar. Desfilaram todos até que faltava apenas um jumento teimoso que não queria avançar. O almocreve pegou num bastão e bateu-lhe a princípio com pouca força; mas o burro ia para a direita, ia para a esquerda, às vezes recuava, e não andava um passo para a frente. Novas pancadas por parte do almocreve nos flancos, no focinho, na garupa: tudo inútil. José e Melisso, que aguardavam que a passagem ficasse livre, gritaram, movidos pela piedade:

— Carrasco! Desejas matá-lo. Não podes experimentar levá-lo com mais brandura? Ele caminharia muito melhor se o tratasses com menos crueldade.

— Senhores - respondeu o almocreve. — Vós conheceis os vossos cavalos; eu conheço o meu jumento. Deixai-me, poi,s proceder como acho conveniente.

Com estas palavras, redobrou a pancada e tanto fez que o burro acabou por avançar.

Antes de sair da ponte, José perguntou a um homem que nela estava sentado como se chamava aquele lugar.

— Senhor — respondeu o homem , é a ponte dos Patos.

Recordou-se então José das palavras de Salomão.

— Começo a ver claro — disse José ao companheiro. —Percebo agora o conselho que me foi dado. Não tenho sabido bater em minha mulher, mas aquele almocreve deu-me uma lição que saberei aproveitar.

Chegados os nossos viajantes a Antióquia, José convidou Melisso para que repousasse em sua casa durante alguns dias. Foi ele muito bem recebido pela esposa, a quem mandou preparar uma ceia conforme o seu amigo indicasse. Este, obrigado a ceder perante tal gentileza, deu algumas sugestões, mas, nenhuma foi aceite e a ceia saiu exatamente ao contrário do que fora proposto. Irritado, José perguntou à mulher:

— Não te disseram qual deveria ser a nossa ceia?

— E que tem isso? — respondeu ela azedamente.

— Que tenho eu a ver com as opiniões dos outros? Fiz o que me apeteceu. Tanto se me dá como se me deu que a ceia te agrade ou não.

Espantado com a resposta daquela mulher, Melisso não pôde deixar de a censurar. José, porém, mais zangado que surpreso, disse:

— Continuas tal qual te deixei. Mas acredita que saberei modificar o teu carácter.

E, voltando-se para o companheiro, explicou--lhe:

— Veremos se o conselho de Salomão é bom, mas peço-lhe, meu amigo, que não leve a mal que eu  o ponha em prática na sua presença, e que não considere uma brincadeira o que vou fazer. Não me perturbe, e lembre-se da resposta que nos deu o almocreve quando tivemos pena da sorte do burro a quem ele batia.

— Estou em sua casa — replicou Melisso — e resolvi fazer apenas o que lhe fosse agradável.

Tendo encontrado um bastão de carvalho ainda verde, subiu José ao quarto onde sua mulher fora dar largas ao seu despeito. Agarrou-a pelos cabelos, jogou-a aos pés e bateu-lhe como um desesperado. A princípio ela gritou, ameaçou; mas como não dessem resultado os gritos e as ameaças, recorreu às súplicas: jurou, prometeu no futuro fazer tudo quanto quisessem. Apesar de assim parecer arrependida, as pancadas sempre lhe zurziam as costelas, as coxas, as espáduas, e afinal, só o cansaço pôs termo a essa sova.

Voltou o marido para junto de Melisso e disse-lhe:

— Veremos amanhã que milagre terá conseguido o conselho de ir à ponte dos Patos.

Depois de repousar um momento, lavou as mãos, foi para a mesa, e chegado a hora de dormir, foram deitar-se. Entretanto, a pobre criatura levantou-se do chão, atirou-se para cima de uma cama e procurou descansar o melhor que lhe foi possível. No dia seguinte, levantou-se cedo, foi procurar o marido, e perguntou-lhe o que desejava para o almoço. Riu-se ele muito, na companhia de Melisso, do bom êxito do seu expediente e disse à esposa quais os seus desejos. Chegada a hora de comer, encontraram a mesa servida de acordo com as ordens dadas. José e Melisso concordaram, pois, quanto à justeza do conselho que a princípio não haviam compreendido.

Alguns dias mais tarde, já de volta à sua casa, Melisso confiou a um sábio homem a resposta de Salomão.

Disse-lhe esse sábio:

—Ele não vos poderia dar melhor conse­lho. Bem sabeis que ninguém amais. As festas que ofereceis, os prazeres que dais aos vossos conhecidos, são para vós, apenas para vós, para satisfazer a vossa vaidade. Amai, portanto, como vos indicou Salomão, e sereis amado. E foi assim que José conseguiu corrigir a esposa e Melisso ter amigos.



Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “Almanaque”(Lisboa, PT), edição de outubro de 1959.



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