UMA BOA SAÍDA - Conto de Narciso Campillo



UMA BOA SAÍDA
Narciso Campillo
(1835 – 1900)
Tradução de Paulo Soriano

O Califa Hegiages, o terror de seus povos e horror do gênero humano, costumava viajar incógnito, percorrendo as cidades e vilas de seu império sem séquito e estandartes.

Certo dia, encontrou um árabe, travou com ele uma conversação e disse-lhe:

— Olá, amigo! Gostaria que me dissesse que é esse tal de Hegiares, de quem tanto se fala.

— Hegiages — respondeu o árabe — não é um homem. É um tigre, um monstro.

— O que se pode atribuir a ele?

— Todos os crimes possíveis.

— E você, já o viu alguma vez?

— Nunca.

— Pois bem, levante os olhos — disse o sultão. — Eu sou Hegiages.

O árabe, sem surpreender-se, mirou-o fixamente e disse:

— E o senhor, sabe quem eu sou?

— Não. Não sei.

— Pois bem, eu sou da família de Zobair, na qual cada um de seus membros fica louco em um dia do ano. Meu dia é hoje.

Hegiages sorriu ao ouvir a escusa tão engenhosa e o perdoou sem dificuldade.


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