UM CAPÍTULO ESQUECIDO NOS MISTÉRIOS DE PARIS - Conto - Félix Roubaud



UM CAPÍTULO ESQUECIDO NOS MISTÉRIOS DE PARIS
Félix Roubaud
(1820-1878)

 

Em 1847, quando eu redigia a Gazeta dos Hospitais, obtive o conhecimento de um fato singular, de que dei notícia da maneira seguinte:

Conta-se que um de nossos romancistas, desejando estudar os costumes, a linguagem e o modo de viver das classes ínfimas da sociedade, ia, muitas vezes, a horas mortas, às espeluncas da Cité, e às tavernas imundas do Mercado dos Inocentes. Ali, com um gorro de lontra na cabeça, uma blusa sem cor, calças indefiníveis e em chinelos, podia ele, sem trair a sua posição, sentar-se nos bancos de pau, despejar seu copo, e fazer bem à vontade seus estudos e observações.

Entrando uma noite num desses antros, notou, no meio da sala, e gravemente sentado diante de uma mesa, um homem pálido e magro, mas de olhar penetrante e inteligente: esse homem era um trapeiro, ou seja, apanhador de trapos.

Ao clarão de uma vela presa ao gargalo de uma garrafa, e posta à esquerda desse ser misterioso, o escritor viu aproximarem-se da mesa, sucessivamente, mulheres, meninos e homens, cujas roupas esfarrapadas e extravagantes denunciavam ao mesmo tempo a miséria e a profissão. A cada um deles o trapeiro fazia perguntas, apalpava o pulso, examinava a língua, e, segundo a gravidade do mal, condenava ao repouso, ou prescrevia algum remédio, cuja receita escrevia em pedaços de papel que tirava do seu cesto.

O romancista, levado de extrema curiosidade, e desejando satisfazê-la, aproximou-se. Depois de curto interrogatório, recebeu, por escrito, seguinte prescrição:

“Para curar-se de sua doença, convém que partilhe as nossas misérias, e tome parte nas lutas sanguinolentas que algumas vezes se travam entre nós.

Gu...d, D.M.P[1].”

 

Aquele encontro era deveras extraordinário. E o homem de letras, cuja imaginação era ardente, entreviu, de repente, nessa existência assim metamorfoseada, magnífico motivo para um romance; e julgou ter chegado à mina fecunda, em que Eugène Sue[2] havia colhido tanta fama.

Esperou à porta do casebre e quando, depois de acabar suas consultas, o Esculápio[3] trapeiro apareceu, com o cesto ao ombro e o croque na mão, aproximou-se e, perguntou-lhe se o papel que acabava de representar era algum resto dessas velhas e extravagantes franquezas a que se arrogavam antigamente os truões e velhacos da Idade Média.

— Não — respondeu-lhe o trapeiro —, eu sou exatamente doutor em medicina pela Faculdade de Paris. O meu diploma está registrado na prefeitura, e na secretaria do tribunal civil do Sena. Satisfiz a todas as determinações da lei.

E, deixando aparecer um sorriso nos lábios, disse:

— Sou talvez o médico de Paris que vê mais doentes.

Como, porém, receasse deixar-se arrastar pelos encantos de alguma confidência, afastou-se, movendo em torno de si a sua lanterna, com cujo clarão descobriu um trapo, que fisgou com tal destreza que causava dó não a empregasse em operações cirúrgicas.

Nunca mais, desde a época em que escrevi essas, linhas tornei a ouvir falar no médico trapeiro. Mas, há algum tempo, recebi uma carta assinada por um nome que não pude ler, e acompanhada da formula D.M.P. Nela, o meu correspondente dizia-me que, não ousando apresentar-se em minha casa, nem receber-me na sua, pedia-me, em atenção a nossa qualidade de colegas, que eu assentisse a uma entrevista, para a qual me designava uma taverna no subúrbio de Fontainebleau.

Lá fui.

O nosso encontro devia ter lugar em um desses cafés escusos, de que são povoados os subúrbios de Paris, e nos quais o povo pobre, embriagado por um líquido sem nome, sonha todos os vícios e depravações.

Apesar da repugnância que aquela taberna me causou, entrei resolutamente. Imediatamente, o dono dela, sem dúvida prevenido da minha visita, conduziu-me a uma sala nos fundos, onde vi encostado a uma mesa um homem cuja cabeça, encanecida pela idade, tinha alguma coisa de nobre, apesar dos andrajos que o cobriam.

Percebendo o ruído dos meus passos, esse homem levantou-se e, depois de me ter cumprimentado com civilidade tal que eu não pudera presumir, indicou-me um banquinho em frente ao do qual se tinha levantado.

O taverneiro retirou-se e ficamos sós.

— Agora o senhor deve compreender e desculpar o motivo que me impediu de ir à sua casa.

O espanto que essa aventura me causava dominava-me a ponto de não me ocorrerem palavras para responder. O meu interlocutor continuou:

—Era-lhe impossível vir à minha casa.

E, mostrando-me uma cesta encostada a um canto da casa, disse:

— Os trapeiros não têm casa. Quando a fadiga ou o sono obriga-os ao repouso, eles obtêm, por um soldo, um albergue que lhes fornece um pouco de palha durante algumas horas do dia ou da noite. Os “aristocratas” da profissão pagam dois soldos por uma cama.

E, deixando passar pelos lábios um riso sardônico, prosseguiu:

— Os meus clientes não são tão ricos que me possam dar para esse luxo.

Mas, reassumindo logo seu ar grave, disse:

— Tenho abusado já bastante do direito que me dá o título de seu colega em medicina. Vou já ao objeto da nossa entrevista.

Depois de curta pausa, continuou:

— Na desgraça que me conduziu ao estado em que me vê, tive apenas um amigo. Sua lembrança é a única alegria que o céu me conservou neste mundo. Há quinze anos que o meu coração não tem conhecido outra mais doce, nem mais consoladora. E, à força de apreciá-la, sonhei com outra maior ainda, que somente o senhor pode ajudar-me a realizar. Desejo, antes de morrer, tornar a ver esse amigo, ainda que seja de longe.

Prometi ao meu colega a mais ativa colaboração, se me quisesse indicar o papel que me destinava.

— Os maníacos por livros — prosseguiu ele com leve sorriso — somente à custa de grandes despesas adquirem aqueles que são editados. Mas eu, cuja fortuna, evaporando-se, não me extinguiu o gosto pela leitura, leio todos os papéis, manuscritos ou impressos que me vêm cair dentro da cesta. De todos esses papéis, poderia arranjar-se um livro bem curioso, e a curiosidade humana, eu asseguro, ficaria mais que nunca satisfeita. Mas... nada importa isso, vamos adiante. Um dia apanhei uma prova de um fragmento do seu Anuário Médico da França e por ela vi que a sua obra me oferecia meio de encontrar o meu amigo. Desde o dia em que lancei mão do croque e da cesta de trapeiro não tornei mais a vê-lo distância moral existente entre mim e ele fez-me perder os seus vestígios.

O trapeiro disse-me, então, o nome do seu amigo, que, assim como nós, era doutor em medicina. Por conseguinte, se ainda vivesse, devia achar-se inscrito no meu anuário. Não me era possível satisfazer imediatamente a curiosidade do meu interlocutor. Era-me preciso examinar registos e correspondências numerosas para chegar a algum dado positivo. Nova entrevista tornava-se, portanto, necessária.

— Venha a minha casa — disse-lhe. — A casa do médico é como a de Deus: não se ofende pela miséria que a visita.

E, apertando afetuosamente mão que lhe apresentei, disse-me:

— Sim, até depois. E estou mil vezes agradecido, porque eu lhe deverei a derradeira e maior alegria da minha vida.

Retirando-me, julguei que, se não tinha já adquirido a amizade desse homem, ao menos tinha obtido a sua confiança.

Não me enganei.

O médico, cujas pegadas me encarregara de indagar, tinha morrido havia um ano em uma pequena cidade de Orleans; e eu tomei a peito fazer conhecer ao trapeiro essa fatal notícia com todas as precauções e zelo que são devidos à desgraça.

Esse tão simples procedimento colocou-me tão alto na estima dele que, apresentando-me a mão tremula, disse:

— O céu compadeceu-se de mim nesta última aflição com que acaba de ferir-me. Eu poderia ter tido notícia morte do meu amigo por algum pedaço de papel que me caísse nas mãos... Ah, meu Deus, louvado sejas por essa suprema comiseração!

Depois que acalmou um pouco a sua dor, e depois de enxugar as lágrimas com um pedaço da sua blusa, prosseguiu:

— Quero provar o meu reconhecimento — disse — contando-lhe a minha vida. O segredo da minha queda, com a minha cesta e o meu croque, são as únicas coisas que possuo neste mundo. O senhor nada poderia aproveitar com os meus instrumentos de trabalho, ao passo que há de tirar uma proveitosa lição da minha história.

 O trapeiro não me poderia causar maior satisfação. Começou nestes termos:

— Por mais de dez anos fui médico da aristocracia parisiense. E muitos dos seus mais afamados doutores invejariam hoje a posição que eu então ocupei. No número dos meus mais fiéis clientes, eu contava uma jovem família, cujo nome e fortuna eram dos mais notáveis. A dona da casa, nervosa e delicada como todas as pessoas criadas no luxo, e nos ares corrompidos dos salões, queixava-se frequentemente de estremecimentos, sacudidelas e sobressaltos de tendões, que degeneravam muitas vezes em verdadeiras crises nervosas. Esse estado, com que todas as pessoas da casa estavam habituadas, não as assustava; e só eram reclamados os meus cuidados apenas como um desencargo de consciência.

“Uma noite, em que tinha reunido alguns amigos em minha casa, fui chamado. Disseram-me que aquela senhora padecia de uma das suas crises nervosas. Mais preocupado com a companhia que deixara do que com própria doente, fiz-lhe inspirar, segundo o costume, éter sulfúrico; e, vendo que se restabelecia, julguei a crise acalmada, e retirei-me, tendo prescrito uma poção. E, julgando-me feliz por ir gozar da companhia dos amigos que me esperavam, parti.

“Uma hora depois, vieram chamar-me a toda a pressa. Quando cheguei, a doente estava morta.

“Terrível espetáculo ofereceu-se, então, a meus olhos: a cama estava literalmente inundada de sangue que, atravessando os colchões, espalhara-se pelo chão. Evidentemente, a morte era o resultado de uma hemorragia. Descobri o corpo e, com espanto meu, assim como de dois criados presentes, observei uma ferida profunda na coxa direita, com hemorragia da artéria femoral. Indagando dos criados a causa dessa ferida, eles a ignoravam. Perguntei pelo marido da desgraçada que acabava de sucumbir. Um deles me respondeu que seu amo, com as feições desfiguradas e roupas em desordem, havia saído, tendo-os prevenido da crise nervosa de sua mulher. E, desde esse momento, não o tornara mais a ver.

“Sem dúvida alguma, um crime havia-se consumado, e eu apressei-me por avisar ao comissário de polícia. Com a chegada desse magistrado, achou-se na chaminé, atrás do caixilho que era colocado no verão, um punhal ensanguentado, cuja lâmina conferia exatamente com a ferida da vítima. Pertencendo essa arma ao marido, era evidente que ele era o autor do crime. Prosseguindo o processo, soube-se dos seguintes detalhes: apesar de uma leve indisposição de sua mulher, o marido tinha tido com ela uma discussão relativa a interesses de família, durante a qual, dominado por um movimento de cólera violentíssimo, se apoderara duma arma pendurada à parede. E, lançando-se sobre a mulher, com ela travou uma luta muito desigual. Por alguns minutos, a desgraçada vítima sustém o braço de seu assassino; mas, alquebrada, enfim, por inúteis esforços e pelo medo da morte, cai em uma crise nervosa, durante a qual o marido perturbado fere-a com a mão vacilante, e o punhal, mal dirigido, acerta-lhe a coxa em vez do coração.

“A visão do sangue, as convulsões da vítima e talvez os remorsos, paralisam esse homem. Caindo em si, deixa o punhal na chaminé, cobre o corpo para dissimular seu crime, e foge para longe desse horrível espetáculo, avisando o criado de que sua mulher acabava de ser atacada de uma crise nervosa.

“Compreende-se o papel que eu representava nesse processo: o Ministério Público e o defensor do marido acusaram-me sucessivamente de ter deixado a vítima morrer. Sem a ignorância e inépcia do médico — dizia o advogado —, o seu cliente não teria que responder por uma acusação por homicídio, mas somente por simples contusões e feridas.

“Esse acontecimento deu muito que falar, tanto pela posição social dos atores, como pelo escândalo e singularidade das circunstâncias. Meu nome, repetido de boca em boca, foi vilipendiado e amaldiçoado. E uma honrosa reputação, adquirida à custa de quinze anos de trabalhos e fadigas, foi, de repente, despedaçada. Meus colegas, longe de me defenderem, foram os primeiros a me acusarem. As mais pesadas invectivas me foram por eles dirigidas. Um só se declarou a meu favor, e defendeu o meu crédito em todos os lugares em que dele tratou. Era o amigo cuja morte o senhor acaba de me declarar. Apesar da sua dedicação, o número de meus clientes diminuiu rapidamente, e eu em breve eu me vi no estado de não mais poder sustentar a posição que até então tinha ocupado como doutor em medicina. Com a desgraça, abandonaram-me aqueles que se diziam meus amigos, e vi-me só, conservando um profundo desprezo pelos homens.

“A vida, deve o senhor adivinhar, tornou-se indiferente para mim. Pouco me importava se ela me fosse arrancada. Eu deixava o mundo onde tinha brilhado, e confundia-me com os homens do povo, cuja ignorância e rudez não me despertam, sequer, as ideias do meu passado”.

O trapeiro calou-se. Enxugou uma lágrima que essas recordações lhe haviam feito chegar às pálpebras e, tendo tomado a sua cesta e o seu croque, estendeu-me a mão, dizendo:

— Tenho hoje doentes que não me acusam de ignorância e inépcia. Vou vê-los. Adeus.

E foi-se embora.

Tal é esse homem singular, cuja alma sem aspereza e inteligência sem nuvens estão ainda inteiramente dedicadas ao serviço do sofrimento, apesar de tantos motivos de misantropia. O estudo da medicina, segundo diz um antigo filósofo, eleva o homem acima de seus semelhantes, e inspira-lhe pensamentos dignos dos deuses.


Tradução de autor desconhecido. 



[1] Doutor em Medicina por Paris.

[2] Eugène Sue (1804 - 1857), romancista francês, muito popular em seu tempo, autor de Les Mystères de Paris.

[3] Na mitologia clássica, Deus da Medicina.


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