O PROTETOR - Conto de Guy de Maupassant


 

O PROTETOR

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)

Tradução de autor desconhecido início do séc. XX

 

Nuca sonhara com tão grande fortuna. Filho de um meirinho da província, Jean Marin viera, como tantos outros, estudar o seu Direito no Bairro Latino. Nos diferentes botequins que sucessivamente frequentara, tornara-se o amigo de vários estudantes faladores que discutiam política bebendo chope.  Começou a admirá-los e segui-los obstinadamente, de café em café, pagando as contas quando tinha dinheiro.

Fez-se depois advogado e pleiteou várias causas, sempre perdendo. Ora, numa manhã, leu nas folhas que um dos seus antigos companheiros do bairro fora eleito deputado. Foi de novo um cão fiel, o amigo que faz as encomendas e os recados; o amigo que se procura quando há alguma necessidade e com quem não há cerimônia. Mas, por simples aventura parlamentar, sucedeu que o deputado se tornou ministro; seis meses depois, Jean Marin era nomeado conselheiro do Estado.

 

*

 

Numa grande crise do orgulho, quase perdeu a cabeça. Quando saía a passeio, o seu grande desejo era mostrar-se, como se fosse possível adivinhar-lhe a posição pelo simples aspecto. Sempre achava pretexto para dizer aos negociantes com quem lidava, aos vendedores de jornais, mesmo aos cocheiros de carro, a propósito das coisas mais insignificantes:

— Eu que sou conselheiro de Estado...

Depois, muito naturalmente, como uma consequência da sua própria dignidade, por necessidade profissional, por dever de homem poderoso e de coração, sentiu uma necessidade imperiosa de proteger. Oferecia o seu apoio a todo o mundo, em qualquer ocasião, com uma generosidade inesgotável.

Quando encontrava nas avenidas uma pessoa do seu conhecimento, falava-lhe deleitado, tomava-lhe as mãos, informava-se da saúde e, sem esperar perguntas, declarava:

— Como sabe, sou conselheiro do Estado e inteiramente ao seu dispor. Se lhe puder ser de qualquer forma útil, diga sem cerimônia. Na minha posição, tudo facilmente se alcança.

E entrava nos cafés, em companhia do conhecido, a pedir pena, papel, tinta: "uma só, meu rapaz; uma só; é para uma carta de recomendação”.

E por dia eram dez, vinte, trinta, cinquenta cartas de recomendação. Escrevia no café Americano, no Bigaron, no Tartoni, na Maison Doré, no café Riche, no Helder, no café Inglês, no Napolitano, em toda parte, em toda parte. Dirigia-se a todos os funcionários da República, aos juízes de paz, aos ministros. Era feliz, soberanamente feliz.

 

*

 

Uma manhã, ao sair de casa para o Conselho de Estado, começou a chover. Hesitou em tomar um carro, desistiu por fim e foi a pé. O aguaceiro era horrível, alagava as ruas, invadia as calçadas. Jean Marin teve de se abrigar em uma porta. Já lá estava um velho sacerdote, um velho sacerdote de cabelos brancos.

Antes de ser conselheiro de Estado, Jean Marin não gostava do clero. Começaram, porém, a tratá-lo com consideração depois que um cardeal o consultou muito respeitosamente sobre um negócio difícil. A chuva inundava tudo, obrigando os dois homens a se refugiarem no biombo do porteiro para evitar as goteiras e os respingos. Jean Marin, que sentia sempre o prurido de falar para se pôr em evidência, declarou:

—Tempo miserável, Sr. abade.

O velho sacerdote inclinou-se:

—Sim, meu senhor, sim; bem desagradável quando só se vem a Paris por alguns dias.

— Ah! É então da província?

— Sim, meu senhor; estou aqui de passagem.

— Com efeito, é bastante desagradável passar pela capital exatamente em dias chuvosos. Nós outros, funcionários, que aqui ticamos o ano inteiro, nem reparamos na chuva.

O abade não respondia. Olhava as ruas, onde a chuva caía menos copiosamente. E, tomando uma resolução pronta, levantou a sotaina, como as mulheres levantam as saias, para atravessar os riachos. Jean Marin, vendo-o partir, exclamou:

—Vai se molhar, senhor abade. Espere ainda alguns instantes; vai estiar.

O bom do velho hesitou um momento, parou e replicou depois:

— É que tenho pressa: uma entrevista urgente.

Jean Marin parecia desconsolado.

—Mas, positivamente, vai ficar um pinto. Será possível saber para onde se dirige?

O cura parecia vacilar e depois disse:

—Vou para os lados do Falais Royal.

 —Neste caso, se o permite, Sr. abade, tenho muito prazer em o abrigar com o meu guarda-chuva. Vou ao Conselho de Estado. Sou conselheiro de Estado.

O velho padre ergueu o nariz e olhou o companheiro:

 —Muito agradecido, senhor; aceito com satisfação.

Então Jean Marin tomou-lhe o braço e levou-o. Dirigia-lhe os passos, tinha mil cuidados, dava-lhe conselhos:

 — Cuidado com esta corrente, Sr. abade. Desconfie sempre das rodas dos carros: salpicam-nos de lama, dos pés à cabeça. Muita atenção com os guarda-chuvas alheios. Nada mais perigoso para os olhos que as pontas das varetas. As senhoras, principalmente, são insuportáveis. Não prestam atenção a nada e vão espetando a cara do próximo com as pontas das sombrinhas ou dos guarda-chuvas. E não se incomodam por ninguém. Pensam que a cidade lhes pertence. Reinam nas calçadas e nas ruas. Tudo isto, a meu ver, é educação descuidada.

E Jean Marin começou a rir.

O cura não respondia. Um pouco curvado, ia procurando lugar onde pisasse: não queria enlamear os sapato; nem a batina.

Jean Marin continuou:

—Vem, certamente, a Paris, para se divertir um pouco.

O padre respondeu:

—Não; é negócio.

—Ah! Negócio importante? Não será ousadia perguntar-lhe do que se trata? Se lhe puder ser útil, inteiramente ao seu dispor.

O cura parecia embaraçado. Murmurou:

 —É uma pequem questão pessoal. Uma pequena dificuldade... com o meu bispo. Como vê, não lhe interessa. É... uma questão de ordem interna de... de matéria eclesiástica.

Jean Marin entusiasmou-se:

—Mas é justamente o Conselho de Estado que regula estes assuntos. Neste caso, sem cerimônia.

—Sim, senhor, vou exatamente ao Conselho de Estado. Muito agradecido à sua extrema bondade; tenho de talar ao Sr. Lerepére, ao Sr. Savon e talvez, mesmo, ao sr. Petitpas.

Jean Marin estacou:

—Mas são meus amigos, Sr. abade. Meus melhores amigos, excelentes colegas, pessoas encantadoras. Von recomendá-lo vivamente a todos os três. Conte comigo.

O cura agradeceu, confundido, cheio de desculpas, balbuciando mil ações de graças.  Jean Marin estava encantado.

— Pode se orgulhar de ter uma sorte única, Sr. abade. Vai ver, vai ver, como, graças à minha influência, o seu negócio caminhará suavemente.

Chegavam ao Conselho de Estado. Jean Marin recebeu o padre no seu gabinete, ofereceu-lhe uma poltrona, instalou-o junto ao fogão, depois sentou-se à mesa e começou a escrever:

 

“Caro colega. Permita que lhe recomende insistentemente um venerável sacerdote dos mais dignos e dos mais ilustres, o Sr. abade...”

 

Suspendeu a pena e perguntou:

—Seu nome é...

—Abade Ceinture.

Jean Marin continuou.

 

“O Sr. abade Ceinture, que tem necessidade dos seus préstimos para um pequeno negócio de que lhe falará”.

 

E terminou com as saudações de costume.

Terminadas as três cartas, entregou-as ao seu protegido, que lá se foi após um número infinito de agradecimentos.

 

*

 

Jean Marin fez o seu trabalho, entrou em casa, passou o dia tranquilamente, dormiu em paz, acordou satisfeito e mandou vir os jornais. O primeiro que abriu era uma folha radical. Leu:

 

“O nosso clero e os nossos funcionários.

“'Não nos cansaremos de registrar os crimes do clero. Um certo padre,  chamado Ceinture, apontado como conspirador contra o atual governo,  acusado de atos indignos que nem mesmo citaremos, de quem se suspeita ser um antigo jesuíta metamorfoseado em simples sacerdote, repelido por um bispo, por motivos que não é possível declarar e chamado a Paris para dar explicações a respeito da sua conduta, encontrou um ardente defensor no chamado Marin, conselheiro de Estado, que não receou dar a esse malfeitor de batina cartas de recomendação para todos os funcionários, republicanos, seus colegas.

“Apontamos ao ministro a atitude inqualificável deste Conselheiro de Estado”.

 

Jean Marin ergueu-se de um salto, vestiu-se, correu à casa do seu colega Petitpas, que lhe disse:

—Que loucura me recomendar àquele velho conspirador.

E Jean Marin, desorientado, gaguejou:

—Não é isto... como vê... fui enganado. Tinha um ar de tanta importância... divertiu-se à minha custa... divertiu-se indignamente. Condene-o severamente, bem severamente, peço-lhe eu. Vou escrever. Diga-me o que devo escrever para o condenarem. Vou ao procurador-geral, vou ao arcebispo de Paris — sim, ao arcebispo.

E sentando-se bruscamente à secretária de Petitpas, escreveu:

 

“Senhor, tenho a honra de levar ao conhecimento de Vossa Excelência Reverendíssima que acabo de ser vítima das intrigas e das mentiras de um certo abade Ceinture, que abusou da minha boa-fé. Enganado pelas declarações deste eclesiástico eu pude...”

 

 Depois, quando assinou e lacrou a carta, voltou-se para o colega e declarou:

—Veja, meu caro amigo; que isto lhe sirva de lição; nunca recomende ninguém.

 

Fonte: Jornal do Commercio/AM, edição de 21 de fevereiro de 1909.

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