OS LOUCOS - Crônica - Miguel Sawa

OS LOUCOS

Miguel Sawa

(1866 – 1910)

Tradução de autor anônimo do séc. XX

 

Saíram de Lugo dezessete dementes, condenados à pena de reclusão perpétua no manicômio de Valhadolide. Já no trem, os reclusos, depois de se examinarem, receosos, começaram a falar entre si.

—Eu — disse um deles —, segundo os médicos, estou mal da cabeça. E não é verdade. Se gasto o dinheiro em farras é porque é meu. Bom suor me custou ganha-lo lá nas terras da América. Mas minha mulher foi queixar-se ao juiz de que eu a estava arruinando. E o juiz mandou chamar um médico para me examinar. E o médico, comprado pela minha mulher, declarou-me louco. E é por isso que me levam para o manicômio, é por isso.

—Eu — disse outro —, não estou certo de minha razão. Surpreendi minha noiva falando tarde da noite com um homem e caí sobre ela. Ele fugiu covardemente, abandonando-a à minha ira, e eu me fartei de retalhá-la a golpes de navalha. Vieram os guardas e me prenderam. Eu chorava e ria a um só tempo e dava gritos e queria matar-me. Então me puseram uma camisa de força. E veio um homem e, sem sequer me olhar, declarou-me louco. E louco estou e estarei até que morra.

—Pois eu  continuou um terceiro  não sei por que me levaram para o manicômio. Garanto que na minha vida não fiz nada de mau. Mas a gente do meu lugar pegou a mania de dizer que eu estava louco. O que podem as más línguas! Tudo por uma questão de inveja. Porque sabem que sou irmão do rei Filipe II.

— A mim — acrescentou um quarto —, prenderam-me por um motivo análogo. Também por questões de inveja. Porque saibam os senhores que, aqui onde me veem, sou o imperador da França, já falecido, a quem chamavam Napoleão I.

— Perdoe, senhor, Napoleão I sou eu — respondeu outro dos loucos.

— Calma, senhores, ou esses homens que nos vêm guardando são capazes de acreditar que, efetivamente, perdemos a razão.

Alheio a estas disputas, um dos alienados, com a cabeça oculta entre as mãos, cantarolava docemente:

 

Aí tens meu coração…

Se queres, mata-o, meu bem,

mas, como estás dentro dele,

se o matas, morres também. 

 

Outro dos loucos gritava exaltado:

—Digam os senhores o que quiserem; se agora é dia, mais tarde será noite!

—Napoleão I sou eu!

—Bem, não discutamos; nesse caso eu serei o sultão da Turquia.

 

*

 

E o trem prosseguia o seu caminho, rumo de Valhadolide, conduzindo aquele triste comboio de enfermos.

 

 

Fonte: “Primeira”/RJ, edição de 10 de março de 1929.

 

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