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A CIGANA - Narrativa Breve - Prosper Mérimée

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A CIGANA Prosper Mérimée (1803 – 1870) Tradução de Paulo Soriano   No ano passado, uma espanhola contou-me a seguinte história: Um dia, passava ela pela rua de Alcalá, muito triste e preocupada. Foi quando uma cigana, agachada na calçada, gritou-lhe: — Minha linda senhora, teu amante te traiu. Era a verdade. — Queres que eu o traga de volta para ti? Compreende-se com que alegria a proposta foi aceita e qual deveria ser a confiança inspirada por uma pessoa que, num relance, adivinhara os íntimos segredos de seu coração.   Como seria impossível realizar os ritos mágicos na rua mais movimentada de Madri, combinou-se um encontro para o dia seguinte. —Nada é mais fácil do que trazer de volta, a seus pés, um homem infiel — disse a cigana. — Tens em um lenço, um cachecol ou uma mantilha que ele te tenha dado? A cigana recebeu um lenço de seda. — Agora costura, com seda carmesim, uma piastra [1] num canto do lenço. Em outro canto, costura meia piastra; e, aqui, uma moedinha; ali, uma...

LAMENTO - Poema em Prosa - Charlotte Brontë

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  LAMENTO Charlotte Brontë (1816 – 1855) Tradução de Paulo Soriano   Há muito tempo, desejei deixar a casa onde eu nasci e costumava sofrer. Minha casa parecia tão abandonada! Outrora, os seus cômodos silenciosos estavam repletos de medos assombrosos. Mas, agora, a sua memória cobre-se de ternas lágrimas. Conheci a vida e o casamento, que, noutros tempos, eram tão fulgurantes. Mas, presentemente, vejo que se esvaiu cada raio de luz! No mar desconhecido da vida, eu não encontrei ilha abençoada. Mas, finalmente, por sobre as suas ondas selvagens, o meu barco volta para casa. Adeus, profundidade sombria e ondulante! Adeus, estranhos litorais! Abri, em amplas nuvens, o vosso glorioso reino! Malgrado eu tenha conseguido passar, em segurança, o ora cansado, ora tumultuoso rio, uma voz amada, ente ondas e rajadas, poderia chamar-me de volta. Numa manhã resplandecente, vívida na alma, erguer-se-ia, sobre o meu Paraíso, William. Mesmo do repouso do Céu, eu voltaria...

ALEGRIA DA VIÚVA - Conto de Teófilo Braga

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ALEGRIA DA VIÚVA Teófilo Braga (1843 – 1924)   Era uma vez um homem casado; a mulher dizia que morria por ele, e que Deus nunca dera a ninguém um marido assim. O homem fiava-se naquelas palavras, e quando andava no campo a trabalhar dizia para o criado: — Não há ninguém que tenha uma mulher como a minha. O criado disse que não era bom experimentar, porque podia ficar enganado. Disse o patrão: — Agora é que desafio todo o mundo para me mostrarem uma mulher melhor do que a minha. — Pois eu estou pronto para uma experiencia. À noite, quando formos para casa, vai o patrão atravessado na palha fingindo que morreu, e o resto fica por minha conta. Assim aconteceu; o criado chegou mais tarde do que o costume, bateu à porta, e com grande pranto contou como o patrão tinha morrido de repente. Quando a mulher ia começar a fazer grandes choros, disse-lhe o criado: — Oh minha ama; é melhor não dar a saber isto à vizinhança, porque se enche logo a casa de gente, e tudo quanto lhe vier fazer compa...

INFERNO NO CÉU - Crônica de Júlio Portus Cale

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  INFERNO NO CÉU Júlio Portus Cale   Porque virtuoso, quando morri, fui direto para o Céu. Lá chegando, procurei prontamente Santo Antônio, o mais milagreiro dos santos e o meu santo de devoção. Encontrei-o sentado a uma escrivaninha, debruçado sobre um livro imenso, fazendo apressadas anotações com uma pena. Tinha um ar de grande cansaço, mas trabalhava febrilmente. — Com licença, Santo Antônio. Posso me sentar um bocadinho? — Um dedinho de prosa é bem-vindo. Fique à vontade. Sentei-me. — Meu santo, o senhor parece-me cansado — disse-lhe. — Extenuado, meu filho! Extenuado! Somente nesse minutinho, desde que você chegou, já vieram 50 novos pedidos de casamento. É difícil dar conta de tanto pedido.   E olhe que, hoje em dia, casamento é coisa difícil... —Mas é assim que o senhor faz os milagres, escrevendo num livro enorme? — Não, meu filho.   Este aqui é o livro de registro. — Então o senhor é um burocrata? Não faz milagres de verdade? — P...

O FANTASMA - Conto de Emilia Pardo Bazán

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  O FANTASMA Emilia Pardo Bazán (1851 – 1921) Tradução de Paulo Soriano     Quando eu fazia faculdade em Madri, todas as quintas-feiras comia na casa dos meus parentes distantes, os senhores de Cardona, que, desde o primeiro dia, me acolheram e trataram-me com sumo carinho. Marido e mulher formavam um contraste gritante: ele era robusto, sanguíneo, franco, alegre, partidário de soluções práticas; ela, pálida, nervosa, romântica, perseguidora do ideal. Ele se chamava Ramón; ela tinha o nome antiquado de Leonor. Para minha imaginação juvenil, aqueles dois seres representavam prosa e poesia. Esmerava-se Leonor por me apresentar os pratos de que eu gostava, minhas guloseimas preferidas, e com as próprias mãos preparava-me, numa brunida cafeteira russa, o café mais forte e aromático que pode apetecer a um aficionado. Seus dedos longos e delgados me ofereceram a xícara de porcelana e, enquanto eu saboreava a deliciosa infusão, os olhos de Leonor, do mesmo tom escu...

O FATOR IGNORADO - Conto Humorístico de Ambrose Bierce

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  O FATOR IGNORADO Ambrose Bierce (1842 – 1914?) Tradução de Paulo Soriano     Um homem era dono de um belo cão. Depois de uma cuidadosa seleção, deu a ele uma companheira, da qual nasceram vários animais quase angelicais. O homem, tendo se apaixonado por sua empregada, casou-se com ela, produzindo uma ninhada de imbecis. — Ai de mim! — exclamou o homem, contemplando aquele funesto resultado. — Se eu tivesse escolhido a minha mulher com a metade do cuidado que dediquei à escolha da cadela, eu seria agora um pai orgulhoso e feliz! — Eu não teria tanta certeza disto — disse o cão, que escutara aquele choramingo. — Decerto, há enorme diferença entre a minha e a sua prole, mas arrisco a ufanar-me de que tal disparidade não se deve totalmente às mães. Você e eu não somos exatamente iguais.

O NATAL DO LADRÃO - Conto de Pierre Verber

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  O NATAL DO LADRÃO Pierre Veber (1869 – 1942) Tradução de Humberto de Campos (1886 – 1934)   As crianças que uma insônia precoce tivesse conservado acordadas nessa meia-noite de Natal, teriam tido uma singular concepção de Noel, se houvessem levantado os olhos para o teto do prédio nº 55 da rua Marboeuf. Efetivamente, sobre o telhado da casa, errava, a essa hora, um indivíduo sem o tradicional burel de linha branco nem cesto de brinquedos às costas, mas, apenas, com o traje habitual dos "apaches" e um pacote de ferramentas na mão.   — Bolas! — exclamava este, entre os dentes. — Querem ver que hoje ninguém sai de casa e eu tenho de passar a noite sem comer!   A essa hora, exatamente, no prédio 55, uma pobre criatura suspirava e gemia, na tristeza do seu destino. Era uma dama de uns cinquenta anos, famosa na vida galante do seu tempo, mas a quem o declínio do corpo havia afastado da atividade mundana.   — Bons tempos! — meditava a mísera. — Há v...